Segunda Parte - Capítulo VI
Correspondiam-se, diariamente Maria Henriqueta e Filipe. Bafejava-os a fortuna na pessoa de Eugenia, que a certa hora da noite dava e recebia as cartas pelo muro do jardim. Eram felizes porque amavam, esperavam, e confiavam nos milagres da sua constância.
O pai de Filipe era pessoa de grandes relações com a fidalguia transmontana. Os mais superciliosos cavalheiros prezavam-se de o chamarem primo. Todos se lhe prestavam a cooperar para persuadir a Gonçalo Malafaya o acerto do casamento com um moço tão bem prosperado em sua carreira militar, e de nascimento assaz ilustre para emparelhar, sem desaire, com os mais qualificados no reino.
A fidalguia empenhada acertou de chamar a si os parentes de D. Maria das Dores, que eram também os de Gonçalo; mas preponderavam nela mais. Confluíram à mãe de Henriqueta cartas de muitas senhoras suas amigas da mocidade, e das suas mais íntimas no mosteiro de Arouca. Uma açafata de D. Carlota Joaquina escreveu-lhe em nome de sua ama. É onde podia chegar a influencia do fidalgo de Mirandela, mais por amor do filho que da riqueza da noiva.
Maria das Dores inclinou-se a favor de Filipe, e mostrou ao marido a petição da açafata. Gonçalo Malafaya, quando tal viu, Sofreu um acesso de vertigem furiosa, e rasgou a carta entre os dentes. D. Maria teve medo dos arremessos do marido, e deixou-o bravejar e urrar contra a conjuração dos seus matadores.
Maria Henriqueta, amorável com seu pai por que tinha a trasbordar o amor do peito, afrontou-se com o medo, e foi suplicante aquietar-lhe os ímpetos. O velho repeliu-a com arrebatada virulência.
Velho lhe chamei eu pela primeira vez: estava-o deveras; sem um cabelo negro, e não tinha ainda quarenta e oito anos! Fibra no rosto uma só não tinha lisa do arar do fogo interior. Abaixo do rebordo das orbitas parece que o absinto das lágrimas lhe calcinara a pele. Inclinava-se já para o chão, como a pedir à terra que o acolhesse e escondesse do seu mau anjo! Nas horas de solidão, poderiam ouvi-lo exclamar muitas vezes: «Ó Beatriz de Noronha! tira-me este cálix dos lábios, ou verte-mo de uma vez no coração, para que eu morra de uma só agonia!»
Que flagelo de vida no seio da riqueza! que inferno naquele palácio, arreado de sedas, de librés, de equipagens, de tudo que morde a inveja, e conjura a pobreza contra a caprichosa partilha de Deus!
Ergueu-se um dia Gonçalo Malafaya, ao cabo de uma noite infinita de cálculos dilacerantes. Alumiava-lhe o rosto o clarão sinistro da demência. Viram-no esposa e filha, e gelaram de medo. Era a horas de almoço, ao qual desde muito o fidalgo não assistia. Entrou inesperado, cruzou os braços, e exclamou com enérgica veemência:
—É amanhã!
—Amanhã o quê, primo Gonçalo?
—Que a má filha há de entrar no convento de Arouca, senão hei de dar-te um punhal para que mo enterres no peito.
—Irei, meu pai, irei hoje mesmo, se v. ex.ª o determina.
—É amanhã—bradou ele.—Eu morrerei depois de amanhã. Quando eu estiver sobre terra, sai do convento, cospe na minha cara, e levanta-te com a herança da casa de teus avós e com a minha maldição.
Maria Henriqueta encostou o peito ao bordo da mesa, e cobriu o rosto com as mãos. Chorava; e o pai sentiu-se mais desoprimido com as lágrimas da filha. Deu alguns passos até defrontar com ela, e disse:
—Essas são as menos amargas que tu choras. Outras virão... tenho aqui na alma o preságio de outras, que hás de verter sobre o cadáver do homem que me aponta ao peito o ferro, com o braço guiado pela mão de minha mulher.
—Penso que enlouqueceste, primo!—disse Maria das Dores.
—Emudece, serpente!—exclamou em fúria o transfigurado velho.—Enroscaste-te à minha mocidade, mataste aquela criatura divina, mataste a minha alegria, empeçonhaste o coração de tua filha, e estás agora minando-me a sepultura para esconderes de ti este fantasma de remorsos!...
A síncope, em que desfechou a desarrazoada apóstrofe, delatava que os receios da loucura não eram de todo panicos. em aquelas acusações era manifesta a injustiça.
Bem viram que Maria das Dores foi de todo alheia às desventuras de Beatriz de Noronha, sobre ser obrigada a aceitar o marido, proposto desde a sua infância. O leitor pode negar sua simpatia ao caráter de Maria das Dores; mas, se a punir com o seu ódio, é injusto. Pender, em bem da filha, contra a imposição do casamento, é virtude para muitos louvores. Se o fez por ânimo contradictorio, feliz culpa a sua; se por experiência de sua desgraça, abençoada defesa da pobre menina, e abençoada sempre, embora estes infelizes todos se venham a abismar guiados por suas estrelas funestas.
