A GOTA
A GOTA
nasceu no escuro de uma nuvem
era só um tremor de luz
quando se revelou ao vento
um desejo arredondando-se
desprendeu-se do corpo dela
e atravessou o ar com a fragilidade de
todos os reflexos possíveis de uma vida
enquanto caía,
o esforço de sua existência
mudava até o cheiro do ar
mas ela queria ser vista
pensou em cair no olho de alguém
e virar lágrima
ou cair numa boca
e virar palavra
caiu, porém, no asfalto quente
e nele se espalhou, fina e cintilante
escrevendo-se no chão
tornou-se parte da limpeza urbana
levando farelos de cotidiano e pólen de flor.
dentre outros pedaços de cidade,
foi levada ao bueiro escuro e faminto,
aprendeu que ninguém permanece igual
por muito tempo
e por isso não lutou
quando foi puxada para o rio
nem quando a corrente a levou
até o abraço salgado do mar
entre ondas e espumas,
pensou que nunca deixou de ser céu
porque cada gota leva uma nuvem
adormecida dentro de si
e, quando o sol a tocou,
arrepiou-se no ar
pronta para nascer outra vez
no cílio úmido do mundo