A GOTA A consagração do silêncio · Capítulo 8 de 51
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A GOTA

A GOTA

nasceu no escuro de uma nuvem

era só um tremor de luz

quando se revelou ao vento

um desejo arredondando-se

desprendeu-se do corpo dela

e atravessou o ar com a fragilidade de

todos os reflexos possíveis de uma vida

enquanto caía,

o esforço de sua existência

mudava até o cheiro do ar

mas ela queria ser vista

pensou em cair no olho de alguém

e virar lágrima

ou cair numa boca

e virar palavra

caiu, porém, no asfalto quente

e nele se espalhou, fina e cintilante

escrevendo-se no chão

tornou-se parte da limpeza urbana

levando farelos de cotidiano e pólen de flor.

dentre outros pedaços de cidade,

foi levada ao bueiro escuro e faminto,

aprendeu que ninguém permanece igual

por muito tempo

e por isso não lutou

quando foi puxada para o rio

nem quando a corrente a levou

até o abraço salgado do mar

entre ondas e espumas,

pensou que nunca deixou de ser céu

porque cada gota leva uma nuvem

adormecida dentro de si

e, quando o sol a tocou,

arrepiou-se no ar

pronta para nascer outra vez

no cílio úmido do mundo

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