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A Bico de Pena

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A Bico de Pena

Capítulo 14 · A Bico de Pena

A nova raça

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Quem conheceu o fazendeiro, o grande sehor de terras e d'almas, mais pederoso do que os soberbos ricos homens da edade média, difficilmente, e com pena, o reconhecerá no agricultor actual, sombra triste d'um fastigio morto, ruina melancolica d'uma grandeza extincta.

D'antes, quem passava a porteira d'uma fazenda, que era como uma pequena cidade encravada entre arvores, quasi todas com a sua capella erguida no centro d'um jardim florido, tinha a certeza de encontrar abundancia e alegria : os paiões regorgitavam, o gado cobria os vargedos uberrimos, as machinas nublavam os ares com a poeira do café e a escravatura, numerosa e forte, espalhada pelos outeiros, punha uma nota de vida em todos os cantos, mesmo no fundo das grótas sombrias, onde a agua limpida manava, negros faziam luzir os ferros agricolas, cantando banzeiramente as suas saudades d'Africa.

A mesa, copiosamente abastecida, dava a illusão opipara de banquetes- chegasse quem chegasse, lá encontrava um talher e acolhida amavel e, á hora em que a sopa vinha, a ferver, das immensas cosinhas, ou o sino badalava alegremente ou um negro possante sahia á varanda, com uma buzina, soprando stentoricamente, para que os viajantes, que passavam nas estradas proximas, apressassem os animaes e chegassem a tempo de poder refazer-se sob o tecto hospitaleiro da grande vivenda rural.

As festas eram fantasticas -não é n'estas linhas escassas que hei de descrever tão sumptuosos regalos e só a penna abundante de um Simão Machado poderia bosquejar taes maravilhas do passado eu não tenho as côres vivas de que se servia o pintor das procissões mineiras, no tempo rico do transbordamento do ouro.

Dizer fazendeiro correspondia a dizer nababo e quando, na cidade, apparecia um d'esses homens de tez queimada, com um largo chapéo de palha, calças fofas, de brim branco, casaco folgado e anneis e ourama lampejando, corria na assistencia um murmurio de assombro e todos os olhos deslumbrados cravavam-se no homem que, pelo habito de tratar soberanamente a escravatura humilde, julgava-se, em toda a parte, um superior e, quando mettia a mão nas algibeiras fundas, sacava maços de notas gordas e, ás vezes, ouro reluzente, apanhado á beira dos seus corregos, que elle trazia, como amostra, para offerecer á venda.

Um filho de fazendeiro tinha fóros de principeera uma entidade quasi sobrenatural, um como Aladino dos contos arabes.

As cocottes punham-lhe cerco, os fornecedores disputavam a honra de lhe pagar o champagne estroina, o credito escancarava-se ao mais extravagante dos seus caprichos, e adulado, vangloriado, sempre com uma turba a formar circulo em torno da sua pessoa, lá ia elle, orgulhoso, debicando amores, provando todos os prazeres, a espalhar notas, com a mesma prodigalidade com que um rijo vento do outono dispersa folhas seccas.

Era isso no tempo em que o café valia o seu peso em ouro.

Ah ! o bom tempo !

Hoje, o fazendeiro é um typo de que se não fala e, quem o vê, não ima. gina que está deante de um descendente dos Cresos ruraes, dos famosos senhores rusticos, cujos lindes territoriaes iam além da linha do horisonte.

Muitas das antigas fazendas são hoje taperas ermas- o matto reconquistou, palmo a palmo, o terreno que lhes fôra tomado.

Veem-se casarões immensos com as paredes fendidas, os telhados cobertos de herva, os paiões em ruinas lugubres e, ás veم zes, estalando os soalhos pôdres, pullulantes de tortulhos, varando os tectos carunchosos, uma forte e i verde arvore irrompe à grande luz, sacudindo victoriosamente a sua rica folhagem, que farfalha aos ventos e abriga os passarinhos.

