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A Bico de Pena

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A Bico de Pena

Capítulo 34 · A Bico de Pena

Burro ou cão?

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BURRO ou cão ? e Melchisedec da Silva, de mãos nos bolsos, media, a largas passadas, o seu quarto de sabio e celibatario com uma duvida no espirito, mais incoercivel que a de Hamlet : Burro ou cão ?

A mascara de burro, um primor, lembrava a cabeça asinina que Puck fez crescer sobre os hombros de Bottom, a de cão era tão perfeita que o velho Pachá andava pelos cantos erriçado, desconfiado, a roncar.

Melchisedec não se decidia e, hesitante, queimava charutos e era tanta a fumaça no aposento que as estantes, altas e atochadas de preciosos volumes, desappareciam abrumadas pelo fumo, menos denso, entretanto, do que a duvida que escurecia o claro espirito do profundo psychologo.

Burro ou cão ?

Quando entrei para consultar o meu esclarecido amigo sobre um aphorismo complicado de Mencio, o espanto reteve-me a porta, sobre um velho atlas de ethnographia que servia de capacho.

Não vi Melchisedec, o que vi foi uma especie de Anubis, de quinzena, contemplando-se a um espelho com serenidade.

O velho Pachá bufava trepado na mais alta estante, com os olhos rebrilhando como duas brazas.

Por fim o cynecephalo voltou-se para o meu lado, e, em vez de ladrar, disse-me com intimidade : <<Entra, homem» ; e logo reconheci a voz do meu erudito amigo que, para tranquillisar-me, retirando a mascara, mostrou-me o seu rosto magro e pallido onde a barba crescida punha uma arripiada sombra. - Que capricho é esse, Melchisedec?

O sabio encolheu os hombros estreitos e sentou-se cançadamente, com um suspiro.

Vaes sahir fantasiado ?

De novo encolheu os hombros com indifferença.

Por fim, depois de alisar a fronte vasta, perguntou-me : -Que dizes : burro ou cão ? -Burro ou cão?! não te comprehendo, Melchisedec.

Intimamente eu sentia um alvoroço contando com uma nova e argúta subtileza philosophica e cravei os olhos na face macilenta do austero homem. -Não me comprehendes ?

Não. -Pois não ha difficuldade alguma na minha pergunta.

Senta-te e ouve.

Sentei-me e dispuz-me a ouvir a palavra, sempre fecunda, do grande e desconhecido commentador dos moralistas chinezes. -Sabes que fui de novo, preterido por um mocinho chamado Alfredo, filho de um chefe politico que dispõe d'uma centena de votos por ahi algures.

Estou vivendo dos meus livros e, levantando o braço direito, o mesmo que elle eleva para os ceus, á noite, para indicar-me as constellações luminosas, mostrou-me uma das estantes, consideravelmente desfalcada. -Estás vendendo os teus livros, Melchisedec ?! exclamei pasmado e indignado. -Alguns.

Que hei de fazer? o senhorio e o estomago são exigentes.

Mas, vamos ao caso : fui preterido e queres saber porque ? -Porque não levaste um empenho ... -Talvez tenhas razão, mas eu attribúo á fama que vocês, meus amigos, crearem em torno do meu nome : que eu sou um homem de estudos, que tenho o meu bocado de philosophia, que penso, que escrevo a minha lingua sem grandes erros compromettedores ... e que sou independente.

Estudos e inteireza de caracter são duas qualidades más para quem precisa.

O regimen é dos mediocres ... e dos bajuladores : burro ou cão, não te parece?

Na face magra de Melchisedec tremeu um sorriso triste.

Aquelle rapazote, que foi nomeado secretario de legação, foi meu alumno durante tres mezes : quando se inscreveu na secretaria ainda escrevia omenajen e affirmava que a primeira missa no Brasil föra rezada na egreja da Candelaria.

Lá está na Europa e Deus o tenha por lá muito tempo para que a lingua não soffra com os seus constantes ataques.

O governo entende que, como elle vae viver no estrangeiro, póde, perfeitamente, dispensar o portuguez.

O regimen é dos mediocres e dos engrossadores, como agora se diz.

Um homem secco, como eu, não pode engrossar mas tambem não me convém morrer á mingua- é preciso que eu arranje alguma coisa.

Com a minha cara estou certo de que não consigo um logar de porteiro nem mesmo de varredor.

Tenho aqui duas mascaras, qual d'ellas devo levar: a de burro ou a de cão ?

Qualquer d'esses animaes tem cotação : o ignorante impõe-se, o servil consegue tudo.

Estamos no carnaval e estou aqui ensaiando os papeis de burro e de cão e ámanhan, optando por um ou por outro, lanço-me por ahi á aventura, subo as escadas da primeira secretaría, dirijo-me ao ministro e zurro ou gano. -Tu estás pessimista, Melchisedec. -O que estou é convencido de que isto é o paiz dos analphabetos e dos zumbridos.

Olha que é um crime saber ler, meu caro.

