Universo da obra
Universo da obra
Foi o meu primeiro adversario.
Quando estreei no Rio, em 1885, publicando na Gazeta um conto, puramente descriptivo, intitulado : Pae do ceu, Valentim, que, então, redigia as Notas á margem, estranhou o meu estylo superabundante, traçou a minha adjectivação excessiva que prejudicava, sobremodo, a idéa, abafando-a : «a floresta não deixava vêr as arvores» .
Eu, que estava no pleno viço dos meus saudosos vinte annos, melindrei-me com as observações do critico e, ardendo em furia, cheguei a pensar num desforço violento e escandaloso, mas um estupendo poeta épico (que acabou porteiro d'uma secretaria), lembrou-me, como mais digno, o duello : um duello de morte, á espada, num bosque.
Applaudi a lem brança d'aquelle que devia ser o rival de Camões se não tivesse degenerado em empregado subalterno e juntos fomos procurar certo romancista (que não medrou, por motivos que a Historia Litteraria não registra) e estabelecemos, com crueza, as condições do encontro : um de nós devia ficar no campo, esse um, está visto, seria o critico.
Felizmente n'esse tempo o meu appetite era famoso e foi necessario adiarmos a discussão sanguinosa para irmos ao jantar.
A' mesa, devorando, a calma baixou sobre os ardegos espiritos e, ao café, já se não falava em duello- o épico superiormente forte, do alto da sua soberba lyra de sete cordas, sagrou-me o «primeiro prosador americano» , o romancista augurou-me um futuro deslumbrante e, com um vinho, cujo veneno até hoje me róe as entranhas, bebemos á grande Arte, desancamos toda a cafila de imbecis (que eram os escriptores feitos ...
Vingae-vos, novos de hoje, vingae-vos!) e sahimos para a noite estrellada, carregados de glorias, cheios de elogios e de ensopado com repolho.
Os tempos correram levando, pouco a pouco, as minhas illusões -eu começava a vér a realidade agreste.
O épico esquecera as estancias que não lhe davam, sequer, para o almoço de assobio, o romancista lançára ao fogo as paginas admiraveis do seu estupendo estudo psychologico, só eu me conservei inprudentemente fiel a Apollo, vivendo como Villon e como aquelles povos da fabula que se nutriam do aroma das flores.
Andava accesa uma grande guerra digna de ser cantada por um aëdo- a gente litteraria dividira-se em dois campos -em um d'elles tinha sua tenda, que era a Semana, Valentim Magalhães, no outro avultava o pavilhão vermelho de Murat, rispido como um Ajax- era a Vida Moderna, revista notavel, não só pelas formosissimas producções dos seus collaboradores como tambem pelas gravuras terrificas que estampava.
Eu, que ainda guardava rancor ao critico, alistei-me na hoste do Murat e, força é dizer, as batalhas foram soberbas e, se a victoria nem sempre nos sorriu, podemos dizer, com orgulho, que não recuámos de adversarios, armados pelos deuses, como Achilles, que se chamavam : Bilac, Raymundo Corrêa, Alberto de Oliveira, Fontoura Xavier, Filinto de Almeida, Aluizio Azevedo, Luiz Delphino, Julia Lopes e o chefe Valentim Magalhães.
A furia sonorosa de Ajax-Murat retumbava em alexandrinos formidaveis, Arthur Azevedo compunha os seus delicados contos em verso como essa formosa Soror Martha ou trazia-nos scenas de Molière, vertidas com a firmeza perfeita com que elle transporta d'um idioma para outro as obras primas da poesia dramatica e eu ... eu, sei lá ! eu vingava-me esvasiando tinteiros.
Bom tempo !
Como havia enthusiasmo !
Como todos nós acreditavamos no futuro!
Um dia Murat appareceu-me livido, bradando contra o publico ignominioso que não entendia o nosso jornal.
Comprehendi.
A Vida Moderna estava morta... tambem, com tantos dragões, com tantas catastrophes na sua primeira pagina...
