Universo da obra
Universo da obra
Nestes civilizados tempos, esterilisados por muito civilisados que são, sem ideal e sem crença, que é a «fórma» mais nobre e mais alta do ideal, com muita cultura e muita chateza - porque o que se ganha em superficie perde-se em elevação- o homem, esse ser « amante e pensante» , perdeu as qualidades que o tornavam a maravilha maior da creação-um pouco de divindade dentro d'um pouco de argilla -e passou a ser uma obra artificial como as machinas beneficiadoras ou o garrulo phonographo.
Nos bons tempos d'antanho, tempos simples e heroicos, quando os anjos, nas horas douradas e calmas da tarde, nas épocas de aroma e sabor, que eram as da florescencia e a do fructo, encolhendo as azas, vinham sentar-se sob a vinha dos lares, bebendo, com sêde humana, a agua fresca pelo gargalo vermelho das urnas que as moças, como Rachel, graciosamente lhes offereciam e acceitando a brôa, o anho e o vinho da refeição frugal dos patriarchas, a vida era, talvez, mais rude, em compensação a alma era mais pura e tinha toda a sua força de creação que os tempos foram consumindo. : O patriarcha era um nomade-se a terra do seu habitat se lhe tornava ingrata ou se a fonte, com os calores, ficava em marnóta, logo ordenava a partida e, tomando um bordão, reunindo a sua gente, lá ia, entre os lentos carros toldados de pelles onde se acolhiam as mulheres e as creanças, com um rebanho numeroso a balar e a mugir na códa da caravana, guiado por pastores, que eram, ao mesmo tempo, homens de guerra, olhando attentamente as terras, provando as aguas, á escolha de um sitio de fertilidade e belleza onde estendesse as pelles das fendas e cravasse os moirões dos curraes.
O «homem» era um ser de vontade, pensava e agia por si era o sacerdote e o juiz, o patrono e o caudél : officiava e julgava, abençoava e conduzia ao combate.
O altar era um monte de pedras coberto de musgo, o tribunal era a soleira da propria casa e havia crença e havia ordem.
Com duzentos bois, uma centena de vaccas, um lóte de ovelhas e rafeiros possantes e, para trazerem em ordem esse armentio, uns rapagões alentados, o patriarcha era um rei no deserto e, se succedia sahir-lhe ao encontro algum ras, o senhor de campo e monte, com muitas lanças, embargando-lhe o passo, bradava á sua grey : o pampilho do pastor transformava-se em lança, o corno de reunir o gado resoava como tuba de guerra, e toda a bucolica, perdendo o seu encanto sereno, apparecia como um epinicio ruidoso.
E a terra ficava em poder do mais forte como premio da victoria : era a prisioneira e os triumphadores, como não havia vaidade, em vez de levantarem arcos festivos e de abalarem o silencio com arengas e apologias celebrando a batalha, bem conduzida e bem terçada, recolhiam os despojos, enterravam os mortos e, passando e repassando o arado pelo solo que as patas dos ginetes haviam calcado, semeavam cantando e as festas triumphaes quem as fazia era a primavera.
Os homens não tinham livros, muito eram os tijolos cozidos em que gravavam os fastos da raça e as observações que faziam na terra e no ceu ; não tinham tribunas, não tinham jornaes, não tinham escolas - a sabedoria era pouca e bastava : saber a época de lançar a semente, a época mais favoravel ao córte das arvores, quando convinha mondar, podar, armar um carro, laçar um touro, aderençar um potro, tosar a ovelha, aguçar um ferro de lança, cavar um pilão, fiar uma estriga, doubar um novello, desviar um golpe, vibrar uma funda, triturar as hervas beneficas, sonhar e cantar os hymnos religiosos, eis em que consistia todo o saber humano.
E os ho mens tinham saude e alegria e as mulheres tinham virtude e belleza -o ceu era o mesmo, o mesmo era o sol e as estrellas brilhavam, talvez mais claras, dentro da noite.
Rolaram seculos e os homens foram inventando e applicando -e, a medida que inventavam e applicavam, iam perdendo a energia : a escripta atrophiou a memoria, a machina atrophiou o musculo, o artificio matou a belleza, o sophisma foi batendo o bom senso, a polvora inutilisou a bravura.
A Sciencia reduziu toda a acção humana a funcções nervosas e musculares, sanguineas e lymphaticas, productos de mais ou de menos bile, de mais ou de menos phosphoro.
O furor de Ajax, cantado por Homero, podia ser combatido por um colagogo e a Illiada não existiria.
Hesiodo foi um ingrato cantando as pierides quando devia ter enaltecido a massa cinzenta.
Em uma caixa de phosphoros Jonkopings ha mais idéas do que em todo o Parnaso grego de onde decorreu, como uma clara e sonóra fonte, toda a anthologia.
Com a substancia que gerou o Gorgias de Platão, os petizes do nosso tempo accendem cigarros ás mesas dos botequins e, sobretudo, para confundir o mundo e abastardar a Humanidade, a Palavra domina.
A Palavra- eis tudo, eis o mal grande ; a Palavra que vôa e que é aguia ou corvo, borboleta ou mosca, e a Palavra escripta, que é diamante eterno ou gotta de agua ephemera, luz ou brasa, gloria ou diffamação, epopéa ou mofina.
Em verdade- quaes são os verdadeiros polos do mundo senão estas duas palavras : sim e não, que resumem toda a vida ?