Eu vivi a absorver sciencia e litteratura e hoje não tenho uma camisa decente.

Que é o carnaval? a vida voltada pelo avesso, não te parece?

Todo o homem tem em si uma feição que se occulta sob as conveniencias.

Anthero, que é mais triste que uma missa de setimo dia, só se fantasia de palhaço e tem graça, faz rir a valer-ninguem dirá que, sob aquella mascara comica, está a cara consumida do mais taciturno homem que o sel cobre...

Na quarta-feira de cinzas Anthero recomeça a pensar no suicidio.

As creanças, que são verdadeiros diabretes, trocam, de bom grado, o mais rico trajo de principe, pela ganga rabuda de um diabinho ; os velhos, são, em geral, rapazes lepidos - eu vou virar-me pelo avesso mostrando-me burro ou cão e, quem sabe lá? é até possivel que se dê commigo o que se dá com o Anthero : que os solecismos me acudam em borbotões e que a minha espinha se torne mais flexivel do que umjunco.

Queres, em summa, a verdade ? vou exercitar-me, vou aproveitar os tres dias de irresponsabilidade para despejar asneiras, afeiçoando-me aos barbarismos indispensaveis e para lamber todas as mãos e todos os pés que me apparecerem.

A vida é dos que mais fingem-tudo está em saber disfarçar.

O rapazote * não está a percorrer cidades, de embaixada em embaixada, a rir-se e com razão, das minhas preoccupações espiritualistas ? e eu que faço não tenho uma codea para roer e durmo sobre um catre duro, como um penitente.

A sociedade deu-me o diploma de sabio, pois bem; faço agora questão de merecer o titulo de besta e só me considerarei feliz no dia em que ouvir louvor a minha passagem, coisa que se pareça com isto : «Alli vae o maior camelo d'esta ! terra! » e, no dia afortunado em que tal coisa se dér, poderás procurar-me porque serei uma influencia no paiz.

A duvida que me retém é esta: Como devo ir: de burro ou de cão ?

Eu estava pasmado e o meu espanto cresceu de ponto quando Melchisedec enfiou na cabeça a mascara de burro e sobraçou um grosso volume : -Que diz você? roncou.

Estou bem assim ?

Eu acho que tu estás doido, Melchisedec.

Não te pergunto se estou doido, pergunto-te se estou bem como burro. -Isso estás. -Pois então, meu amigo, prepara-te para a surpreza. -Que vaes fazer ? -Vou ao ministro.

Ponho-me de quatro pés, subo as escadas, ornejo deante do reposteiro, entro, escoucinho, e ... -E sahes corrido a pauladas como aquelle burro da fabula que se metteu a fazer caricias. -Então vou de cão ...

Filho, irrompeu de repente, eu preciso fazer pela vida, isto assim é que não pode continuar.

E' preciso transigir ? transijo.

Os homens querem a mediocridade lisongeira, seja feita a vontade dos homens. -Vaes renegar a sciencia, relapso ?

A sciencia ? tudo ! o que eu quero é um emprego.

Vou passar o resto da vida disfarçado em asno ou em cão ou alternativamente : em cão e em asno.

Viverei como Pelle de burro -em publico besta quadrada, em casa, com o ferrolho corrido, philosopho espiritualista.

E que pensas? a maior parte dos fantasiados que por ahi anda esmóe uma idéa.

Despe o princez, desmacaro-o e talvez encontres debaixo da belbutina um desgraçado que se atordoa ou um infeliz que tem fome.

Já alguem observou que o carnaval, nos tempos de crise, é sempre deslumbrante -é que a loucura é proporcional ao desespero : ha homens que bebem quando têm maguas.

Dizem que é a festa da Folia, a apotheose da Hypocrisia é que é.

Como eu quantos haverá ámanhan nas ruas ?

Emfim, nada tenho com os outros, dize lá-como devo ir: de burro ou de cão ? -Não sei, Melchisedec. -Vou de cão ...

Se os senhores encontrarem pelas ruas um sujeito pequenino, magrinho, com uma cabeçorra de cão, lastimem-n'o : é Melchisedec que anda cynicamente amendigar emprego ou a ensaiar-separaum alto cargo.

Pobre Melchisedec! não sabe o misero que a gralha póde disfarçar-se em pavão mas o pavão ... esse é que nunca se disfarçará em gralha.

Com cabeça de cão ou de burro elle ha de ser sempre o mesmo philosopho, o mesmo erudito, incompativel com as propinas gordas.

Em todo o caso não lhe matemos a esperança-deixemol-o illudido nesses tres dias de illusão. -Burro ou cão ... que animal !!!! !

A Bico de Pena

Sinopse

Leia gratuitamente A Bico de Pena, de Coelho Neto, obra brasileira em domínio público com fantasias, contos e perfis organizada para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi saneada a partir de fonte pública preservada no Wikimedia Commons/HathiTrust e conferida com o registro do Domínio Público/MEC, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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