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A Bico de Pena

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A Bico de Pena

Capítulo 41 · A Bico de Pena

O peixe

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Logo que se espalhou a noticia da prisão de Jesus- nesse tempo não havia jornaes de grande (nem de pequena) tiragem, mas havia mulheres-os discipulos que eram apontados, em Jerusalem, como cumplices do nazareno, trataram de acautelar a vida, não porque receiassem perdel- a que era a vida amargurada que levavam comparada á outra, de tranquillidade e gloria, que lhes promettera o Mestre excellente ? -- mas porque tinham uma missão a cumprir que era a de levarem aos mais remótos e rudes confins da terra a dôce palavra tomada nos labios do proprio Deus.

A policia do sanhedrin, açulada por Malchus, 1 De uma synopse talmudica... que perdera uma orelha, varejava os khans das estradas, invadia os bazares que referviam nas verdes e floridas vertentes do monte das Oliveiras, trazia vigiada a casinha de Simão, na Bethania, onde ainda durava o suave cheiro do oleo com que Maria unctára os pés do moço amado e mantinha aceclas nas immediações das granjas de Gethsemani d'onde o vento trazia um cheiro aborrecido e morno de azeite novo.

Os mesmos galilêos, d'antes tão dedicados ao filho do carpinteiro, bandearam-se covardemente e, como conheciam os logares proferidos de Jesus, prestavam-se a guiar os esbirros, já subindo com elles aos velhos cedros da collina sob cuja fronde, á tarde, quando os immensos galhos se cobriam de pombas, os que deixavam os pilões e os tanques, lustrosos de oleo, iam repousar um momento olhando, ao longe, as aldeias caladas que as nevoas azues iam pouco a pouco abrumando, ou desciam ás margens escarpadas e rumorosas da pedrenta torrente do Cedron onde moças cantavam entre linhos alvos, corados nas hervas cheirosas.

Jerusalém, a cidade maldita, era um perigoso sitio para quantos haviam acompanhado o mancebo divino que, trilhando as estradas de areia ou os caminhos pedregosos dos montes, espalhara, por toda aquella região amoravel, a doutrina do amor e milagres.

Cephas, muito compromettido, offereceu-se para agasalhar os companheiros em Capharnaum, na sua miseravel cabana de adobe, á margem do lago de Genezareth.

Não havia riqueza mas o Senhor, mais de uma noite, cobrindo o rosto com o seu alvo manto, dormira tranquillamente sobre um estrame, perto das redes que tresandavam á maresia e, de manhan, quando os primeiros barcos, deslisando na areia, molhavam as negras prôas na agua transparente, abrindo os olhos, abençóára aquelles muros ennegrecidos de fumo e aquelle tecto onde as cegonhas costumavam parar olhando os espaços azues que o sol ia dourando.

Entre os galiléos, das cinco cidades estariam a a salvo da perseguição e, cumprida a dolente prophecia, sahiriam todos, cada qual a seu rumo, a espalhar a semente bemdita que o divino apostolo lhes deixára na alma.

A proposta do pescador foi acceita e, como a noite era negra e alta, logo foi resolvido que deviam aproveitar o somno da cidade para a fuga; e fugiram.

Não diz a tradicção como fizeram a viagem, ora atravessando campinas rasas, de grande esterilidade, sem agua e sem sombra, ora galgando alcandores de rochas núas que, ao sol, ardiam e queimavam como brazas ou passando em desfiladeiros altos, de pedra negra, fervilhantes de viboras que silvavam ameaçadoras, á beira das luras.-Chegaram a Capharnaum ao cahir da tarde quando os barcos recolhiam lentos com o peixe vivo saltando, no fundo da quilha, num resto de agua que rolava.

Os pescadores, tanto que Cephas lhes dirigiu a palavra, logo o acclamaram com alvoroço e, esquecendo a pesca e a ceia que os esperava, quente e cheirosa, nos lares, ás ultimas luzes da tarde dourada, sentados em circulo na areia, pediram ao companheiro noticias do lindo moço que tantos milagres fizera naquellas paragens de simplicidade.

E Cephas suspirando, com os olhos voltados para os lados de Jerusalem, annunciou aos pescadores a prisão do Messias.

Foi uma consternação entre a bôa gente.

Alguns, mais exaltados, falaram em partir para a cidade vil, com armas.

Forçariam as portas, assassinariam os guardas e iriam arrancar Jesus ás mãos dos seus algozes.

Cephas, porém, que tinha experiencia da vida, agitou a cabeça lustrosa, dizendo : - Amigos meus, as coisas parecem muito faceis quando as olhamos de longe-eu tambem tive impetos de levar tudo a gume de espada, cheguei mesmo a decepar a orelha de um soldado recalcitrante e teria debandado a guarda se o Mestre me não houvesse detido dizendo-me, com a sua voz dôce e persuasiva : «Que não me oppuzesse á realisação da prophecia» .

