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A Bico de Pena

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A Bico de Pena

Capítulo 5 · A Bico de Pena

O paradoxo contemporaneo

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Sobre a nudez forte da Verdade o manto diaphano da Phantasia.

Eça deQueiroz N ÃO ha esperança-tudo é verdura.

Nunca a terra se mostrou assim prospera : não ha memoria de uma tão inclemente fecundidade.

Dir-se-ha que um Deus andou semeando e abençoando a sementeira, porque não ha sol que a esturre, não ha geada que a creste, não ha lagartas que a destruam- as mesmas formigas mal apparecem nos trilhos e, por preguiça ou porque as contenha o mesmo Deus propicio, satisfazem-se com as folhas seccas que o mesmo vento espalha ou com as varreduras dos paióes.

O que era vageiro pedrento e maldito onde estalavam, fendidas, as relhas dos arados e os bois robustos arriavam arquejantes deixando na terra secca, hoje campo de fertilidade; varzeas estereis onde apenas lograva viver o sapê da miseria ostentam-se vicejantes, cobertas d'uma verde e alta alcatifa que é o arrozal que aponta; as mesmas rochas safaras geram prodigiosamente -a crosta que as forra vale por um alfobre.

Vêm-se penhascos floridos e, nos sulcos dos carros que, mezes atraz, passaram lentos, rinchando, recolhendo a colheita, os grãos perdidos proliferam: ha milhos crescendo nos caminhos, empennachando-se nos andurriaes ou, flexiveis,dobrando-se graciosamente no fundo das grótas, entre os inhames, onde a agua brilha e canta.

Em todo o torrão ha uma roça, em todo o canto viceja uma horta.

O colono tem necessidade de arrancar os legumes que ameaçam invadir a casa ; vergam as latadas, pelas cêrcas de espinheiros em flor trepam as ramas do feijoal, os repolhos gordos afundam na terra, a couve flor desabrocha como um polypeiro immenso e lá vão braçadas de folhas tenras para os estabulos, para a possilga, para o aprisco, para o corveiro e ainda sobram atterradoramente.

As cannas empinam-se e curvam-se em arco, estirando-se na terra para, adiante, levantarem-se de novo; o milharal farfalha ao vento como a chamar os colhedores, as vagens seccas cascavellam, aboboras abandonadas desenvolvem-se monstruosamente sob as frescas folhagens protectoras e, quem olha os pomares, hesita entre as duas côres que se cazam - a verde das folhas e a amarella dos pomos.

Os galhos vergam e, como não ha mãos que bastem à colheita, sob as arvores acenosas os fructos que apodrecem vão formando um nateiro fecundante.

Não ha esperança !

O cafésal parece adornado de coral-os fructos em cereja encarreiram-se, accumulam-se nos ramos pendentes e os rios ahi vão regando, o sol reluz e cría, o vento leve encarrega- se de limpar os galhos, levando-lhes as folhas seccas, e borboletas, besouros, libellulas e abelhas que pousam de flor em flor, conduzem o germen da fecundação, vão multiplicando a abundancia, fazem uma semeadura aerea ou melhor : realizam as nupcias floráes como sacerdotes alados que visitam os lares verdes e juntam os casaes aromalissimos, conduzindo a alma amorosa d'um a outro, em beijos.

Não ha memoria de uma tão inclemente fertilidade.

Com o frio a esperança do lavrador é a geada.

Ao crepusculo, quando as nevoas se vão adensando, eil-os todos de olhos alongados : virá a geada ?

Cahe a noite taciturna, estrella-se o ceu onde não paira uma nuvem; o frio augmenta.

Noite fria e limpida é annunciadora de geada.

As creanças tiritam, os velhos abeiram-se do fogo estendendo tremulamente ás chammas as mãos engelhadinhas e o vento agreste sopra.

Oh! como é alegre a voz do vento!

Corta, vento de inverno !

Corta, ceifadornocturno, corta !

E o homem bemdiz o vento que zimbra.

Bem haja o bom vento !

Bem haja o bom vento!

Curioso, lá vae o lavrador á janella, entreabre-a, espia e tirita : noite estrellada gelada.

Ainda bem !

Ainda bem ! exclama esfregand as mãos.

Temos geada !

Temos geada ! annuncia co tente e todos sorriem á ideia d'uma devastação.

De tado, ouvindo as gambás que vão e vem pelas telha eil-o a sorrir, pensando : «É a geada bemdita qu está cahindo.

