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A Bico de Pena

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A Bico de Pena

Capítulo 33 · A Bico de Pena

Palavras de um stegomya

33 de 45 ≈ 10 min de leitura

Andava eu, à tarde, a espairecer no meu pequenino jardim, onde as angelicas apendoadas promettem, para dias proximos, umas varas floridas de fazerem inveja ao proprio S.

José, quando um mosquito (stegomyia fasciata) imaginando-se talvez um rouxinol, entrou a perseguir-me esvoaçando em torno da minha cabeça com um zumbido enfadonho, só comparavel aos exercicios de violino do meu melodioso amigo Eleutherio.

Esbordoei-me a valer, não para castigar o corpo peccador com as macerações que valem por maçagens espirituaes, porque robustecem a alma em graça e favor divino, mas para ver se apanhava o terrivel e desafinado stegomyia.

O animalejo, porém, que era astuto e agil, fugia á bordoada rindo-se da furia com que eu ia enrubecendo a cara e, principalmente, as orelhas.

Desanimado, retrocedia deixando o jardim, áquella hora delicioso, quando me pareceu ouvir, não mais o enfadonho zumbido, mas palavras, palavras claras como as que sáhem da bocca dos homens.

Voltei-me espantado á procura do meu interlocutor mysterioso e só vi o Jacintho que regava um canteiro de violetas, calado como o proprio silencio. - « O senhor póde ouvir-me em particular ? » interrogou a voz mysteriosa.

E' estranho ! exclamei, sentindo um arripio em todo o corpo e os cabellos crescerem-me na cabeça.

Quem me falaria ? que invisivel ser aereo andaria a divertir-se commigo á hora santa em que os sinos espalhavam, na serenidade da tarde, os dobres religiosos das Trindades ?

Demonio? não, demonios não ousam affrontar a voz dos sinos e poucos são os que se atrevem a fazer diabruras á luz do sol ... (Faço excepção de ti, demonio de olhos claros e cabellos luminosos, tu não te preoccupas com os sinos nem com o sol, mesmo a primeira vez que te vi foi em uma egreja, na missa das onze e a manhan era das mais radiantes: falo dos demonios do inferno e tu ... tu és um demoninho ... do céo).

Mas, deixemos idylios satanicos, vamos ao caso mysterioso.

Quem me falaria ?

Procurava eu o mysterio quando, de novo, ouvi a estranha voz : «O senhor póde ouvir-me em particular ?

Quem The fala sou eu, Stegomyia fasciata, vulgo pernilongo, um seu creado» .

Era o mosquito.

Não se espantem os leitores-já no tempo de Esopo e depois nos dias de Babrius os animaes falaram e com o bom Lafontaine isso, então, nem se fala! ... até em francez se exprimiam, como dizia , maravilhado, e admiravel Salema.

Assim, pois, não ha motivo para estranheza no que lhes vou contar.

Requestado, com tanta gentileza, pelo Stegomyia, não quiz ficar por baixo de um reles mosquito e respondi, tambem fidalgamente : -Pois não, meu amigo, estou ás suas ordens.

Quer conversar aqui mesmo ou prefere o meu gabinete, mais agasalhado e discreto ? .... -Aqui mesmo, senhor.

Peço-lhe apenas que nos approximemos d'aquelle sabugueiro em flor para que eu descançe em uma folha e possa falar com a calma necessaria porque o que tenho a dizer é grave e reclama attenção. -Pois vamos lá para o sabugueiro.

E fomos.

Stegomyia partiu á frente, zumbindo mas, quando cheguei ao arbusto, foi um trabalho para descobrir o illustre animalejo e, se elle mesmo me não houvesse chamado, d'entre miudas florinhas, eu teria desistido da interessante entrevista que vou tentar descrever, omittindo pequeninos episodios como, por exemplo, as ciladas que contra o meu interlocutor armou uma aranha esperta que o descobriu de longe e desceu, ligeira, por um fio, não logrando, porém, o seu perverso intento porque Stegomyia, que vê longe, safou-se chamando-me para junto de uma sempre-viva vermelha.

