A MENINA QUE FALAVA VENTANIAS
A MENINA QUE FALAVA VENTANIAS
a menina era só um fiapo de gente
mas conversava com os ventos como quem aprende um
idioma de trás pra frente
feito segredo que corre solto na boca dos deuses
ela dizia que Eurus vinha ao entardecer, com os bolsos
cheios de folhas secas
contava histórias de terras distantes, onde o chão tremia e os
barcos dormiam em sal
Zéfiro, mais gentil, chegava com cheiro de bolo quente e
empurrava suas tranças no balanço da goiabeira
me segura, seu bobo!, ela gritava rindo
e o vento respondia com uma risada que sacudia as janelas da casa de vovó
o pai não via
a mãe não ouvia
mas a avó dizia:
essa menina tem ouvido de vento, vai ser levada pras
palavras um dia desses
em noites de trovoada, a menina ficava em silêncio
porque Notus, o quente, o errante, o que vem das ruínas
pedia silêncio pra chorar
e ela respeitava com as mãos no peito e os olhos na telha
trincada do quarto
um dia, no meio da tarde, o vento parou
parou mesmo
como se tivesse esquecido o caminho do quintal
foi então que ela entendeu: era a vez dela de soprar
soprou pra dentro e dentro viu poesia.