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A Bico de Pena

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A Bico de Pena

Capítulo 2 · A Bico de Pena

O amigo urso

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« Lorsqu'on voit deux grands peuples se faire une guerre longue et opiniâtre, c'est souvent une mauvaise politique de penser qu'on peut demeurer spectateur tranquille; car celui des deux peuples qui est le vainqueur entreprend d'abord de nouvelles guerres, et une nation de soldats va combattre contre des peuples qui ne sont que citoyens.>>> MONTESQUIEU.

Mestre urso, senhor de toda a parte da montanha que olhava para o Norte, fez constar aos seus visinhos do sul que resolvera e jurára, á fé inquebrantavel de urso, não permittir que pizassem a montanha, senão como hospedes, quaesquer animaes de outras regiões ainda que lhe fosse preciso, para manter a independencia d'aquellas altitudes, deixar a ultima felpa nas garras do estrangeiro porque entendia que Deus creára aquella eminencia maraviO Monroismo proposito da questão entre o Brasil a lhosa para os animaes que n'ella haviam nascido.

Logo que foi conhecida a resolução do urso poderoso reuniram-se todos os animaes da visinhança e, em festa estrondosa, proclamaram a nobreza e a valentia do senhor do Norte que ousava lançar ao mundo tão atrevido cartel.

Pouco tempo depois um dos animaes, cuja toca (que tinha a fórma perfeita d'um tonel e por tal the chamavam- a cuba-) fora descoberta por um caçador do ultra-mar que a cercára convenientemente para garantir-lhe a posse e manter em obediencia o morador, resolveu revoltar-se contra as continuas vexações e pôz-se a roer o cercado- pondo abaixo o tapigo.

Veio, porém, o caçador e o animal, posto que fraco, não mostrou arreceiar-se do inimigo e esperou-o de frente, com audacia tão grande, que mais parecia loucura.

Luctavam os dois quando o urso, que espiava de longe, lambendo as grandes patas, notou que o cançaço e as muitas feridas, pelas quaes escorria o sangue de ambos, ia-os enfraquecendo; sorriu, então, e levantou-se descendo vagarosamente para os lados da toca onde o caçador e o animal brigavam com desespero.

Ficou á espreita e, num dado momento, levou sorrateiramente para o lugar do combate uma malga de leite e lá a deixou, recolhendo a pata.

Succedeu o que era de esperar- o caçador, que não déra pelo urso e muito menos pela sua traça, no ABICO DE PENNA 17 furor da peleja, deu com o pé na malga e lá se foi oleite.

Y a af L f e r v on a t n a t ; ou o -s c e aç a ad f o é r ra qu a i o z s a u i r n r d o a s p p r r o o v t a e r st -l a h n e do qu c e on n t ã r o a E R S I I G A N A R I F S v v i a r s a d a o m c a a l m g p a o , , es m c a o s nd o id u a r , so co a mo na e d s a ta a v t a t , e e n n d t e r u e e a , s ve h n e d r o - T H E U N I V O F M I C H L I B R o adversario arquejante, vermelho de sangue, com as roupas em frangalhos, entendeu que a occasião era excellente para cahir-lhe em cima e, assim pensando, logo executou.

O caçador, que era brioso, apezar de reconhecer a grande superioridade do antagonista inesperado, não desertou a liça ; travaram-se.

Mas, que podia fazer o desgraçado, já exgottado e consumido por um longo combater, contra aquelle que vinha, fresco e bem nutrido, dos alcantis da montanha ?

Foi subjugado e teve de abandonar o campo onde o urso logo espichou o corpo a pretexto de descançar um bocado.

Os animaes visinhos alvoroçaram-se de alegria vendo que o urso cumpria a promessa que fizera, só o da cuba não via com bons olhos aquelle corpanzil immenso estirado alli, logo á entrada da sua moradia, tirando-lhe o are a luz.

Foi então que resolveu falar, primeiro para agradecer-lhe o soccorro, depois para pedir que lhe deixasse livre o terreno.

Ouviu o urso a reclamação lambendo vagarosamente as patas, ao fim disse : «Meu amigo, se eu aqui não viesse tu ainda estarias a luctar com o caleite e tu não levas em conta o meu prejuizo.

Queres que me vá embóra e se o caçador tornar ?

Não, deixa-me ficar por aqui e dá-me alguma coisa porque estou com fome » .

E, dizendo assim, espichou-se mais deante da cuba como um senhor na varanda da sua casa.

Entraram, porém, os visinhos a murmurar contra aquella occupação: « Afinal, que lucrava o animal ? passar de um senhor a outro ; isso pouco valia e, se o urso não se intromettesse na lucta, talvez que o animal já se houvesse libertado do caçador que o mantinha sob o seu dominio, não porque d'elle tirasse -proventos, que só despezas lhe dava, mas por amor proprio e habito» .

O urso não andava bem e, crescendo as murmurações, resolveu a féra arredar-se da cuba, antes, porém, de partir, chamou o animal e disse-lhe : «Eu parto, volto a minha montanha mas fico de lá com os olhos em ti; não te movas, não vás longe-não quero historias com visinhos nem negocios sem o meu consentimento.

O mundo está cheio de perfidias e tu és ainda inexperiente.

Eu cuido de ti, descança » ; e foi-se.