«Meu amigo, já que sabe o meu nome, quero que tambem saiba onde nasci e o que faço n'este ingrato mundo onde só pódem viver em paz os grandes- as moscas, por exemplo, que são mais impuras que nós, porque nascem nas estrumeiras, não soffrem as perseguições de que somos victimas.

«Eu nasci numa gotta de agua, eu e mil e tantos irmãos que andam soltos por esses ares.

Não conheci meus paes.

Logo que senti forças para voar deixei a gotta de agua, subi ao macio espaço e comprehendi immediatamente que o homem era o meu peior inimigo porque, tendo fome e procurando o nariz vermelho d'um sujeito, não sei como escapei ao murro com que o perverso poz as proprias ventas em sangue.

Voei e tive de esperar pacientemente que todos dormissem para, então, regalar-me à vontade.

O grande crime: chupar um pingo insignificante de sangue, muitas vezes bem ordinario : mais agua que sangue, como o leite das vaccas, outras vezes tão carregado de microbios que é um nojo bebel-o, só mesmo por necessidade.

Mais do que nós sugam as pulgas e quem é que as persegue com medidas hygienicas, os taes preventivos que nos põem tontos, principalmente uns pós que fazem uma fumaça dos diabos á qual não ha mosquito que resista ?

«Os nossos filhos-e dizem que os homens são humanos ! - não chegam, muitas vezes, a vêr a luz do sol-matam-nos ab-ovo : despejando as tinas, estancando as pôças, não deixando agua, nem mesmo nos jarros, só para que não tenhamos logar para a creação da prole.

E' justo, Deus disse : - Crescei e multiplicae-vos e os homens, contrariando a ordem expressa do Senhor, querem que diminuamos, mais do que isso : que desappareçamos e empregam todos os meios para que a iniquidade se realise.

E porque ? porque uns sabios affirmaram que os transmissores da febre amarella somos nós.

« Ora, francamente, ou esses sabios não enxergam uma pollegada adiante do nariz ou querem imitar aquelle lobo da fabula, porque a verdade é que nós entramos nessa historia de febre amarella como Pilatos no Crédo.

Dizem elles : «O mosquito é o transmissor certo e talvez o unico da febre amarella, do impaludismo (febres intermitentes), etc.

« O mosquito transmissor da febre amarella, muito commum nas nossas habitações, é o stegomyiafasciata, conhecido geralmente pelo nome de-mosquito ou pernilongo rajado» .

«Eis a accusação ; agora vou eu, em meu nome e em nome de todos os meus irmãos, produzir a defeza que o senhor me fará o obsequio de tornar publica: «O mosquito é o transmissor-o que transmitte é aquelle que faz passar além ou de um corpo para outro, no caso vertente, alguma coisa, que aqui é o germen da tremenda pyrexia.

Entre mosquitos—e o senhor póde consultar a estatistica da nossa mortalidade - nenhum foi jamais victimado por essa molestia, propria do homem.

O que acontece é o seguinte nós (e, como nós muitos d'esses que se dizem philantropicos) vivemos á custa do sangue humano, assim quiz o Senhor que fosse e assim ha de sempre ser : o homem é, pois, o nosso hotel.

Ora, se o senhor entrar, um dia, no seu hotel e comer um bife com cogumellos (eu detesto os gallicismos porque sou jacobino) que lhe ponha no estomago uma carga soffrivel de toxicos, culpa o bife ? não, atira a responsabilidade para os cogumellos que o envenenaram, não é verdade ?

Pois, comnosco é o que se dá: nós somos o bife, os cogumellos são o sangue humano.

Se alguem tem direito a queixar-se não é o homem, é o mosquito que bebe cada sangue que é mesmo uma immundicie.

