A MENINA QUE FALAVA VENTANIAS A consagração do silêncio · Capítulo 6 de 51
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A MENINA QUE FALAVA VENTANIAS

A MENINA QUE FALAVA VENTANIAS

a menina era só um fiapo de gente

mas conversava com os ventos como quem aprende um

idioma de trás pra frente

feito segredo que corre solto na boca dos deuses

ela dizia que Eurus vinha ao entardecer, com os bolsos

cheios de folhas secas

contava histórias de terras distantes, onde o chão tremia e os

barcos dormiam em sal

Zéfiro, mais gentil, chegava com cheiro de bolo quente e

empurrava suas tranças no balanço da goiabeira

me segura, seu bobo!, ela gritava rindo

e o vento respondia com uma risada que sacudia as janelas da casa de vovó

o pai não via

a mãe não ouvia

mas a avó dizia:

essa menina tem ouvido de vento, vai ser levada pras

palavras um dia desses

em noites de trovoada, a menina ficava em silêncio

porque Notus, o quente, o errante, o que vem das ruínas

pedia silêncio pra chorar

e ela respeitava com as mãos no peito e os olhos na telha

trincada do quarto

um dia, no meio da tarde, o vento parou

parou mesmo

como se tivesse esquecido o caminho do quintal

foi então que ela entendeu: era a vez dela de soprar

soprou pra dentro e dentro viu poesia.

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