SE PUDESSES A consagração do silêncio · Capítulo 26 de 51
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SE PUDESSES

SE PUDESSES

se tivesses coragem de escutar,

não apenas as palavras na minha boca,

mas o seu silêncio que as fere

se deixasses que a pele

aprendesse a traduzir

a língua secreta dos arrepios,

se largasses o peso do mundo

na soleira da porta,

e me entrasses inteiro,

saberias-me um animal raro,

em vias de desaparecer

se sentisses com tuas mãos

o quanto arde meu peito

serias a testemunha

do último gesto

da minha ternura

se pudesses

se quisesses…

ASSASSINA

com mãos firmes e olhos marejados,

degolei futuros como quem corta

flores lindas demais para durar

feita de carne e dilema,

visto preto desde que aprendi a decidir

há noites em que ouço passos

são eles: os caminhos mortos,

arrastando promessas pelas sombras

e me chamando de volta pelo nome

que eu teria se tivesse sido outra

caso ninguém tenha lhe avisado,

insisto: escolher é um ato terminal

e a vida não admite apelação

o diabo desta vida

é que cada escolha feita

me faz cúmplice da estrada trilhada

e viúva de todas as outras

sinto o cheiro do arrependimento

antes mesmo que ele brote em meus escombros

a nostalgia lambe meus pulsos nas madrugadas

em que sonho com os rostos que não irei conhecer

mato futuros com a frieza de quem ama

SERIA UMA SEREIA

não sou melhor do que ninguémmas, por você, eu seria uma sereiaseria a lenda que saiu do mar para conhecer um amante

mortalsentiria as marés do sol correrem minhas veiasseria o lamento da pescadora que vira os barcos varridos

pelo marsentiria o coração romper com o naufrágio e o desastre

desse amordescobriria que as lágrimas vertidas pelas mulheres não

deixam marcas no mundo

nenhum ser vivo é capaz de impedir as marésgostaria apenas de impedir as pausasque o meu coração faz quando ouço a sua vozé que ele tem vontade de rimar com o seu,de te levar, num lindo ritual sob as ondas

meu sonho era te levar para o meu infinitono entanto, te amei demais para te afogar

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