—Vai para o convento, Maria—disse a fidalga à filha.—Fia de mim que pouco tempo lá estarás. Eu hei de vencer teu pai, com habilidade e paciência. Vou fazer, por teu amor, o sacrifício da humildade. Mas agora é preciso que vás. Se teu pai morre, tens de sofrer remorsos, e remorsos que hão de assaltar-te os dias todos da vida, embora os goses com o homem que amas. Com tempo, serás esposa dele; mas faz muito pelo seres com a consciência tranquila.
Maria Henriqueta rompeu em choro nos braços de sua mãe, e foi dali escrever a Filipe, contando-lhe o seu destino, e as promessas da mãe. O tão apaixonado como generoso moço incitou-lhe a coragem do sacrifício, pedindo-lhe que o oferecesse a Deus como merecimento para ambos lhe merecerem mais tarde a sua benção.
Ao outro día, Maria entrou em uma liteira com sua mãe, seguidas do simples préstito do capelão, a ama, criadas e lacaios.
Maria das Dores, a antiga aia da Santa rainha Mafalda, entrou no seu quarto de infância, e no de suas defuntas tias; e os dias de então, e só esses do seu passado, lhe vieram à memória e amoleceram o coração até às lágrimas.
A reclusa menina, ao ver-se ali, no calado dos claustros, debaixo dos profundos firmamentos, em um dia em que os sinos dobravam à agonia de uma religiosa, e quando outra recebia as últimas honras da sepultura, Maria Henriqueta pensou que ia morrer, e assim o disse na primeira carta, enviada a Filipe.
Demorou-se a mãe alguns dias no mosteiro, e apressou a saída, quando receou pelos dias de Maria Henriqueta. Foi o seu propósito, ao retirar-se, mover o pai a consentir no casamento, ou romper abertamente com ele e com o mundo, protegendo a fuga da filha, se outro expediente não viesse em redenção dela.
Ausente a mãe, aumentaram os terrores de Maria, e as lástimas nas cartas escritas a Filipe. Em algumas, pedia-lhe ela que a salvasse, pelo muito que ela o amara, e pelas muitas dores com que quisera merecel'-o. Salval'-a era arrebatá-la do convento, fugir com ela, cumprir o juramento que lhe tinha feito, quando a chamou ao quarto da ama. Ao mesmo tempo, contava-lhe as nenhumas esperanças que a mãe lhe dava, e as diligências que o pai fazia, para o remover para o ultramar, e tirar-lhes a possibilidade de se cartearem. Disto lhe dera aviso a mãe, assegurando-lhe que as cartas de Filipe, apesar do suborno tentado no correio, haviam de chegar-lhe sempre à mão.
Enganára-se Maria das Dores com as promessas do empregado na transmissão das cartas. Maria Henriqueta, ao fim de três aflitivas semanas, enviou um próprio a Filipe, perguntando-lhe a razão porque a desamparara.
O tenente de cavalaria tinha de marchar naquele dia com o regimento para Lisboa, onde se estava resenhando o exército para começar a luta com a França, cujos generais se avizinhavam das fronteiras.
Pediu licença o tenente por dois dias: foi-lhe negada. Empenhou por si os seus amigos, senhores do segredo da sua vida; baldaram-se as solicitações. Filipe Osório, à última hora, quando os clarins já tocavam a reunir à porta do quartel, viu a imagem de Maria Henriqueta, e ouviu um como gemido de moribunda, e um falar assim de quem se despede: «Vai, e volta alguma vez à minha sepultura!»
O tenente tomou as rédeas do cavalo que o auxiliar lhe oferecia, passou por diante dos clarins que o chamavam, viu ao longe, no ocidente das esperanças da glória, sumir-se a sua estrela, e fitou os olhos em outra, que o chamava sobre um leito de agonia.
Desertou.
A mancha era negra; mas o disco resplendoroso, que lhe alumiava o coração e o ar em que ia aspirando a liberdade louca de amante, não lhe deixava ver a negridão da desonra militar.
Na primeira terra em que pôde escrever liberalisou estipêndio a um portador que levasse uma carta a Mirandela. Era um aviso a seu pai. Noticiava-lhe a deserção e o intento de roubar Maria ao convento e à morte. Pedia-lhe que estivesse um clérigo prestes a recebê-los, logo que ali chegassem, e o dinheiro necessário para se refugiarem em Espanha às penas militares, e à perseguição de Gonçalo Malafaya.
Apeou em Arouca, e procurou Maria. Nenhum impedimento lhe estorvou falar-lhe. Acolheram-no na aposentadoria monacal, como primo da fidalga, que as religiosas amavam pelo muito que a viam padecer. Deu ela o plano da fuga, não fácil, nem talvez exequível. Maria devia transpor um muro, que seria morte certa, se o pé lhe resvalasse de um galho de árvore, em que fiava o apoio para segundo salto à estrada. Impugnou-lhe o plano o susto de Filipe; e ela, para aquietá-lo, prometeu pensar em menos perigosa evasiva; mas pediu-lhe que tivesse os cavalos arreados na seguinte noite.