Emfim -entramos para a Maison Rouge e lá ao fundo, n'um salão obscuro, bebemos funebremente uma luctuosa cerveja preta.
A Semana continuou.
Eu, sempre confiante, com um maço de originaes debaixo do braço, procurava um canto socegado para escrever o meu primeiro romance.
Nos botequins não era possivel, com a lufalufa dos freguezes, os berros dos caixeiros, toda a balburdia ruidosa do commercio, da politicagem, da maledicencia e da litteratice e assim andava eu errando quando, um dia, me apresentaram Valentim Magalhães. 1 Guardei certa reserva digna, elle expandiu-se. sorriu e-ó desvanecimento ! - falou de todos os meus trabalhos publicados n'A Vida Moderna.
Lera-os ... !
Sorri tambem e, caminhando, fômos até a porta do Londres e o meu «cordeal inimigo» apresentou-me a Alberto de Oliveira e a Lucio de Mendonça e ficamos a conversar á porta até que o poeta jurista nos convidou para um grog honesto.
Entretivemo-nos a falar da Arte até as cinco horas da tarde e Valentim, que não perdia tempo, pasmou de que assim o tivessemos agarrado.
Levantou-se apressadamente; antes, porém, de despedir-se, sem phrases rebuscadas, offereceu-me a Semana.
Eu mirei- o espantado. -E a lucta ? -Que lucta ? a lucta foi maravilhosa, que diabo !
Podemos falar, com orgulho, das nossas batalhas contra o inimigo commum: a indifferença publica.
Pensa, talvez, você que não senti o desapparecimento d'A Vida Moderna? senti e muito, não só como escriptor que presa as boas lettras, mas tambem como proprietario de jornal, porque o publico, interessado na polemica, buscava, com anciedade, a Semana e a leitura já se ia tornando um habito.
Nós estavamos creando o leitor.
O Murat fez prodigios, vocês portaram-se como valentes.
Agora, se queres continuar, lá tens a Semana, aquillo é uma casa de artistas : não ha alli inimizades.
Se o soneto do adversario é bom lá vae para a primeira pagina e com o louvor que merece.
Effectivamente era assim, Nas luctas em que o vi, varias vezes, empenhado, sempre contra adversarios temiveis: Sylvio Romero, Murat, Mallet, Valentim guardava sempre uma attitude correcta, fugindo, com gentileza, ás retaliações e aos doestos e só ficando no terreno da discussão, no assumpto da polemica.
No periodo mais brilhante da sua vida litteraria que foi, incontestavelmente, o das Notas á margem, elle teve fulgurações.
Por vezes a sua replica, rapida e aguda, lembrava as vibrantes represalias de Camillo, o seu colorido tinha vida, a sua fórma, se não brilhava pelo bem polido das facetas, era forte e de bom quilate.
Elle era um polemista nervoso, que esgrimia com elegancia e firmeza, atacando com lealdade e defendendo-se com graça.
Teria, talvez, ficado como um typo original e unico em a nossa litteratura se a grande febre de produzir, o immenso desejo de desdobrar-se não o houvesse afastado do verdadeiro terreno, no qual o seu espirito se sentia á vontade.
No conto, no romance, no theatro não foi o mesmo homem vigoroso que nos havia apparecido na polemica e creio que só uma vez a sua alma de tempera acerada conheceu o desalento ; foi quando a Critica, que esperava o momento para vingar-se, arremetteu impiedosa contra a Flor de sangue, romance que bem pouco valor tem e que, longe de ser um florão para o morto, é uma falha na sua obra pertinaz de batalhador.
Valentim via bem o real para o commentario, sabia dar a exacta impressão de uma leitura, achava, ao primeiro olhar, a parte fraca de um escriptor ou de uma obra, e, enristando a lança, era terrivel o golpe que vibrava, mas a imaginação não o levava longe e, observando para o conto ou para o romance, elle, o minucioso, o homem da lente, que não perdia um detalhe, por mais insignificante que fosse, esquecia-se de tudo e, encantado, enamorado da propria obra, não lhe via os defeitos.
