Primeira Parte - Capítulo III Estrelas Funestas · Capítulo 4 de 22
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Primeira Parte - Capítulo III

Estava ainda no Douro Maria das Dores, quando recebeu o inesperado golpe em uma carta muito amorável, que sua filha lhe escreveu do colégio, e outra, não menos humilde, e mais reflectiva do marido. Então compreendeu ela o silêncio de Gonçalo, tendo-lhe ela escrito para o Porto duas cartas, uma queixando-se de passar mal as noites, e desejando que a mãe, a ter de morrer, abreviasse os paroxismos; outra, raivosa, por ter escrito duas, sem receber, sequer, resposta da primeira. Aquele sequer denota que a Sr..ª D. Maria das Dores queria receber resposta da segunda carta que estava escrevendo. E onde pode chegar o mau gênio!

Esteve a senhora algumas horas arquejante de cólera sem saber que deliberação tomar. Rompeu, depois, em queixas contra o pai que, a despeito da vontade dela, a casara com o primo. O velho ouviu os clamores, e disse:—«Se tua mãe vivesse, essa santa poderia contar-te o que me Sofreu a mim. Deus sabe com que remorsos eu cá fico chorando neste mundo!... Eu casei por honra da família, e para me forrar a questões de vínculos e direitos de sucessão, que meu sogro podia disputar-me vantajosamente. A casa ficou solida, e para ti foi, minha filha. Soffri e fiz sofrer; mas quem é que não sofré neste Vale de lágrimas, Maria?»

Não sei se Christovão Azinheiro também sabia a história do rei que mandou chamar o filósofo; se a sabia, dispensou a filha de ouvi-la, e esta, sem lhe dar trela a ditames e conselhos, despediu-se, dizendo que a paciência tinha limites e a desgraça a tinha emancipado. Mal a entendeu o velho; mas sempre lhe disse afinal:—«Lembra-te que és minha filha, e que tens dois santos na família, o Sr.. bispo de Leiria, e a Sr..ª dona abadessa de Lorvão.»

Maria das Dores, sem mesmo se encomendar aos santos familiares, torceu a estrada a meio-caminho, e foi direita a Arouca, em cujo mosteiro ainda tinha vivas suas tias, ocupadas em deslindar as bastardias genealógicas das conventuais, e os últimos milagres operados por algumas freiras que tinham aparecido inteiras na claustra, depois de vinte anos de sepultura.

Abriram-se as portarias à bem-vinda aia da santa rainha Mafalda, e todas as religiosas a acharam mais bela, mais gorda e mais encantadora.

—Vieste ver-nos, pomba;—disseram as tias, convulsivas de júbilo e de velhice.

—Vim vê-las, e pedir-lhes a minha antiga cela.

—Como assim? Tu queres tornar para o convento?

—Sim, minhas senhoras; tornar para o convento, e morrer nele, se me deixarem. Meu marido fugiu-me para Lisboa, roubando-me a minha filhinha, a luz dos meus olhos, o meu coração, a minha alegria, tudo o que eu tinha neste mundo. Casaram-me à força, e agora querem à força matar-me. Pois sim, morrerei; mas há de ser aqui, onde vivi os anos felizes da minha infância, e à sombra de minhas tias, que me não tolheram a felicidade. Não tenho, nem quero ter mais ninguém. Sou rica; mas da minha riqueza tirarei somente os alimentos necessários. Sou rica do que é meu; se o não fosse, pediria a minhas tias um quinhão da sua tença.

—Oh! filha! exclamou a mais escorreita das velhas—Isto não sei o que me parece! Em quanto a mim, essa veneta, que te deu, é desesperação de ciúme!... Olha lá, porque vens tu vestida de dó? Morreu-nos algum primo? Seria o monsenhor da patriarcal D. Joaquim que deve estar muito velhinho? Seria o sr. bispo da Guarda, que é nosso primo pela linha lateral dos Azeredos Pita-Rellas?

—Foi minha mãe que morreu—atalhou Maria das Dores limpando uma lágrima espremida pela raiva no afogo declamatorio.

