Universo da obra
Universo da obra
¹ Dans les villes et dans les écoles l'esprit subtil et vain peut rire de l'âme de l'arbre».
Onn'en ritpas dans le désert, dans les climats cruels du nord ou du midi, où l'arbre est un sauveur.
On y sent bien le frère de l'homme.
MICHELET.
UEM, como eu, teve um dia a fortuna de dormir agasalhado por uma floresta, mais antiga que a cruz nesta formosa e moça região da America, sentiu, por certo, a mesma impressão poderosa que avassalou o meu espirito quando, ao morrer da luz forte, ao nascer da luz branda, desde a beira do rio até o intimo da selva, correu um sussurro manso como o suspiro amoroso da vegetação.
Os nossos canoeiros, acocorados em torno d'um fogo de versas, as mãos estendidas acima da chamma que as avermelhava como se as trespassasse, falavam 1 A proposito da primeira Festa das arvores realisada em Araras (S.
Paulo) no dia 7 de Junho de 1902. baixinho.
A agua lenta e cheia do rio deslisava com um leve murmurio e, por vezes, longe, um pio d'ave nocturna feria o silencio.
As nossas redes oscillavam de galho a galho fazendo farfalhar a folhagem.
Esfriava.
Docemente, no ceu limpido, ia a lua subindo.
Já a densa fronde alta estava toda forrada d'alvo e, insinuando-se pelos escassilhos, atravessando as abertas, a claridade mystica escorria pelos troncos, alastrava a alfombra, brilhava nagua ou estendia-se no recesso do arvoredo ribeirinho figurando maravilhosas estructuras : Aqui era um adyto de capella, com o altar atoalhado, os nichos brancos, como de marmore; alli eram ruinas dos castellos - as franças semelhavam muralhas aluidas, parapeitos ameados, torres que subiam talhadas em setteiras; e clarões, salteando o negror, creavam perspectivas funebres e fundas recuando aquellas fantasmagorias selvagens.
Além era uma alvura que se destacava, perpendicular e esguia, fincada na tréva como um cippo solitario.
Mais longe, disseminadamente, esplendores colgando o negrume e a agua lisa e dormente do rio espelhava todos aquelles aspectos estranhos recordando-me as descripções romanticas doRheno onde os poetas vão abeberar a musa elegiaca, ao longo das margens tradicionaes em que perduram, como arcabouços do passado, muros negros de castellos e elfos e ondinas, à noite, esvoaçando ou bailando, redizem lendas do velho tempo ou entoam balladas melancolicas que fazem tremer o barqueiro retardatario ou assombram e enlouquecem o afoito caçador furtivo.
Meus companheiros dormiam ; eu velava extasiado, olhando o ceu por entre os ramos e parecia-me que as estrellas eram flôres que desabrochavam na coma altissima d'aquellas arvores.
Por vezes, como se alguma se desfolhasse deixando cahir uma pétala esplendida, uma scentelha descia trémula, bruxoleando e perdia-se ...
Vagalume errante, vagalume errante, ardentia alada dos oceanos de verdura.
Então senti, senti bem a vida grande e mysteriosa das arvores.
A espaços era um crepitar, depois um estalido secco, e logo um halito - era a brisa que passava ...
Seria a brisa ou o suspiro da selva presaga ?
Pobres arvores acolhedoras, prisioneiras da terra, eu bem senti que vivieis e vós, porque nos vieis alli, quizestes guardar reserva como o caçador surprehendido pela féra que, de bruços, contém a respiração emquanto sente o inimigo a farejal-o.
A vossa alma, que os gregos personificaram na hamadryada, não ousou deixar o recesso dos cernes, lá se ficou encolhida porque o homem cruel estava alli perto.
Debalde o luar magnifico brilhava, debalde as auras passavam, não procurastes corresponder ao appello do mysterio e a noite correu serena e casta, só os arbustos amaram, elles, os pequeninos, eu bem os senti que se abraçavam na sombra, junto ás raizes dos jequitibás portentosos ; mas, pela madruga da, um perfume forte, acre, estonteante, veio até mim, perturbador como uma seducção- vinha de longe, era a respiração offegante das arvores que se amavam na brenha virgem, era o arôma nupcial da floresta, a exhalação erótica dos vegetaes.
Era o amor poderoso e eterno da natureza, o amor fecundo, o amor creador que passava em effluvio pelo bosque, multiplicando a belleza, a graça, a força e o beneficio.