Foi o que se deu com a Flor de sangue.
O nome de Valentim Magalhães ha de ficar como um symbolo- outro não houve de mais coragem, de mais tenacidade, de mais perseverança.
Quando todos desanimavam querendo pendurar as lyras ou atirar ao vallado os buris com que lavravam periodos elle chamava-os, levantava-lhes o animo, falava-lhes das suas luctas e, rindo, travava-lhes do braço e lá os ia levando para a Semana e só os deixava quando lhes arrancava a promessa de novos versos e de novas paginas de prosa.
Foi, sobretudo, um agitador e muito do que por ahi ha deve a sua origem áquelle eterno confiante, aquellefiel appollineo que, mesmo abandonado, sem publico, costumava a tanger a lyra para seu proprio gozo.
Foi elle o instituidor dos concursos litterarios que nos trouxeram tantos artistas magnificos que viviam ignorados na provincia e mesmo na capital: João Ribeiro, o poeta-philologo, publicou o seu primeiro conto, S.
Bohemundo, uma joia, na Semana; lá tivemos o Caso do abbade, de Garcia Redondo ; João Luso forçou a popularidade com o Seraphim tristonho.
Francisca Julia, Julia Lopes, Julia Cortines, Zalina Rollin, Adelina Vieira foram apresentadas ao grande publico pela folha de Valentim.
Antonio Salles, o dôce Luiz Rosa, Luiz Edmundo e tantos outros poetas de merecimento estrearam naquellas paginas sempre fulgurantes onde resplandeciam as chronicas de Bilac e de Filindal, o puro e devotado Felinto de Almeida, alma rara de homem, alma sensibilissima de poeta.
Carlos Malheiros Dias, que é hoje uma das glorias da litteratura portugueza, a quem se quer dar o sceptro de ouro do principe harmonioso da fórma, o admiravel Queiroz, era dos mais assiduos frequentadores da Semana e, como se não bastassem á revista semanal tantas glorias, deve-lhe ainda a litteratura o haver ella ido buscar ao silencio em que se deixou ficar, depois da morte da Gazetinha, esse soberbo poeta, talvez o maior da America-Luiz Delphino, tão avaro em abrir os seus thesouros deante dos quaes a gente tem a illusão de estar debruçado, como nos poemas da India, á beira de prefulgentes abysmos de pedrarias em cujo fundo, entre fulvos leões de ouro, parthenias de virgens núas dançam serenamente uma ronda sagrada, ao som de lyras tangidas por deuses.
O escriptor que morreu foi um chefe de movimento, foi o corypheu de uma theoria de poetas e de prosadores que hoje sustentam, com brio, a gloria litteraria da Patria e, se lhe não bastasse a sua copiosa bagagem para garantir-lhe o nome elle viria à frente d'essa brilhante phalange, claro e puro, como o de um guia que alumiou o caminho para a caravana.
Os que ainda se interessam pela vida intellectual do paiz devem sentir o desapparecimento d'esse robusto espirito que, apezar da indifferença, luctando esforçadamente pela vida, sempre achava uma hora no dia para pensar e escrever, appellando, com a sua palavra insinuante, para os que se deixavam vencer pelo desanimo para que voltassem á lucta, retomando as lyras silenciosas.
Valentim é um dos obreiros do grande periodo litterario do Brasil e este louvor não lhe negarão os seus proprios inimigos, se é que elle deixou alguns ; não creio porque, como eu, todos devem estar convencidos de que elle nunca vestiu armaduras senão para defender, como bom paladino, a Arte que era a sua dama Ideal, o seu supremo amor.
Eu, que vivi dentro da agitação fecunda d'esse bom tempo, devo tambem ao morto de hontem, ser hoje ... um homem que não tem onde cahir morto, porque tomou a sério a litteratura ingrata.
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