Ouvida a infausta nova, as senhoras Moscosos Azeredos, que eram tias da mãe de Maria, compuzeram um duo de alaridos roufenhos, que alarmou o mosteiro. Confluíram todas as religiosas à cela, e cada uma garganteou o mais plangente que pôde uma escala chromatica de gemidos. As duas freiras anojadas declararam-se em luto rigoroso, e sentaram-se nas suas cadeiras de sola, a receber os pêsames e as visitas noturnas.

Maria mal podia esconder a sua zanga. O que ela queria era desabafar, gritando e gesticulando; mas o silêncio funeral, que pedia o caso, não se compadecia com o seu desafogo. Já arrependida de entrar no mosteiro, e incapaz de refletir no disparate da saída abrupta, a desarvorada senhora, no dia seguinte ao da entrada, mandou meter os machos à liteira e partiu para o Porto, deixando confirmada a fama, que tinha de douda, no conceito de umas senhoras, e a conjetura de que a perda da mãe a enlouquecera, na opinião de outras. Em quanto às venerandas Moscosos Azeredos, essas, com quanto estivessem pasmadas, não se moveram das suas cadeiras, onde lhes impunha a praxe esperarem a pé quedo que os três dias do nojo expirassem.

Na correnteza destes acontecimentos, estava Gonçalo Malafaya provando-a, sobre todas, mais dorida porção da sua vida. Tentaram-no saudades a ir ao mosteiro de Odivelas, onde sete anos antes professara Beatriz, filha do conde de Miranda. Enganára-se com o seu coração o sensível fidalgo, cuidando que podia ver impunemente a mulher única do seu amor, a recordação agridoce de sua mocidade. Bem sabia ele que havia de chorar; mas esperava com as lágrimas apagar o incêndio, se as cinzas escondessem alguma faúla da antiga chama.

Foi a Odivelas, e chamou ao locutório sóror Beatriz dos Anjos. Acudiu ao chamamento a esposa do Senhor, a pálida virgem, com as suas vestes magestosas e tristes; mas tristes a olhos mortais, que mais belas não as podiam inventar homens para as noivas do céu.

Era ainda formosa, ou mais formosa era então a chorada Beatriz dos salões da corte, dos esplendorosos sarãos, das invejas dos moços, e das mil brilhantes esperanças, apagadas todas em uma hora. Deus a chamara a si, dotando-a com a perpetuidade da juvenil beleza. Tomou-lhe do coração os dons, que mal soubera merecer-lhe o homem amado; e, em cambio deles bafejou-lhe de eterno maio as flores da face e a juventude do espírito.

Maravilhou-se Gonçalo de a ver tão gentil: e ela, mal recobrada da torvação da surpresa, espantou-se da mudança do galhardo moço que ela amara.

Quisera a religiosa fugir; mas o coração ia atraído para a doce voz, que era a mesma em ternura, e para os olhos marejados das antigas lágrimas.

—A que veio aqui?!—perguntou Beatriz, com os olhos postos sobre o escapulário.

—Vim atormentar-me—respondeu Gonçalo—Vim procurar as torturas, que faltavam ao meu martírio.

E contou Gonçalo com pueril sinceridade a história da sua vida, como filho amimado conta a sua mãe desgraças, que se vão consolando ao refrigério dos prantos deles.

De instante a instante embargavam-lhe os suspiros a voz, e os vágados lhe anuviavam as ideias. Com rosto sossegado ouviu Beatriz as lástimas, os remorsos, e as confessadas cobardias do seu arrebatado interlocutor; e, com imutável rosto, respondeu por estas memoraveis palavras:

—Eu também tinha pai e mãe que me amavam muito, e cavalheiros que muito me queriam. Fui pedida para esposa, e meus pais mandavam ao meu coração que respondesse. Amei-o, senhor; e, se por si me perdera, Deus sabe que eu só de mim havia de queixar-me. Preferi-o, e com a cega preferencia, que lhe dei, esperei-o até à hora em que mo disseram morto para mim. Se morreu também para a felicidade, amargamente o sinto. Quem me dera ver toda a gente feliz, os meus inimigos mesmo, se acaso os tenho! Depois é que eu lhe poderia dar um grande exemplo de coragem; mas... para que? De sobejo me contento com ser exemplo de infortúnio. Meus pais não me queriam religiosa; meus parentes conspiraram todos contra mim; e contudo... sou religiosa, amortalhei-me, sepultei-me, e fiz da chama do meu amor a luz, que alumia sepulturas, e nem sequer aquece a lampada que a encerra. Separados para sempre, sr. Gonçalo Malafaya! Não temos que esperar um do outro, senão narrativas de lágrimas, que recrudescem a amargura, e nada remedeiam. Peço-lhe pelo amor, que lhe tive, me não procure mais, nem me desassocegue inutilmente. Eu achei aqui a paz, depois de muito a pedir a Deus. Peça também; rogue, e faça da sua paciência um direito à misericórdia divina. Viva para sua filha, se outra imagem não tem no coração. Adeus.

