Universo da obra
Universo da obra
A infancia de Manoel Victorino parece moldada no versiculo do evangelista : «Nonne hic est fabri filius ? » Não era elle, como Jesus, filho de um artifice?
Não foi em uma officina que passou os seus primeiros annos serrando, acepilhando a madeira, affeiçoando-a a movel, lixando-o, envernisando-o, com os pés nos montes farfalhantes de maravalhas, entre operarios, seguindo os conselhos paternos como o syrio misericordioso ouvia as palavras do carpinteiro que, á sombra da vinha domestica, enxameada de abelhas, escavacava, a enxó, oslenhos dosmontes ?A mesma cidade natal, alta, numa formosa situação dominando o mar liso, com a sua população mixta e a sua verdura tão viçosa nos eidos e nos pomares lembra a Galiléa messianica que Ammiano comparou ao Paraizo pela doçura do ar, pela pureza cerulea do ceu, pelo perfume das flores, pela belleza languida das mulheres.
Alli cresceu o infante no trabalho, entre os irmãos e os operarios-com o homem simples que vinha do povo, com o tronco sahido da floresta, o primeiro conservando ainda todas as tradições puras do passado, o segundo ainda a exhalar o perfume sylvestre das resinas-os representantes robustos das duas grandes forças humildes : a plebe e a selva.
Alli cresceu na virtuosa actividade e d'alli sahiu para o Sanhedrin tornando-se, em pouco tempo, o mais argúto e o mais brilhante dos doutores.
Do passado não se desligou jamais renegando-o por vergonhoso-o seu prazer era mostrar, na sala nobre da sua residencia, a cadeira que fizera na officina paterna : era o seu brazão de orgulho aquelle movel.
Conhecendo a vida porque a vivera desde o gráu mais modesto até o solio mais alto, de cima, como se o coração the houvesse ficado na raza planicie de onde partira, tinha sempre os olhos abaixados para o soffrimento dos que fervilham obscuramente na miseria desconhecida e era por elles que a sua palavra resoava ferindo toda a gamma das angustias; era por elles que a sua penna, forte como uma clava e delicada como um plectro, rodopiava demolidora ou vibrava suavemente a harpa das elegias; era por elles que o seu genio creava e a sua mesma força vinha d'aquella humildade tanto que, quando um adversario, querendo abatel-o, referiu-se, com desprezo, ao logar da sua partida, vimol-o sahir mais alto d'aquella modestia : o Nada deu mais grandeza a seu filho e do opprobrio da accusação rebentou o esplendor da defeza como das chagas de Jesus sahiu a gloria da sua doutrina.
O povo devia amal-o porque elle era o seu mais legitimo representante- no passado tinha apenas para mostrar a porta de uma officina mas, estendendo a penna, apontava o Futuro cujas ondas ia apartando para levar a Chanaan os que confiavam no seu prestigio, e na sua coragem.
Morreu pelejando, cahiu na trincheira e, como o soldadofiel que, ao sentir-se ferido, procura, na confusão da batalha, a bandeira pela qual verteu a ultima gotta de sangue, elle, na agonia, pediu ancioso : <<Abram as janellas ! deixem-me vêr o sol.
Quero morrer vendo a luz !>>> Era o combatente que procurava com os olhos a bandeira sob a qual pelejára.
Queria vêl-a, ainda uma vez, como se podesse levar para a sombra do tumulo a sua visão, a visão esplendida do ceu azul da manhan illuminada em ouro pelo sol que subia.
E foi, effectivamente, o seu lábaro, a Luz, na sua fulguração mais bella : a Verdade.
Pela Verdade foi que elle surgiu entre os guerrilheiros da santa campanha da abolição.
Era ainda um estudante, conservava, talvez, nas mãos os callos da ferramenta quando lançou o seu grito de guerra cor rendo a juntar-se aos propagandistas da redempção.
O que elle foi como abolicionista dizem-n'o os seus escriptos, repete-o o povo rebuscando na memoria as palavras flammineas com que o seu patriotismo ou, melhor, a sua philantropia verberava a exploração cruel da gente negra.
Vencida a primeira batalha logo se empenhou, com o mesmo atrevimento, em outra, e foi dos que mais luctaram esquecendo interesses, e só visando o triumpho ideal e até a hora em que estrugiram os clarins da victoria ninguem o viu desfallecer, ninguem o encontrou repousando.
Como o Macchabeu estava sempre nos pontos mais arriscados e foi a sua ancia nobre de refazer a cidade do Futuro, que o matou -- ficou sob as ruinas quando, a grandes camartelladas, procurava desempecer os logares tomados ainda por construcções defeituosas para n'ellas fazer subir o edificio novo e admiravel que sonhava.
O hebreu, filho de Matathias, cahiu sob o pachyderme monstruoso que, partindo das alas syrias, incitado pelo cornaca, esmagava no campo a gente israelita.
Cravando-lhe a espada no ventre o heroe não mediu a força nem pôde escapar a tempo á queda da mole viva e foi por ella apanhado; assim elle, na lucta, sem olhar as consequencias, ouvindo apenas a voz do patriotismo, affrontrou o perigo e, quando quiz recuar, as forças depauperadas negaram-lhe a necessaria energia e o vencedor ficou sob o peso do vencido.
Era um typo de raça, um dos ultimos representantes d'esses heroes em que tão fertil tem sido a gloriosa Bahia, que reune nos seus filhos o brilho dos athenienses e a audacia dos lacedemonios.
O seu enterro foi uma apotheose, todas as representações populares acompanharam ao frio silencio o despojo do grande homem como se n'elle vissem um viatico que se recolhia.