Ámanhan os campos serão outros . eu ficarei reduzido a um terço, outros perderão ma e a safra de todo o Estado, com o beneficio d'es noite, ficará em menos da metade do que se espe e ainda será muito ...

Felizmente o inverno ahi es e ha um Deus no ceu.

Mais um anno de fartura c mo este e seria um dia a lavoura do Brasil » .

Não ha quem resista.

Antigamente, com oq dava um alqueire de terra, uma familia vivia fart mente ; hoje, com a abundancia, o fazendeiro per em miseria, o que o compromette é o excesso : tod plantam, todos colhem ; não ha compradores.

Annuncia-se uma feira, acode gente de toda parte a disputar as barracas ou com as lonas e esteios para armar a sua tenda.

Levanta-se tão den poeira nas estradas com a chegada dos carros, d tropas, das récuas, das manadas, dos rebanhos ainda da gente que as mesmas torres das egrej desapparecem abrumadas.

No campo da feira amo toam-se os ceirões e as cangalhas, empilham-se jacás e os côfos, enfileiram-se as capoeiras, atrava cam-se os largos cestos-o cercado de animaes r ferve e, como não ha divisões, saltam os pôtros, burros escoucinham, marram os touros, coincham os bacorinhos, grunhem os grandes cevados acaçapados, fossando a lama, cacarejam as gallinhas, grasnam os patos, arrulham os pombos e todas essas vozes não chegam a abafar as dos homens, das mulheres e das creanças que apregoam esgueladamente o que trazem das suas roças.

Quem entra n'uma feira, vendo a multidão que vae e vem, imagina que o commercio corre animado, engano-só ha alli vendedores, de sorte que o sertanejo, que deixou o seu sitio longinquo, á beira da serra, para offerecer na feira os fructos do seu pomar e o gado novo da sua caiçara para, com o producto, comprar novos ferros e chita e madapolão para os seus, alli está de cocoras, macambusio, o cachimbo nos beiços, os olhos perdidos longe, no ceu da sua banda, lá para os lados da serra onde a sua gente, pobre gente! o espera com as compras tão necessarias ... até um remedio lhe pediram e o misero nem para o remedio faz.

Edissolve-se a feira : lá tornam todos com os fructos murchos, com os animaes cançados, maldizendo a abundancia porque todos têm e não compram.

Isto acontece ao pequeno lavrador que ara, semeia, aduba e colhe, que tosa a ovelha, que munge a vacca, que enforma o queijo e bate a manteiga auxiliado pela familia; imaginae o desespero do grande. plantador que vê, em torno da casa, formigar uma nova villa de colonos.

É a exhuberancia que o desgraça, é a fartura que lhe traz a miseria.

Lá vae vagarosamente, apparecendo, desappar cendo por entre uns outeirinhos avelludados, u comprido e pesado trem de carga-café ; dos sertõe feracissimos descem diariamente tropas numerosa são campainhas tinindo desde a madrugada até noite, ás vezes pela noite adeante e tropeiros br dando- café ; pelos rios, em balsas, descem milh res de arrobas que vão ter ás pequeninas estaçõe onde embarcam para o porto.

Os horisontes são ve des - onde acaba o cafésal começa o ceu, e as arv res, sobrepujadas pelos fructos, achaparram-se : é maravilha da fertilidade, a praga arruinadora do e cesso.

No porto, á medida que vão chegando os wagon entulhando os armazens, vae o preço descendo como entram sempre novos trens carregados, ma baixa o valor da mercadoria ; é quasi uma miseria que offerecem, não vale a pena vender; o melhor conservar o café em casa, mas como ? onde? se ni ha tulhas e se o fazendeiro tem a colonia a murm rar reclamando a paga !

Que vá o café, que vá ! os campos cada vez mais verdes ...

Oh ! a incleme cia do verde !

Como se vivia bem no tempo passado ! o pou que a terra dava era vendido a peso de ouro e of zendeiro que colhesse o que hoje colhe um sitian poderia viver regaladamente como um rajah: o fruc tinha valor real, as tulhas eram thesouros, os eng nhos eram verdadeiras casas de moeda.

Agora machinas poderosas não preparam em seis mezes, trabalhando dia e noite, todo o café da colheita, as moendas, jorrando rios doces, não espremem toda a Y c ei a r n a n s a , , e p , a s r e te a p d e e r i d x e a -s m e n n a os te c r a ra rr , o a s pe o n u dô a a mo ; n o t l o e a it d e a a n p a o s - E R S I T I G A N A R I E S d f r o e r c m e a- n s a e s e qu m ei l ja a r m i a as n , o a s fr p u o c m t a a r e e n s ca . rq É ui d l e h m a a -s i e s o ! u C t o r r an t s a - , T H E U N I V O F M I C H L I B R vento de inverno !