Beatriz dos Anjos, inclinando de relance a vista embaciada ao locutório, sumiu-se na escuridade dos corredores, que vão da portaria para o interior do mosteiro. Gonçalo tartamudeara palavras, sem sentido, e quedara-se estupefacto, com os olhos fitos na lamina crivada do palratório.

Voltou a Lisboa o alucinado fidalgo, e de tamanha tristeza se entranhou, que nem as carícias da filha o despenavam. Errou com a escandecida mente por quantas absurdezas se oferecem ao desatino da paixão. Roubar ao mosteiro a religiosa, e fugirem para remotos climas não foi o maior nem o mais original dislate da sua fantasia. Rebelde aos preceitos recebidos, escreveu primeira e segunda carta a Beatriz, e recebeu-as abertas, com a terceira fechada. Um frade capelão ou confessor de Odivelas, lhas entregou, e quis asserenar-lhe os transportes com os mais justos ditames, e piedosas reflexões que suggeria o caso.

Ouviu Gonçalo, uma hora, o apostólico varão, e sentiu despontarem-se os espinhos de sua dor, amolecidos pelos prantos a que o forçava suavemente a compungitiva linguagem do monge. Não levantou mão dele o enviado de Beatriz. Buscava-o a miúdo na sua soledade, e cada dia lhe ministrava lenimentos novos, hauridos da inexaurível fonte do Evangelho.

Com o decurso de algumas semanas, Gonçalo Malafaya conformou-se com a desgraça irremediável, e habituou-se a invocar o auxílio do céu, se vergava, alguma hora, ao confrangimento de desesperada saudade.

Maria Henriqueta conheceu nos primeiros dias de colégio os mais saborosos instantes de sua infância, senão os primeiros. Tinha muitas meninas a amá-la, as mestras à competência de meiguices, muitas criadas a servi-la, e a sua ama querida a inventar-lhe sempre as inocentes delícias, que a pobre menina desconhecera sob o olhar severo e glacial de sua mãe.

Custou-lhe lágrimas o adeus do pai; mas foram as primeiras e últimas que chorou ali.

Depois de sessenta dias de ausência, entrou Gonçalo em sua casa no Porto. Avisára ele de antemão os pais para lá o esperarem, temendo o primeiro encontro com a mulher. Recebeu-o a mãe nos braços, e disse-lhe ao ouvido:

—Olha que Maria das Dores está douda furiosa.

Achegou-se o pai da outra orelha, e disse-lhe:

—Talvez seja preciso amarrá-la.

Gonçalo encarou em ambos, e respondeu:

—É a felicidade que lhes devo, meus carinhosos pais.

A mãe entendeu, sem merecer créditos de esperta, a ironia, e replicou mansamente:

—Tens razão, meu filho! tens razão...

E o pai acrescentou em outro tom:

—Às vezes dois puxões de orelhas curam estas doudices.

Maria das Dores, com o seu feio costume de escutar, ouvira as palavras do sogro e exclamara:

—Dois puxões de orelhas!... Quero ver se há mão que se atreva a isso!

—Cala-te aí!—bradou o velho.—Se fosses minha mulher, havia de... esganar-te! Fizeste desgraçar meu filho, que é um anjo, todos o respeitam e amam, menos tu que és uma víbora peçonhenta! Gonçalo, deixa tudo!—exclamou, voltado ao filho—deixa tudo a essa mulher, e vem para nossa casa. Poupa os teus dias; foge a esta diabólica criatura, e o mundo saberá da minha boca a razão porque lhe foges.

