A VIZINHA DO FUNDO A consagração do silêncio · Capítulo 10 de 51
Obra Menu

A VIZINHA DO FUNDO

A VIZINHA DO FUNDO

minha casa tem um quintal tão grande que dá pra se perder,

principalmente depois da goiabeira onde moram as

formigas e os galhos fazem sombra

a vizinha do fundo

mora numa casa de madeira meio torta

com telhas cheias de musgo e janelas de vidro lilás

que refletem o céu mesmo em dia nublado

no fim do quintal tem uma cerca de arame

que separa meu reino do dela

ela nunca vai à missa

nem na venda do seu Elias —

minha mãe diz que ela faz velas e perfumes pra vender —

mas eu sei:

ela é uma bruxa

não uma daquelas más de história

ela é uma fada esquecida num livro

cheia de potes que brilham

ervas penduradas no teto

colheres torcidas como raízes

e fumaça que muda de cor

— ontem era verde

e dançava no ar feito bicho com asa

às vezes, fico olhando ela sentada no meio do quintal

sem se mexer

parece que dorme acordada

com o rosto virado pro sol

absorvendo luz como se fosse comida

ela sorri pouco

mas quando sorri, parece que guardou

o segredo do mundo no canto da boca

eu queria morar na boca dela só pra descobrir

fico espiando escondida

atrás da amoreira

com a mão suja de terra e o coração acelerado

um dia ela me chamou

— nem olhou pra trás —

só disse:

vem

e eu fui

com o pé descalço e o medo leve de criança

ela me deu um frasco pequeno, cheio de um líquido

dourado com cheiro de chuva

e falou baixo

quase sussurrando

como quem conta um segredo para uma árvore:

para quando quiser voltar

eu perguntei:

voltar pra onde?

ela sorriu com os olhos

— não com a boca —

e respondeu:

pra sua casa no mar

depois disso

tudo ficou meio azul por dentro

e quando fecho os olhos bem forte

ouço o barulho das ondas

aqui

no quintal

1/1
Menu

Fazer anotação