Universo da obra
Universo da obra
No recesso mais temeroso de uma embrenhada floresta onde o sol era tão raro como os passarinhos, avultava, calada e sinistra, alta e de muros de ferro, cercada por um fosso no fundo do qual luzia uma agua morta, logradouro de rans que, desde o cahir das noites, alteravam o silencio com um lugubre côro, a alcaçova do genio.
Homem algum, cavalleiro ou lenhador, por mais atrevido que fôsse, jamais chegára áquelle encantado sitio ; as mesmas aguias temerarias, ainda acossadas 1 Contado, pelo autor, no Club Campineiro, na noite do concerto do violinista Diaz Albertini, e escripta a pedido de varios admiradores do extraordinario artista, para que fique como lembrança da encantadora festa de 2 de março. pelas tormentas, evitavam, espavoridas, as ameias da mansão; só as estriges e os vampiros chirriavam, trissavam esvoaçando a volta das torres sombrias onde tinham os seus ninhos bem agazalhados.
Um exercito de gnomos e enxames de sylphos vigiavam a terra e o ar e, á beira dos rios, nas pedras das fontes, nixes e ondinos, com os cabellos verdes emmaranhados de algas, faziam a guarda silente das aguas e ai! de quem se aventurasse pelos meandros de tão fechado bosque - aquelle que chegava a avistar o viso d'uma das torres não olhava jamais o sol que redoura os campos.
Tão tristonha morada, perdida na selva, devia ser como um carcere.
Quem a visse, quem a percorresse, não lamentaria o sequestro do mundo : os salões, que eram incontaveis, variavam no feitio e na riqueza : n'este os muros eram todos de prata, n'outro, eram de claro crystal ou de oniz negro e rebrilhante.
Os tectos resplandeciam como ceus recamados de pedras finas-o ladrilho era todo de porphyro, de aventurina, de topasio e de jalde.
Fontes aromaticas, golfando sonoramente, refrescavam, perfumavam todos os aposentos e os jardins immensos, de aleas semeadas de mica, estavam sempre floridos e por elles, festivamente, cantavam legiões de passaros mimosos e graciosas corças e antilopes, juntos á beira dos lagos espelhentos, olhavam pensativamente os cysnes que nadavam.
Não havia, entretanto, em toda a immensa alcaçova, a sombra de uma ancilla-todo o serviço era feito mysteriosamente e a unica creatura que habitava a vastidão era a mimosa e linda princeza Eudalia.
Filha de reis, tinha Eudalia cinco annos quando, uma tarde, passeiando entre as aias nas alamedas do parque real, foi arrebatada por uma aguia que, sem dar tempo a que acudissem, voou, voou tão alto que, quando as aias, sahindo do espanto em que ficaram, ergueram os olhos, nada mais viram no espaço senão as nuvens que se accumulavam.
Foi uma consternação na côrte e em todo o reino.
Emissarios sahiram propondo premios a quem descobrisse o paradeiro da princeza, por fim lembrou-se o rei, para animar as pesquizas, de offerecer a mão de Eudalia e a corôa real a quem a conquistasse ao genio, porque um feiticeiro, consultando os seus grandes livros magicos, chegou a descobrir que o rausor era um genio e dos mais poderosos.
Foi tudo em vão.
Cobriu-se a côrte de lucto mas, com o correr dos annos, Eudalia foi esquecida- só a rainha a chorava quando, atravessando a camara deserta, via a cama de fios de prata em que d'antes sorria a princesinha.
Eudalia, emtanto, crescia feliz na merencorea alcaçova da selva.
Nada lhe faltava- os seus desejos eram immediatamente satisfeitos .
A principio ella espantava-se de vêr a mesa servida sem que apparecessem creados, de ouvir musicas e cantos, de achar flores na sua camara, de ser levada suavemente d'um a outro ponto sem vêr, sem sentir os braços que a transportavam pouco a pouco, porém, habituando-se á vida de encantos, achava naturaes e simples todos os prodigios .
O genio, esse, só de longe em longe lhe apparecia, porque andava, quasi sempre, errando.
Era um lindo mancebo, louro, de olhos azues, mas triste, de uma tristeza que se communicava á alma da formosa Eudalia, já então moça e linda.
Quando elle permanecia no castello, tempo tão curto e tão feliz para Eudalia! ella cercava-o de carinhos, tomava-lhe ao collo a formosa cabeça e, ameigando-o, asseteava-o com perguntas sobre a sua vida, sobre o mysterio d'aquella residencia; elle, porém, mantinha o mutismo, e para evitar mais perguntas, pretextava uma viagem e levantava-se à pressa.
Sempre, porém, que tinha de sahir, chamava Eudalia e recommendava-lhe que respeitasse o salão que era fechado pela porta de bronze.
Succedeu, porém, que, sendo, d'uma das vezes, mais longa a demora do genio e conhecendo Eudalia todas as maravilhas do solar, cresceu no seu coração o desejo de vêr a sala prohibida.
Que extranhos e admiraveis thesouros haveria lá dentro ?
Durante quatro dias com as suas noites Eudalia luctou contra a curiosidade para não falhar á promessa que fizera; no quinto dia, porém, caminhando ao longo do corredor que levava á sala do mysterio, desejou, com ancia, vêr o que n'ella se continha e, como todos os seus desejos eram immediatamente satisfeitos, logo se escancarou, sem rumor, a pesadissima porta.