Perguntem pelo fazendeiro-foi desalojado pelo crédor e, á luz alegre d'uma manhan, com algumas reliquias n'um velho carro de bois, abandonou, com a familia, o solar agreste, lançando-se aventurosamente a uma vida nova, como um naufrago que se salvasse nú das perfidias d'uma procella.

Não julguem que exaggero-copio fielmente quadros da decadencia.

O fazendeiro que ainda resiste vive, como o triste propheta hebreu, desferindo lamentosos threnos sem animo e sem esperança, espera resignadamente a chegada da Miseria.

A terra debalde produz, debalde os campos cobrem-se de flores, de que vale tanta uberdade? para que tanto esmalte nas campinas e nos outeiros, se o producto depreciado não dá, sequer, para o custeio da propriedade, que tudo consome ?

Os que lucram são aquelles que la andam pelos lançantes dos morros, homens, mulheres e creanças louros, como os temidos germanos de Tacito - são os conquistadores, que entraram submissamente como colonos e que, com a vida sobria, accumulando os salarios, vão conseguindo impor-se, adquirindo lotes de terras, que elles mesmos revolvem e semeam.

São os donos futuros, é a geração nova, que se impõe pela força e pela perseverança.

No dia em que o fazendeiro exgotta o ultimo recurso o colono levanta a cerviz e é vêl-o, então, dominando, como para desforrar-se do tempo da obediencia passiva, dictando leis, assediando a casa senhorial, a exigir com armas e affrontas.

Quando li as palavras acerbas do livro presago de Graça Aranha senti que o meu patriotismo, revoltado, protestava contra aquelles augurios crueis do allemão Milkau : «E' provavel que o nosso destino seja transformar, de baixo a cima, este paiz, de substituir por outra civilisação toda a cultura, a religião e as tradições de um povo.

E' uma nova conquista lenta, tenaz, pacifica em seus meios, mas terrivel em seus projectos de ambição.

E' preciso que a substituição seja tão pura, e tão luminosa, que sobre ella não caia a amargura e a maldição das destruições.

E por ora nós somos apenas um dissolvente da raça d'este paiz.

Nós penetramos na argamassa da nação e a vamos amollecendo, nós nos misturamos a este povo, matamos as suas tradições e espalhamos a confusão ! ...

Ha uma tragedia na alma do barsileiro, quando elle sente que não se desdobrará mais até ao infinito.

Toda a lei da creação é crear á propria semelhança.

E a tradição se rompeu, o pae não transmittirá mais ao filho a sua imagem, a lingua vae morrer, os velhos sonhos da raça, os longinquos e fundos desejos da personalidade emmudeceram, o futuro não entenderá o passado » .

Hoje, porém, posto que reaja com toda a força, com toda a energia do meu instincto patriotico, diviso, através d'aquella prophecia, um fundo de verdade : o Brasil vae sendo transformado, não absorvido.

Os inimigos não vêm em esquadras, apparelhadas bellicosamente, chegam em grandes levas, que enxameam as prôas dos transatlanticos, vêm dos paizes regorgitantes, sahem do aperto das grandes cidades e, como soffreram toda a sorte de torturas, desde o frio, nos lagedos dos caes, até as fomes nas baiucas em que se accumulavam, ás dezenas, confundindo os halitos e os gemidos ; desde a affronta dos poderosos até o desprezo dos proprios parentes mais aquinhoados pela fortuna, ouvindo o nome do Brasil e, talvez, lendas que ficaram dos venturosos tempos do ouro, demandam anciosamente a terra do sol e das flores, onde não ha invernos que transam, nem miseria que mate, onde sobram campos aos pastores e ainda existem regiões inteiramente virgens, nem trilhadas nem vistas por homens civilisados, onde só caminham hordas de bugres e feras fremem, ao luar, em manadas sanginarias.