Maria das Dores tinha de ordinário uns delíquios de reserva para as crises em que a palavra era menos significativa de sua consternação ou raiva. Ocasionou-se-lhe ensejo ótimo para um. Desmaiou, caindo com toda a segurança da sua pessoa em um bufete da sala de espera.

Gonçalo sentou-se extenuado em frente de sua mulher; pendeu a cabeça para o seio, e, com as mãos na cabeça, parecia recurvar as unhas sobre o crânio.

—Que inferno!—exclamou ele.—Que inferno este, meu pai! Que vida tão escura a minha, agora, e sempre! Estou no vigor dos anos, e é forçoso que os acabe por minhas mãos, ou que me deixe despedaçar hora a hora por esta mulher! Tinha uma filha, que podia ser-me alívio, e fui obrigado a separá-la de mim para a furtar à influencia nefasta desta senhora, que nem boa mãe é! Nem mãe, santo Deus! Nem a virtude das feras coube em partilha a esta que me deram por esposa!

Chorava a mãe de Gonçalo, e o velho estava passado menos da dor, que do arrebatamento do filho.

Maria das Dores ouvira tudo, e provavelmente descerrara as pálpebras para observar a gesticulação do marido. Abriu de todo os olhos esgazeados; afastou da fronte os cabelos, como fazem nas tragedias as doudas, ou as arriscadas a isso; levantou-se cambaleando, segundo a arte, e tirou-se do salão, assoprando como serpente ferida na cauda.

Vacilou Gonçalo entre ficar ou recolher-se à residência de seus pais. A mãe instava pela saída, conformando-se à primeira vontade do marido; este, porém, refletindo um pouco, disse que mais acertado seria o filho, depois de liquidar contas com os caseiros e conhecer a fundo o estado de sua casa, cuidar em separar-se judicialmente, alegando com o depoimento dos servos o gênio intractavel da mulher.

—Fez-me o casamento, pai,—disse Gonçalo—e quer desfazer-mo agora!... Assim devia ser; mas o pior é eu hei de ser até à morte um escravo dela, ou da ignomínia da minha situação. A separação dá causa a juízos vilipendiosos, meu pai; e eu, sobre todas as calamidades, não quero afrontas. Já agora hei de sofrer e morrer aqui. Hão de regosijar-se da sua obra... Quero que sintam o remorso de me acabarem lentamente a vida, que tão feliz se me antolhava; matassem-me antes! antes a morte, que assim, ao menos, poupar-me-iam a ser testemunha da outra infeliz, que também mataram! Ó alma do céu, perdoa-me tu, pelas dores com que aqui estou expiando a minha fraqueza!...

Os velhos não entenderam cabalmente a apóstrofe, e de si para si ficaram em que o filho estava menos escorreito e são de seu juízo.

Recolheu Gonçalo à sua câmara, e nela passou alguns dias encerrado, sem ver a mulher. Aí recebia as visitas, que, prevenidas pelo velho Malafaya, evitavam perguntar-lhe pela prima Maria das Dores.

Esta, encerrada também no seu quarto, apenas recebia a visita do médico, e a do capelão, santo homem, que à míngua de eloquência cristã, se estava sempre benzendo, sem dar a razão de tamanha prodigalidade do sinal da cruz.

Neste critico intervalo, Maria das Dores absteve-se de governar a casa, e de transmitir suas ordens aos criados. Os negócios do governo culinário corriam sob a fiscalisação do padre, que mostrou sua especial vocação no desempenho deles. Almoço, jantar e ceia, às horas, nunca faltou, bendito seja o Senhor!

Passados dias, foi o médico portador de uma carta de Maria das Dores a seu marido. Dizia em resumo o escrito que ela imperiosamente queria recolher-se a casa de sua família, por já não poder suportar o flagelo, que seu pai lhe aparelhara. Mais dizia, que se voltara do Douro ali, fora causa de essa imprudência querer ela entregar a seu marido as chaves de suas gavetas, e as preciosidades, que ele trouxera dos seus. Posto isto, rematava dizendo que fora sempre uma esposa digna e sem mancha; ao passo que seu marido era um homem de costumes estragados, merecedor de outra mulher, capaz de vingar-se, pagando afronta com afronta.