Corta, ceifador nocturno !

Criar ... e vale a pena criar? com a abundancia o gado anda farto e lusidio : no chiqueiro do pobre cevam-se varas de porcos, as vaccas mal pódem caminhar embaraçadas pelos ubres apojados, e assim as cabras, as ovelhas egualmente.

Por muito haver pouco vale e, como o preço offerecido não compensa, os homens resolvem deixar os animaes no campo esperando confiadamente o tempo da miseria, que ha de vir, Deus é grande ! ...

Levanta-se o lavrador, sahe pé ante pé guiado pela claridade tenue da lamparina do oratorio, accesa deante das imagens como a lembrar-lhes o pedido feito, com fervor, por todos ; lá vae ; chega á janella, corre o ferrolho.

Que frio ! sorri contente, tiritando e espia-noite serena, ceu estrellado e a geada ?

E cêdo, talvez ; nem bruma-o luar galvaniza as frondes tornando-as de prata e as vozes da natureza cantam, sussurram dentro da noite ; o arôma das flores passa nas auras, a agua rola no moinho.

O lavrador alli fica a olhar, sem sentir o frio que corta como á espera da geada que não vem, a ouvir, sem comprehender, o que lá fóra dizem as arvores alegres.

Torna ao leito desanimado.

A esposa, que o viu sahir, espera-o sentada, com o rosario entre as mãos enclavinhadas : Gia ?

Ainda não.

Póde ser que pela madrugada ... -Não creio.

É Deus que nos abandona ...

Emfim, seja feita a sua vontade.

Deita-se.

Queria que sentisses o cheiro das flores .

Que flores ? -Não sei, mas é um aroma que entontece.

Essas malditas flores estão annundiando outras cargas.

Aqui só o fogo.

Cala-se e, d'olhos abertos, fica a pensar na monstruosa queimada salvadora : uma chamma viva que crescesse com o vento e que fosse arrazando os campos de milho e canna e o cafésal e subisse á matta e seccasse as fontes deixando a terra vasia e esteril, coberta de cinzas, durante annos.

Só isso ...

Faria um aceiro protegendo apenas o cafésal novo, o mais que fosse, que levasse o incendio e o pouco dos annos vindouros salvaria o prejuizo dos tempos copiosos.

Só o fogo !

Mas, para isso, seria necessario que todos os fazendeiros entrassem no accordo sinistro tomando, cada qual, um archote e ateiando o incendio que, vindo de pontos diversos , ás lufadas vermelhas, deixasse apenas, em cada fazenda, como pequenas ilhas, dois ou tres alqueires de culturas verdes.

Escassearia o producto e cres ceria o preço ...

Mas o fogo estimula, o fogo arde e fecunda como o beijo, haveria, no primeiro tempo, um espasmo lethargico da terra mas, com a primeira chuva, todas as sementeiras repontariam viçosas, com ancia maior de vida e a producção seria mais acabrunhadora.

Que fazer ?

Um silvo atravessa o silencio-já os comboios... lá vão elles, caminho do porto, lá vão !

É madrugada-o gado muge, balem as ovelhas.

Atroadoramente começam a trabalhar as machinas beneficiadoras e o fazendeiro, fatigado da vigilia, salta da cama, abre largamente a janella -uma poeira empana os ares, é a palha do café que võa e que lá vae estrumar o alqueive e, purpureo, immenso, implacavel, lá sobe victoriosamente o sol.

Douram-se os montes, douram-se os campos, o orvalho rebrilha nas folhas -tudo reverdeceu com a noite e o fazendeiro, taciturno, pensa na miseria quando o administrador, descendo a galope do lado do engenho, estaca a bestinha diante da varanda e diz: -Patrão, vou mandar colher aquelle resto de café do pedregal porque as flores já estão vindo aos galhos ...

Elle estremece, fita o empregado e, sem comprehender bem as palavras que ouve, encolhe os hombros indifferente.

Fructo e flores ...

Mas ... é a perdição, Deus do céu...

É a perdição !

Fructo e flores !

Terra maldita !

E o sol vae subindo no ceu e abelhas zumbem visitando as flores novas annunciadoras da abundancia futura que será a fallencia, a definitiva desgraça.

Ainda fructos e Ja flores ...

E ha ainda quem gabe a terra cafeeira, a terra rôxa da côr de agonia...

A Bico de Pena

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