ÚLTIMO SILÊNCIO A consagração do silêncio · Capítulo 38 de 51
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ÚLTIMO SILÊNCIO

ÚLTIMO SILÊNCIO

deixarei que se afogue em mim o impulso de tocar teus

olhos salgados

não posso dar-te nada além do cansaço que me escorre

pelas veias

não te quero inteiro porque tudo em mim se romperia

basta que surjas como um rumor na noite

gota de água sobre uma terra sedenta de flor

deixarei que teus dedos se percam em outros dedos

que tua boca encontre abrigo em outra boca

mas saberei que foste colhido pelo escuro

porque nele encostei a face e ouvi a tua voz

porque toquei a névoa e trouxe comigo

o fragmento mais secreto do teu abandono

ficarei só, como barcos presos à maré baixa

mas a solidão me dará posse do que ninguém toca:

a lembrança incandescida de ti

que me atravessa como lamento surdo de estrelas que caem

tua voz — presente, sereizada, ausente —

suspensa em mim como se fosse o último silêncio

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