FRACASSO
FRACASSO
um passo em falso e a borda foi abismo
um gesto a mais e a água me engoliu
ah, se o amor soubesse do meu sismo,
ter-me-ia, talvez, onde não caiu
e eu, tão certa de ser travessia
afundei-me na piscina do engano
o riso, que era lume, em agonia
fez-se um silêncio desumano
caí, sim, fracassei
depois caí melhor, mais docemente
quase o triunfo… mas falhei, eu sei,
com a elegância de quem mente ao presente
e houve, ainda, a queda nobre, a monumental,
de tripla pirueta e desatino
a água fugiu, restou-me o temporal
de uma vergonha em riso cristalino
quantos céus perdi por descuido mudo,
quantas travessias não levei ao fim!
tudo foi quase e quase foi tudo…
o amor, o riso e o tombo sobre mim
se ainda houver borda, volto a caminhar
por teimosia ou fé ou desvario
um dia, ao lado de nossos netos, hei de contar
como é bela a queda… antes do vazio