Estes dois monosyllabos essenciaes que respondem a todas as necessidades da existencia dispensam a lingua e, em qualquer gesto, n'uma contracção subtil ou n'um ligeiro aceno logo se manifestam-basta uma oscillação de cabeça para que se affirme uma verdade ou se negue uma graça.
No olhar o sim é brilho, o não é chamma que arde ; sim é fecundo, não é esteril, sim corresponde ao estio, não corresponde ao inverno, sim é vida, não é morte.
Todas as demais palavras não passam de modificações d'esses monosyllabos - são como os recamos com que o logista, para dar mais valia e realce aos objectos, costuma enfeital-os.
No amor : a mulher que vos unge com a luz enternecida dos seus olhos, que vos envolve com o halo des seus braços, que vos acaricia com o seu mais suave sorriso, que, pouco a pouco, brandamente, vae inclinando a cabeça, como uma arvore inclina o seu ramo florido, para que vos chegue á bocca o beijo dos seus labios, que faz com todos esses movimentos cheios de meiguice e de graça ? diz sim.
Aquelle que para responder ao vosso pedido afflicto, explica que a politica vae mal, que as terras estão esgotadas, que as chuvas são poucas, que ha falta de braços, que o paiz está á beira de um abysmo, vae desembrulhando lentamente um involucro de palavras inuteis dentro do qual ha apenas - o não.
A creança, sorrindo, estendendo os braços, está a dizer : sim; amuando está a dizer-não.
Na politica-o parcial do governo que se levanta com muita gravidade e longamente discorre horas e horas sobre um projecto, despejando palavras ocas, pouparia um trabalho inutil se logo dissesse-sim ; o opposicionista verberando, citando, apostrophando, lamentando, não faz mais que encher um não ! para que retumbe.
Vêde duas obras compactas sobre uma these controvertida, um auctor é materialista, é esperitualista o outro - que ha nas mil e tantas paginas atochadas dos pretenciosos volumes? sim em um, no outro não.
Trava-se uma guerra, ferem-se batalhas, succumbem milhares de homens, arrazam-se cidades, sossobram navios ... se quizerdes saber porque assim se hostilisam as duas nações perguntae a um philosopho laconico e elle vos dira-«Queria uma o sim, a outra respondeu que não e do sim e do não veio a guerra que as maltrata» .
Simplificada a vida em duas palavras sóbrias, para que ha de o homem gastar tanto tempo com tão oca facundia ?-palavras são folhas que cahem, só o tronco subsiste-ou é verde e é sim, ou é secco e é não.
Lycurgo exercitava os jovens espartanos, não em discursos vasios, mas na precisão eloquente e, essa raça de austeros silenciosos, que brandiam na guerra uma espada curta, dizendo como Agis « que era de tamanho sufficiente para alcançar o inimigo» , tambem nas suas respostas só empregavam as palavras estrictamente necessarias : a prolixidade é um vicio da decadencia.
Assim o homem que se tornou atheu para não perder tempo em orações, que inventou a escripta para descançar a memoria, que inventou a machina para poupar o musculo, que inventou a polvora para alliviar-se do peso das armaduras, que negou o «ideal» para não sahir do real, onde tine a moeda, que é o encanto da vida, esse adorador fanatico da inercia, que vive a poupar o esforço, não descança e, falando ou escrevendo, trabalha mais do que todos os patriarchas do velho tempo e, ainda, não contente com o que a bocca infatigavel jorra durante as horas do dia em discursos, em controversias, em palestras, em maledicencia, em conchavos, em declarações, ainda poz o phonographo a palrar, conservando, como embalsamadas, as proprias vozes dos mortos.
E a razão que allegam os avaros da hora em defeza d'esse instrumento é a falta de tempo: não sobra tempo para leituras, que os minutos são poucos para negocio e chalreio e assim, emquanto o homem estiver ao balcão vendendo ou a almoçar á pressa ou a espairecer na varanda, um phonographo lhe irá servindo, como em conserva, as noticias do dia, berrando os telegrammas da ultima hora, os discursos do parlamento, as vendas da bolsa ; outro lhe exporá as ultimas novidades scientificas, outro dissertará sobre a nova philosophia, o ultimo, rangendo, irá vagarosamente narrando as peripecias do romance em voga.
E é isto a civilisação : o culto da palavra.
Ah ! os homens sobrios do bom tempo ! os patriarchas das primeiras eras !
Mas, ó plumitivo incoherente e ingrato, que seria de. ti se não fosse a palavra !
Que vens tu fazendo por essas paginas fóra senão desmentindo o teu sermão ? ...
Dá conta do teu recado com um sim ou com um não.
Se não fosse a palavra, ingrato, onde irias tu buscar assumpto para tanto?- no Instituto dos mudos, talvez, que fôram, sem duvida, os auctores d'esse falso adagio que diz que «o silencio é de ouro ... » De ouro, pois sim, mas estou certo de que elles o trocariam, de bom gosto, pelo cobre mais azinhavrado do calão mais reles.
Louva a palavra, plumitivo, louva a palavra sonora.
Para gloria da palavra, basta este vocabulo : «Amo ! ...>>> cantando docemente na bocca d'uma mulher.
Louva a palavra e pede aos homens que a louvem e, quantoàvida dos patriarchas, deixa lá, sempre se viaja com mais facilidade e commodidade em um wagon de primeira do que no melhor carro de bois do tempo de Jacob.
Isso de lamentar o velho tempo ... words, words, words.
E vês, ingrato ? ainda para remate do teu trabalho veiu em teu auxilio a palavra.
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