ÚLTIMO SILÊNCIO
ÚLTIMO SILÊNCIO
deixarei que se afogue em mim o impulso de tocar teus
olhos salgados
não posso dar-te nada além do cansaço que me escorre
pelas veias
não te quero inteiro porque tudo em mim se romperia
basta que surjas como um rumor na noite
gota de água sobre uma terra sedenta de flor
deixarei que teus dedos se percam em outros dedos
que tua boca encontre abrigo em outra boca
mas saberei que foste colhido pelo escuro
porque nele encostei a face e ouvi a tua voz
porque toquei a névoa e trouxe comigo
o fragmento mais secreto do teu abandono
ficarei só, como barcos presos à maré baixa
mas a solidão me dará posse do que ninguém toca:
a lembrança incandescida de ti
que me atravessa como lamento surdo de estrelas que caem
tua voz — presente, sereizada, ausente —
suspensa em mim como se fosse o último silêncio