E porque se acautelavam tão pudicamente as arvores mais proximas? porque sentiam o homem, o homem cruel, o encarniçado inimigo da sua generosa especie.
O' se têm alma as arvores !
Alma é amor e que maiores provas de amor queremos que nos dê a arvore ?
Ella é a purificadora do ar que respiramos, ella é que nos garante a fonte que jorra para a nossa sêde e para a rega dos campos, ella é a fiandeira de sóes-cahem-lhe na cópa os raios caniculares e ella, desfiando a flamma, dá apenas o calor ao que se achega á sua sombra.
Ella é a medicina, ella é a belleza cercando a moradia em que vivemos, ella é a nossa confidente discreta porque é sob os seus ramos que abrimos francamente o coração deixando livres as saudades e as reminiscencias.
Assim é a arvore viva.
Morta ella é tudo-o principio e o fim: berço e esquife, e, entre esses dois polos, tudo mais é floresta : a casa e o templo, o leito nupcial e o altar, o carro que trilha os campos, o navio que sulca os ma res, o cabo da enxada e a haste da lança, tudo é madeira, tudo é arvore, é a floresta.
Matae a arvore e tereis o vageiro.
A terra tem os seus nazires : Sansão tosquiado é impotente para a vingança, as regiões devastadas tornam-se desertos.
E que vemos nós por todo este vasto Brasil que era uma floresta frondosa ? a destruição inclemente.
E porque vae tão encarniçadamente o homem á arvore, que foi a primeira geradora do lume nos tempos remotos do pastor aryano? porque a arvore é um ser bruto, insensivel e mudo.
Ah ! que se attentasses bem, lenhador, á morte d'arvore, tal não dirias, homem de coração.
Ao primeiro golpe do machado todo o collosso treme e os passarinhos, como a gente de uma cidade abalada por um terremoto, logo desertam os ninhos.
Vae o segundo golpe ao mesmo lanho, afunda-o- eis a seiva a correr, é o sangue que se esvai ; outro golpe e começa a arvore a gemer surdamente, doridamente -- a sua folhagem agita-se como a acenar á clemencia, os seus ramos debatemse mas o lenhador, a mais e mais empenhado na crueldade, redobra os golpes e canta.
Em torno da que agonisa as outras parecem tremer como ovelhas num pateo de matadouro e, como se de uma a outra corra a noticia cruel, toda a floresta vibra prevendo a mesma sorte.
Por fim, a um golpe mais rijo, um estalo responde é o stertor da arvore e o lenhador recúa e fica a olhar...
Lá vem pendendo a frondosa cabeça, inclina-se e um fragor levanta-se na matta ; derrubase hirta, roçando de raspão nas companheiras, a arvore ferida e cáhe estrondosamente esmagando os arbustos gerados à sua sombra.
Cahe e agonisa e leva dias agonisando até que se lhe vão seccando as folhas, encolhendo, mirrando ... então sim está mor- : ta a arvore.
E para que a sacrificas, homem de coração ? para o fogo ... e seccas a fonte da qual a victima era como a nympha protectora, e esterilisas o terreno que ella fecundava alimentando-o, como o pelicano, com o seu proprio sangue que ia nas folhas, que ia nas flores, que ia nos fructos.
E, com a morte das arvores, lá se vão os animaes e, em pouco, o que os descobridores viram como a região favorecida da fartura e da belleza não será mais que um campo arrazado, secco e triste, cavado em valletas que fôram leitos de rios, brocado em grotas que fôram nascentes e desamparado ao sol esterilisador ...
Felizmente começa a reinvidicação e coube á creança iniciar a santa empreza.
Para responder ao machado ahi está a enxada nas mãos debeis dos infantes -mas a semente é como a esmola e a Terra é como Deus : dae-lhe um grão e ella vos responderá com a centena, plantae um renovo e ella vos gratificará com o milhão e ainda com premios maiores que são o ar puro, a agua, a sombra, a medicina e com a sua belleza- assim a arvore demonstra a sua gratidão...
Não tem alma e é grata ! não tem alma e vinga-se ...
Eu, que tive a fortuna de dormir agazalhado por uma floresta, posso dizer-vos, creanças heroinas do renascimento, semeadoras bemdictas da segunda geração floral : fazei o bem ás arvores que ellas saberão corresponder à vossa caridade e lembrae-vos de que a festa que celebraes é o inicio de uma Redempção : renovar a flora é robustecer a Patria da qual as florestas são os reservatorios de vida e de fortuna.
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