«Eu já bebi um sangue que era só cerveja, bebi, digo mal, provei e enjoando, porque detesto bebidas, fui procurar outro sangue mais sóbrio e encontrei-o em um rapaz.

Mal comecei a sugar-lhe a nuca, que era alva como a de uma mulher, senti que a cabeça do rapaz oscillava - estava na môna por inoculação de ebriez, dirá o senhor- engano : estava com uma congestão e morreu, horas depois.

Fui eu o transmissor da molestia ? não; eu podia, quando muito, ter transmittido uma bebedeira, não acha ? mas congestão, nunca ! <<Porque não cuidam os homens de purificar o sangue ? ha tantos purificadores - o mercurio, o iodureto, o arsenico e ainda outros, não : enchem-se de molestias e depois querem que os mosquitos, que comem sardinha, arrotem garôpa, como vulgarmente se diz.

Não- o mosquito não transmittiria a febre amarella se não a ancontrasse no sangue.

«E não fica nisso, ha de vêr-dir-se-ha ámanhan que o mosquito é o transmissor de todas as molestias physicas, mesmo de algumas moraes, vehiculo nefando dos germens nefastos á vida e á moral.

Assim, se certa dama incorrer em grave falta, ninguem attribuirá o peccado á sua cabecinha leviana nem ao seu temperamento abrazado, mas aos mosquitos e como hoje, de accordo com a doutrina de Lombroso e tutti quanti, não ha mais criminosos senão degenerados de varias categorias, não haverá, egualmente, impudor mas dentadas de mosquitos.

E será frequente ouvir-se : «Coitada de fulana, uma senhora tão séria, para o que havia de dar.

Aquillo foi algum mosquito que a mordeu levando virus de amor» .

E quando se der algum desfalque tambem se poderá dizer: «Veja você, o Cabedello, um exemplo de honestidade.

Quem diria !

Eu, custa-me a acreditar.

Para mim alli andou pernilongo» .

E o mosquito passará a ser o bóde expiatorio ou o burro de carga de toda a pouca vergonha !

« Se tivessemos um laboratorio de analyses os amarellentos podiam ficar descançados porque não lhes iriamos á pelle, mas o mosquito, como o poeta, prend son bien où il le trouve e ainda berram.

«Berrem contra os que apanham febre amarella, berrem contra a sujeira, contra o desasseio, contra os comedores que nada fazem e não estejam a descarregar a culpa sobre o mosquito.

«Ha mosquitos em Paris, em Londres, em Bruxellas, em todas as cidades, em todo o mundo e porque não se manifesta universalmente a febre amarella ?

Respondam- é que em todo o mundo são mais os actos do que as palavras.

«Saneiem a cidade e hão de vêr que o mosquito, sem perder os seus habitos de sangue-suga, será tão inoffensivo ao homem como as andorinhas que chilreiam á beira do seu telhado.

«Uma creança, mamando no peito de uma ama inficcionada, não só ganha o mal como, passando ao peito d'outra ama, logo o transmite.

A culpada é a creança innocente? não, culpada é a ama... eis o caso do mosquito.

«Agora, meu senhor, por quem é, defenda-nos, escreva sobre nós, não é vergonha para a sua penna descer a um bichinho tão infimo - o grande Virgilio escreveu o Culex.

«E adeus!

Prometto em meu nome e, em nome de todos os stegomyias que, se escrever sobre nós, poderá, d'ora avante, dormir sem mosquiteiro, palavra de pernilongo» .

E eu, para não ser mordido, prometti ao stegomyia reproduzir as suas palavras e cumpro a minha promessa.

A Bico de Pena

Sinopse

Leia gratuitamente A Bico de Pena, de Coelho Neto, obra brasileira em domínio público com fantasias, contos e perfis organizada para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi saneada a partir de fonte pública preservada no Wikimedia Commons/HathiTrust e conferida com o registro do Domínio Público/MEC, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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