Chegam, são acolhidos pelo clima tépido, que é uma caricia natural, respiram, a largos pulmões, o puro ar das florestas, desalteram-se nas limpidas aguas dos arroios que murmuram, contemplam os grandes rios, admiram, extasiados, as borbulhantes cachoeiras e, contentes com o que vêm, dão graças a Deus pela redempção e vão immediatamente tratando do estabelecimento, que é o primeiro passo para a conquista.

Fazem-se colonos e, como já conhecem a miseria, trabalham ambiciosamente, acoroçoados pela fertilidade.

Na casa, o mealheiro é commum e, como a familia vive com sobriedade, os lucros crescem, em pouco tempo.

O fazendeiro, ao contrario, habituado ao Fausto, á vida prodiga, não somma as despezas e, à medida que a crise augmenta, vae elle dissipando com mais largueza, como para atordoar-se-o seu dinheiro deserta do cofre e passa para as arcas dos colonos, empilhando-se até o dia em que elle se encontra sem vintem e assediado pelos avaros trabalhadores que lhe sugaram a fortuna.

Esse é o dia tragico, o dies iræ : o senhor abandona a propriedade absorvida pela hypotheca, os colonos tornam-se pequenos proprietarios e começa a expansão na terra.

Os berços lá estão ao fundo das casas -são os novos homens.

Onde antigamente chorava, em farrapos, o creoulinho nú, filho do escravo, vage agora o bambino rosado e louro, abençoado por este sol admiravel.

Vae-se a lingua cruzando- vocabulos exoticos resoam extranhamente em phrases portuguezas, é a lenta invasão da palavra ; já se não ouve o resôo soturno dos tambores nagôs, agora é o estrepitar das castanholas, ou o sonoro adufar nas soalhas dos pandeiros napolitanos.

Nos terreiros de congáda dança-se a tarantella e as tradições brasileiras vão desapparecendo ; a pouco e pouco uma nova raça surge e a humilima e dessorada geração, enfraquecida pela abastança desordenada, cede aos sadios o terreno, como os romanos da decadencia cederam aos robustos barbaros.

Mas, o caldeamento se fará sem prejuizo da Patria-a nação não perecerá, porque os que vão nascendo, á medida que os paes enriquecem e aformoseam a terra, vão-lhe ganhando affeição, amam-n'a e, começando por defenderem a casa, acabam defendendo a fronteira e quando, desapparecido o ultimo decadente, viver, rija e formosa, a nova gente, sobre esse diluvio, como o Espirito de Deus nas aguas da catastrophe, ha de pairar a lingua, a doce lingua portugueza, enriquecida, sem duvida, com expressões adventicias, e, baixando sobre a terra a raça que ha de ficar, a Patria reapparecerá mais bella, mais graciosa e mais rica, prompta para todas as sementeiras, como reappareceu o mundo depois dos quarenta dias de calamidade, tendo como prova de alliança não o iris fulgurante, mas a bandeira auri-verde, que é o symbolo da nacionalidade.

O que se está realizando- é possivel que eu veja como optimista- é a lei da selecção e não uma conquista-os fortes hão de prevalecer e queira Deus que assim seja, para gloria da Terra e orgulho dos nossos filhos, A raça desanimada que ahi está, essa é que não póde subsistir.

Homens que choram em presença do perigo não merecem as honras do triumpho.

Venham os novos brasileiros, appareça e domine a gente nova e robusta.

Foram os barbaros que renovaram o mundo occidental : venceram, mas foram assimilados pelos vencidos e, para fazer a assimilação das hordas que chegam, basta-nos o nosso Sol.

A Bico de Pena

Sinopse

Leia gratuitamente A Bico de Pena, de Coelho Neto, obra brasileira em domínio público com fantasias, contos e perfis organizada para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi saneada a partir de fonte pública preservada no Wikimedia Commons/HathiTrust e conferida com o registro do Domínio Público/MEC, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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