Eudalia, com o coração sobresaltado, entrou no recinto, que era illuminado por uma claridade azul e, correndo os olhos pelas paredes núas, nada viu que reclamasse a sua attenção e sorriu dizendo comsigo mesma : «Foi, sem duvida, para experimentar-me 3 que elle prohibiu que eu aqui entrasse ... » Caminhando, porém, descobriu a um canto um toro de madeira e num distico estas palavras : «Pedaço do tronco de Haïn, a arvore do Bem e do Mal ... » perto estava um fino arco, com estes dizeres em lettras de ouro : «Arco de Eros, o Amor» .
Pendente da parede um nastro de filamentos : « Clinas do cavallo Pegaso» , ao lado quatro fios compridos : «Cabos da náo Argos» , não longe um «osso da cauda de um delphim» , um «baculo de pastor aryano» e « os quatro cravos da cruz de Christo, os que pregaram os membros do Messias e o que cravou a legenda ironica no tópe do cruzeiro » .
Eudalia sorriu vendo aquelles extranhos objectos, e ainda sorria quando sentiu que alguma coisa the cahia aos pés-olhou e viu uma finissima serra de diamante e logo uma voz lhe disse : «Serra o toro de Haïn e tira duas laminas bem finas, dá-lhes a fórma de um gracioso tronco de mulher com a cintura bem justa-terás o Bem do amor e o mal do Ciume.
Adapta-lhe, na parte superior, o baculo do pastor aryano e na parte inferior o osso da cauda do delphim que conservam toda a bucolica dos campos e toda a melancolia dos mares.
Crava na volta do baculo, dois em cada lado, os cravos da cruz e terás os pontos cardeaes do soffrimento - prende nos cravos e liga-os ao osso do delphim os quatro cabos da náo Argos nos quaes silvaram os quatro grandes ventos de Eolo.
Toma o arco de Eros e n'elle estira de ponta a ponta as finas clinas brancas de Pegaso, que é o Ideal que arrebata.
E, com o Amor e o Ideal, repassa os cabos retesados da nào Argos e terás uma companhia na solidão em que jazes» .
Calou-se a voz e Eudalia ficou largo tempo a pensar no seu conselho até que se resolveu a executar o que ella lhe dissera-e assim fez.
Dias e dias passaram sem que ella sentisse, entretida, como estava, n'aquelle emprego, até que, ao cabo d'uma semana trabalhosa, realisou o seu desejo -tinha o objecto nas mãos e, passando e repassando o arco pelos finos cabos, notou que alguma coisa gemia torturadamente.
De novo a voz falou no mysterio: «Abre dois S na caixa do instrumento - um será o sorriso, outro será o soluço» .
Assim fez Eudalia e, de novo, repassando suavemente o arco, teve como uma visão angelica-e os primeiros accordes abalaram de tal modo a alcaçova que todo o encanto desappareceu e a pesada mole aluiu com estrondo e todos os gnomos, sylphos, nixes e ondinos que assom bravam a floresta desappareceram da noite para o dia.
Justamente no momento em que soavam os primeiros accordes o genio chegou ao castello e descobriu a desobediencia de Eudalia.
Para vingar-se, então, por haver uma mulher, desvendado o seu segredo, brandiu a sua vara de encanto destruindo a alcaçova e arrasando a selva e, furioso, pronunciou estas palavras crueis : «Vivias feliz, desobedeceste á minha ordem-soffre para o todo sempre, alma curiosa, encerrada na propria carcerula que construiste» .
E a alma de Eudalia, abandonando o divino corpo que habitava, passou-se para a caixa do objecto que pacientemente construira com tudo quanto encontrára na mysteriosa sala fechada pela porta enea.
Annos e annos correram.
Ninguem mais se lembrava da alcaçova do genio quando, uma tarde, um menestrel errante, parando, para repousar entre as augustas ruinas, ouviu um piar mimoso-baixou os olhos e, entre as urzes fortes que livremente cresciam enfestoando a pedra ennegrecida, descobriu um objecto de extravagante feitio-tomou-o curiosamente e pôz-se a examinal-o e viu que alguma coisa havia dentro d'elle - um passaro, talvez ... não! ...
Ao lado jazia um arco, o arco de Eros ...
O menestrel, sem atinar com a utilidade de taes objectos, ia-os já abandonando quando uma voz suave pôz-se a dizer : «Repousa o instrumento sobre o coração e agita-lhe as cordas com o fino arco que em punhas e ouvirás todas as melodias -desde o canto innocente da ave, porque muitas pousaram na arvore do Paraiso, até o ululo dos ventos que sopraram, vergando, os cabos da náo Argos.
N'elle acharás a poesia suave dos campos e a epopéa grandiosa das tormentas no mar, a voz do Amor e todos os soffrimentos que resumem os cravos que pregaram Christo e o seu opprobrio, emfim ouvirás quanto cabe entre os dois polos do Sorriso e do Soluço que têm as suas passagens nos dois S talhados na caixa rubra, porque foi feita toda ella com finas laminas tiradas da Arvore do Bem e do Mal.
«O que tens, menestrel, é o sacrario de todas as vozes e, dentro do sacrario, jaz a alma que afina a melodia dando-lhe a expressão.
Como o ar que atravessa umjardim florido leva o perfume das flores assim os sons que repassam atravez d'uma alma levam o sentimento » .
Ouviu o menestrel e, tomando o arco docemente, extasiadamente, pôz-se a afflorar as cordas do instrumento.
E foi assim que, na terra, appareceu o violino.
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