Foi a homenagem respeitosa com que os soffredores quizeram honrar aquelle envolucro de onde sahia, em clarões, como do sarçal montesino, o verbo eloquente da defeza e os protestos altivos contra o Erro.
Com Manoel Victorino desappareceu mais uma das glorias que nos orgulhavam.
Homem multiplo elle era o sabio e o poeta, o fundibulario e o artista, o cyclope e o miniaturista.
De volta da sua viagem á Europa, reassumindo a cathedra de lente e tornando a clinica, arrebatava o seu auditorio de alumnos com a belleza da phrase, sempre culta, com que deslindava todos os segredos da sciencia e, á cabeceira dos enfermos, maravilhava os collegas com as audacias de alta cirurgia, recompondo, pormeio da autoplastia, faces corroidas ou propondo e realisando resecções e ablações que pareciamloucuras.
Terminada a operação, deixando o allivio áquelle que gemia, purificando as mãos que haviam chafurdado em sangue e em ichor, sentava-se a mesa e o cirurgião desapparecia e no seu gabinete tudo se transformava : o tabix do esqueleto cobria-se de carnes, um sangue entrava a colorir os labios que se entreabriam, onde só havia o rictus sinistro, olhos accendiam-se nas orbitas vasias, voltava o sorriso á face; o gesto, o movimento accionavam o que era inercia e o symbolo triste da Morte apparecia sob a feição risonha da propria Vida: era a Musa inspiradora! e a mão que havia, minutos antes, retalhado a carne, esborcinado a pustula, lá ia obediente á inspiração divina, traçando o periodo scintillante onde a idéa fulgurava facetada carinhosamente pelo capricho requintado de um artista magnifico.
Mas se o babariso se levantava nas ruas, se partiam justas queixas do meio do povo opprimido, elle deixava a sua torre de Marfim e, subindo ao posto de combate, com a furia de um lapitha, era vêl-o lá de cima a arrojar catapultuosamente penhas sobre penhas como a ave monstruosa da lenda persa que, remigiando na altura, de azas largas, para vingar-se, subia penhascos até perto do sol e, lá de cima os deixava destruindo com elles esquadras nos mares e aldeias nas terras.
Morreu pobre como o homem da cabeça de ouro, de A.
Daudet que, depois de haver enriquecido meio mundo com as preciosas lascas do seu craneo, um dia, querendo comprar um par de botinas, levou os dedos à cabeça, que era o seu thesouro, e tirou- os ensanguentados, com umas miseraveis estrias de ouro ...
«Il y a par le monde de pauvres gens qui sont condamnés à vivre de leur cerveau, et payent en bel or fin, avec leur moelle et leur substance, les moindres choses de la vie.
C'est pour eux une douleur de chaque jour; et puis, quand ils sont las de souffrir... » e assim termina a Légende de l'homme à la cervelle d'or.
O que morreu tinha ainda uma copiosa riqueza na grande mina mas dava-a toda aos que a pediam.
Aquelles labios não sabiam dizer não ! e lá ia elle a todos os trabalhos, mostrando-se em todos os logares, na hora do combate ou no instante da caridade fulminando ou implorando, batendo-se pelos opprimidos ou pedindo para os pequeninos e para os valetudinarios.
Na sua casa da rua Leite Leal, nas Laranjeiras, disse-me elle, uma noite, a proposito da litteratura : <<que era uma carreira ingrata, menos ingrata, todavia, que a politica.
Não me aconselhava a deixal-a porque eu poderia responder com o mesmo conselho e elle teria de calar-se e concluiu : esses idealismos são sempre fataes.
A politica é tambem uma poesia» .
Toda a vida d'esse extraordinario luctador de rija tempera, mas desprovido de couraça, porque não tinha o egoismo para defender-lhe o corpo nem a indifferença a reforçar-lhe o coração, residia no cerebro que funccionava como um pharol mostrando ora a luz branca da paz, ora a luz verde da esperança ou o clarão sanguineo do combate.
A tempestade rugia em torno d'elle, tremenda, os vagalhões assaltavam o seu rochedo cuspindo-lhe a baba salgada da injuria, e elle, indifferente, continuava a alastrar o mar procelloso com o clarão salvador do seu genio-por elle fugiam os navios evitando a costa tenebrosa salteada de rochedos e as alcyones vinham bater as azas de encontro á sua luz como se tentassem fazer a tréva, mas só conseguiam maguar-se e cahiam palpitantes nas rochas do seu pedestal.
As procellarias, gritavam, longe, na vaga, receiando affrontar o esplendor e todos os monstros marinhos, que esperavam a carniça dos naufragios, olhavam, com odio impotente, aquella fulguração bemdita que abria na ferruginea densidão uma clara estrada por onde os navegantes podessem levar seguramente os barcos frageis.
Como não visse clarão de sol e a noite se prolongasse pelo dia o pharol não se apagava e aclarando, resplandecendo, ia sendo minado na base pelos vagalhões assaltantes e, repentinamente, fragorosamente, eis que a torre desaba deixando em negra escuridão a costa e o mar sinistro onde agora erram, entrechocando-se, os navios perdidos e alcyones, monstros e procellarias festejam, com alegria selvagem, a catastrophe.
Misero e grande luzeiro, tiveste a sorte de Prometheu e mais do que o grande piedoso que viu apenas as filhas de Oceanus chorando lamentosamente em torno do seu presidio, tu tiveste toda a Patria a chorar á volta do teu corpo, e se, como na linda poesia do grande lyrico das Levantinas, as lagrimas que a tua morte arrancou corressem em uma só caudal por ella iria fluctuando o teu esquife, como uma bari divina descendo na correnteza de um rio de saudade.
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