A lua banhava de livido alvor as paredes do templo. O derradeiro noturno tinha soado no campanário, alteroso vigia, como posto ali em guarda das esposas do Senhor. As paixões e as virtudes dormiam ou pareciam dormir lá dentro do mesmo sono. Cá fora ramalhavam os arvoredos, e o norte assobiava nos agulheiros das torres.
Maria Henriqueta ocupava um quarto sem grades nem rótulos, logar privilegiado das reclusas, que inspiravam à prelada inteira confiança. O salto à cerca era fácil e seguro, com o poderoso auxílio de um telhado de ermida contígua à parede. Deste ao jardim, só mulher que não amasse acharia perigoso o descer. Maria nem de leve sentiu o baque. Ficou sentada na relva, e ergueu-se logo, correndo para o muro, e procurando, entre as gabelas de varas podadas das videiras, uma escada de mão, que encostou à parede. Escalando o muro, tremeu da altura exterior, e viu que se enganara na distância da árvore, que devia ajudá-la na descida. Fincou os joelhos ao cume da parede, e foi-se arrastando até ao ponto da árvore, que o vento sacudia. Este inesperado incidente desalentou-a; só estando queda a árvore ela poderia aferrar-se aos ramos mais robustos, e vergá-los até tomar pé no galho chapotado. Estava ela assim aterrada e imóvel com a vista desarmada a um e outro lado, quando, dentre as árvores da outra orla do caminho, surgiu um vulto, que a gelara de medo, se a voz o não denunciasse ao mesmo tempo.
—Eu esperava isto...—disse Filipe.
—Já tenho ânimo!—exclamou ela.
—Espera!
Filipe, tirando o manto e a farda, que lhe empeciam os movimentos, marinhou pelo tronco da árvore até fincar o pé no rebento que dava sobejo e seguro apoio a maior peso. Depois cingiu com o braço esquerdo o tronco, e disse a Maria que se pendurasse no ramo mais forte, e eminente à cabeça dele. Maria correu as mãos mimosas por sobre as asperezas da ramagem, e recurvou os dedos no mais afastado e grosso ramo que pôde. Deixou o corpo ao seu natural pendor, impelindo-se com o pé fora do muro. O despenho seria infalível, se Filipe a não repuxasse a si, apertando-a ao peito com o braço direito.
Maria Henriqueta ria nesta situação, e dizia:
—E se caímos abraçados?!
—Firma-te!—disse serenamente Filipe.—Apega-te ao tronco da árvore, que eu vou descer. Passa os teus pés devagar para o logar dos meus... Assim... Agora, larga-me, e segura-te... Bem... espera um pouco.
Disse, e saltou ao caminho; mas não se susteve em pé porque era grande o salto. Maria sobresaltou-se, e quis resvalar agarrada ao tronco; mas Filipe já estava erguido, rindo da sua queda para serenar Maria.
Encostou-se à árvore, e disse:
—Desce, até encontrares os meus ombros com os pés. Depois, sem largar o tronco, deixa-te descer conforme eu me for abaixando, e salta quando eu te disser.
A execução da fácil manobra foi feliz. Eles aí vão, embrulhados no mesmo manto. Maria está vestida de branco, e Filipe receia que o ar picante da noite a moleste. Coração em labaredas levam eles; mas o fogo íntimo não basta a retemperar a temperatura da atmosfera. Os catarros são pensão de amadores nocturnos.
Estão os cavalos arreados na aldeia próxima, à mão do velho e leal criado de Filipe. Maria vê o velho, e chora pela sua ama, a quem não deu o último abraço para a não ver morrer. Filipe quer consolá-la, mas não sabe. O criado velho sabe a razão das lágrimas, e diz:
—Quando chegarmos a terra segura, eu volto a buscar a velha. Arranja-se tudo; a morte é que não tem remédio.
Maria consolou-se.
Cavalgaram, e partiram. Ao dobrarem o primeiro outeirinho, Maria apontou para a torre do mosteiro, e disse:
—Que medo me faz aquilo! parece um fantasma! Que horríveis horas aquele sino marcou na minha vida, ó Filipe!
—Deixa-o agora marcar anos de felicidade, minha esposa.
—Quantos marcará, ó Filipe?!!...
Soaram três badaladas.
—Só?!—exclamou ela com supersticioso terror.
—Não sejas criança, Maria! disse Filipe.—Aquilo quer dizer que são três horas.
Caminharam.
O frio da manhã golpeava o rosto de Maria, e as rédeas caíam-lhe dos dedos entrezilhados.
Filipe sentou-a sobre as capas dos coldres, apertou-a ao seio, e aqueceu-lhe as mãos no acolchoado da farda. E assim caminharam, até que o sol dourou o melhor dia daquelas duas existências.