Gonçalo leu a carta e respondeu verbalmente ao doutor:

—Que faça o que quiser. Que vá para o pai se lhe apraz; que se deixe estar, se está bem; na certeza de que, lá ou aqui, a nossa separação está resolvida para sempre.

Maria das Dores ouviu a resposta, pediu ao médico o favor de retirar-se, saltou fora do leito, vestiu-se em grutesco desalinho, e entrou, com furial aspeto, no quarto do marido.

Sentou-se Gonçalo no leito, como atônito da improvisa aparição.

—Que quer, prima?—gaguejou ele.

—Quero ouvi-lo; quero ouvir da sua boca as palavras que me disse o doutor.

—Se lhas ele disse... que mais quer?

—Diz-me o primo que vá para meu pai?

—Se quiser.

—Não quero!

—Pois não vá.

—Eu não ando às suas ordens! Sou sua mulher. Entendeu?

—Entendi.

—E então?

—Então o quê! Que é que me diz?

—Que não saio desta casa que é minha.

—Deixe-se estar.

—Mas o senhor que disse mais?

—Que a nossa separação está resolvida para sempre.

—Isso é se eu quiser.

—Quer queira, quer não.

—Eu alegarei as minhas razões em justiça.

—Não temos que ver com a justiça. A prima Maria das Dores tem os seus aposentos nesta casa, e eu tenho os meus. É neste sentido que eu entendo a separação.

—Não quero!—exclamou ela, batendo com o pé rijamente no tapete.

—Em tal caso, obriga-me a sair desta casa.

—E eu vou procurá-lo onde estiver.

—A prima é uma senhora. Fio da sua nobreza que se poupará e me poupará a vergonhosos alardes.

—Qual nobreza, nem qual vergonha? Sou sua mulher! não é mais que dizer—não me serves—e acabou-se tudo! Recorro às leis. Quero saber porque sou abandonada. Fui-lhe infiel, primo Gonçalo? Atraiçoei-o? Faltei aos meus sagrados deveres de esposa?

—Nunca o suspeitei.

—E o primo faltou? Responda.

—Não tem resposta.

—Tem. Tem resposta. O senhor é que não tem alma nem vergonha. Quer ir viver com outra? Diga-o francamente, que eu nesse caso vou-lhe fazer presente das joias, já que o senhor a faz proprietária dos meus direitos. Escusa de sair: pode trazê-la para aqui. Veja lá primo... se precisa de aia a dama, estou eu aqui que lhe sirvo.

—Cale-se, senhora!—bradou Gonçalo.—O despejo da frase ofende tanto como o despejo da ação. Estão aí as suas criadas a ouvi-la. Felizmente que não está aqui uma menina de onze anos para lhe decorar essas palavras, aprendidas não sei onde, nem com quem. Prima Maria das Dores! atenda-me com o seu silêncio, se pode. Este viver é impossível. A senhora apurou-me a paciência até ao extremo. Soffri-a enquanto o fato da separação me pareceu desairoso. Sacrifiquei-me à dignidade, que foi sempre o melhor timbre de nossas famílias. Baldei as dores surdas que padeci. Ninguém me compensa, nem a sua índole se chegou a condoer de mim. Mudei, prima, mudei completamente. Quer saber a minha deliberação final? Digo-lha livre de medo que ma embarace. Em último recurso, fujo de Portugal, e deixo-a. Irei onde me não conheçam, nem me denunciem à sua perseguição. Felizmente sou rico. Bom é que eu alguma vez conheça as vantagens de ser rico. O que é meu basta e sobeja. Posso ainda viver alguns anos tranquilos; em toda a parte hei de achar amigos.

—E amigas...—atalhou ela.

—E amigas, diz bem a prima; porque não.

—Basta!—vociferou Maria das Dores perfilando o dedo indicador com o nariz.—Basta! não se envergonha agora que o estejam escutando as criadas? Faça o que quiser. Abandone-me; mate-me; sacrifique-me aos seus caprichos, primo, que eu deixo a minha causa à Providência, e a sua alma ao remorso.

Gonçalo sorriu, e Maria das Dores, atirando para o pescoço uma aba do gabão de castorina, saiu com toda a majestade de uma rainha colérica.

O padre capelão, que também tinha o vêzo de escutar, já se tinha benzido vezes sem conta com ambas as mãos.

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