Lá trepou á montanha e, deitado, tem os olhos no animalejo que vae e vem timidamente como o ratinho que o gato deixa em liberdade mas que lhe sente o peso bruto das patas e os ferrões das presas se vae a entrar no buraco ou se se approxima d'alguma fresta.

Um dia o guanaco, que vivia em litigio com o tapir por causa de uma nesga de terra, estava a pen sar nas suas finanças desbaratadas, quando avistou mestre urso no viso da montanha.

O guanaco, que não é covarde mas que é prudente, desconfiou d'aquella visita e poz-se em guarda; o urso, porém, sorrindo, chamou-o com um aceno da pata pedindo que chegasse á fala porque tinha a dizer-lhe grandes coisas, coisas de alto interesse.

O guanaco foi indo, vagaroso e matreiro, e, como havia um fundo abysmo na montanha, deixou-se ficar á margem, pedindo ao urso que falasse.

E o urso disse : -Amigo guanaco, eu sei que andas muito preoccupado com essa questão de terras que o teimoso do tapir insiste em affirmar que são d'elle.

Não sei se são, sei que tens os olhos n'ellas porque te convém e como eu sympathiso comtigo, que és um excellente guanaco, venho dar-te um conselho.

Tu não pódes entrar em contenda com o tapir que, apezar de andar entresilhado, é ainda animal de alguma força; ha um meio, porém, e magnifico, de arranjarmos isso : Os meus ursinhos são muito expansivos, nem ha no mundo animaes tão expansivos como elles e, como a borracha é tambem expansiva, elles andam com a mania da borracha.

Pois bem, a pretexto de expansão, eu organiso uma companhia que arrendará as ditas terras litigiosas.

Depois de arrendadas e habitadas pelos ursos, tu lavas as patas e eu fico á espera.

É natural que o tapir invoque os seus direitos, silve, dê saltos ; não te importes - eu estou lá em cima para o que der e vier.

Se a coisa för por deante-o que não é provavel porque eu conheço o tapir: aquillo é só parola e guincho -eu descerei dos meus alcandores e procurarei acalmar a questão mostrando que os meus ursos empantaram grossos cabedaes na empreza e que não os pódem perder.

Demos que o tapir se enfune e queira reagir-contra um guanaco um tapir é um tapir, mas que é um tapir quando the surge pela frente um urso ?

Pensa e resolve, mas não digas que falaste commigo.

Eu volto para o cimo da montanha e lá fico ás tuas ordens.

Adeus; respeitos à senhora.

E bambo, lá se foi mestre urso sorrindo, muito contente com a sua idéa.

Mestre guanaco desceu para os seus campos pensando na proposta generosa do visinho quando, detendo-se á margem de uma clara fonte, ouviu uma voz que o chamava : -Guanaco amigo.

Guanaco levantou a cabeça e deu com um grande e alteroso condor pousado no pincaro de um penedo. -Que queres de mim, irmão condor? -Ouvi toda a conversa que tiveste com o visinho da outra banda e venho dar-te um conselho : Não te fies no urso.

O que elle te propôz, a titulo de beneficio, é uma traição e não queiras servir de porta á ganancia insaciavel d'esse animal que, por muito jurar, já não nos merece confiança.

O que elle quer é metter uma cunha nos dominios que nos pertencem para depois, facilmente, separal-os e absorvel-os.

Juntos poderemos resistir á sua ambição desmedida ; ai! de nós, porém, se elle conseguir collocar nas terras que nos pertencem um só ursono dia seguinte os campos que percorres, os alcantis, em que tenho o meu ninho, serão fójos de féras e nós não teremos terras nem aguas, tudo será do urso que lá tem captivo, preso por uma corrente å sua penha, o animal que elle pretendeu libertar das mãos do caçador.

Se o tapir não tem razão vamos chamal-o á razão mas com calma e estou certo de que elle virá ; não queiras porém que, mais tarde, quando a montanha despejar sobre os nossos valles e campos a avalanche ambiciosa, os nossos irmãos bradem contra o traidor que franqueou as terras livres ao invasor insaciavel.

Diz o urso que a montanha é dos montanhezes, mas, acautela-te, guanaco : palavras de urso não aproveitam a guanacos.

Lembra-te da fabula do leão ...

Hoje será a companhia estabelecida nas terras litigiosas, amanhan serão os teus terrenos, depois os meus, depois os dos nossos irmãos e elle ficará senhor da montanha e nós seremos escravos vis dentro da patria que pretendes trahir.

Eu falo como condor : vejo longe.

Lá da altura passeio os olhares pela terra e sei o que n'ella se faz.

Se queres o captiveiro deixa entrar o urso.

Ouviu o guanaco e ficou a pensar mirando-se na corrente e mirava-se quando do alto o urso, que espreitava, rugio : -Então, guanaco amigo ? vae ou não vae ?

E o condor, que levantava o vôo, bradou do espaço : - Olha o trust do territorio...

Olha o trust da montanha, amigo guanaco.

Não abras a fenda á cunha da perfidia.

Cuidado!

Foi-se e o urso, lambendo as patas, ficou a olhar o guanaco, que pensava : -Então, amigo guanaco? -Espera um instante, amigo urso.

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Sinopse

Leia gratuitamente A Bico de Pena, de Coelho Neto, obra brasileira em domínio público com fantasias, contos e perfis organizada para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi saneada a partir de fonte pública preservada no Wikimedia Commons/HathiTrust e conferida com o registro do Domínio Público/MEC, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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