Embainhei a espada contendo a furia e deixei-me ficar para um canto remoendo o meu odio.

Depois chegaram legionarios cobertos de ferro, com lanças e, querem vocês saber, meus amigos ? foi preciso que um gallo cantasse tres vezes entre as oliveiras de uma herdade para que eu recuperasse o animo que me havia abandonado.

Ninguem imagina o effeito que produz no espirito de um homem a presença da policia-é preciso ter sentido o que eu senti, eu que, vocês sabem, não sou medroso affronto com calma as mais desabaladas tempestades e, mais de uma vez, atravessei sosinho o bosque de Tiberiade onde ha féras que atacam... mas a policia... não sei.

Nós somos os depositarios da palavra divina, continuou Cephas-se perecessemos, quem espalharia entre os homens o germen da Nova Doutrina?

Eu sei que vão crucifical-o e, se não fosse a missão de que fui por elle incumbido, teria reclamado uma cruz, menor que a d'Elle, porque sou um discipulo, mas com os mesmos cravos, no Calvario ...

Não devo, é preciso que me sacrifique pela sua Ordem-sou apostolo, tenho de viver.

E todos, em torno, lamentaram commovidamente a sorte d'aquelle discipulo fiel que, por amor da doutrina e da salvação dos homens, deixára de morrer no monte, ao lado de Christo e, sem parar, ferindo os pés nas pedras e nos espinhaes dos asperos caminhos, deixára Jerusalem a largas pernadas para refugiar-se em Capharnaum.

Ora, em Capharnaum os rebanhos eram raros e, quando se abatia uma rez, era um acontecimento de que se falava longamente desde Magdala até Chorazin.

O lago nutria as populações que lhe ficavam á beira-peixe e fructas, mais não havia.

Sabia d'isso Cephas e, caminhando vagarosamente, á brisa fresca da tarde, para a sua cabana toda aberta em frinchas, com herva brava pelos muros, foi preparando o espirito dos companheiros : - Olhem, amigos meus, aqui não ha os recursos faceis de Jerusalem, isto é uma pobre aldeia de pescadores-ha o bom peixe das aguas e a boa fructa dos pomares e alguma caça gorda, no tempo dos patos, e é tudo: tenham vocês paciencia, é pelo amor de Deus.

E, empurrando a porta da cabana, notou que ella resistia como se a houvessem pregado; forçou-a mais rijamente, e lá a levou dentro com fragor.

Um ar humido, tresandando a bolor, fez com que o apostolo recuasse e, como um pescador apparecesse com um feixe de palhas embebidas em resina levantando uma chamma rubra e crepitante, um bando de morcegos desprendeu-se das vigas e voou, perdendo-se nos ares melancolicos, toldados de brumas, que era o triste momento do cahir da noite.

Cephas entrou seguido dos companheiros e como não houvesse pescado nem lume um velho offereceu-se generosamente para fornecer-lhes a ceia e logo pela filha, uma linda moça morena e forte como um cedro novo do Libano, lhes mandou duas fundas malgas onde, em môlho corado e perfumado a coentro, appareciam as postas de um peixe alvo e gordo, que cheirava appetitosamente.

Sentaram-se os discipulos e, devorando, recordavam as passagens felizes do bom tempo-as tardes á sombra do cedro do Olivete ou no beiral das fontes onde se reuniam as raparigas, á hora em que os trituradores esmagam as azeitonas nas grandes fabricas de azeite de Gethsemani, os passeios á Bethphagé, as subidas á Bethania.

Alguns, ainda agarrados ao mundo, pensavam, com saudade, nas bellezas da cidade vil-nos seus palacios, nos seus banhos, nos seus mercados e no formigar constante de homens que de manhan, á hora dos primeiros sons das buzinas romanas, entravam cantando, com os jumentos carregados de fructas, moças com amphoras de leite, gemores de farinha e gigos de ovos, outras com aviarios de junco, as cabeças graciosamente ornadas de lyrios, um ramo de rosas como a mostrar a divisão dos seios.

Lá fóra, a lua silenciosa illuminava de alvo o lago adormecido e foi o mesmo Cephas o primeiro a falar no Mestre : A esta hora que fará Elle? suspirou.

Talvez pense em nós. -E nós aqui comendo este saborosó pescado que é o melhor de toda a Palestina ... -Eu comeria de bom grado um pouco de carneiro.

E eu um bolo de farinha e mel ou um punhado de tamaras. -Contentemo-nos com o peixe que outra coisa não ha nestes logares que o Senhor visitou e amou e lembremo-nos de que se fazemos este sacrificio, que ha de ser contado no ceu, o Mestre amado soffre a injuria, sangra, expira, talvez, entre os soldados boçaes do romano e a cafila cruel dos sabujos do Sanhedrin.

Um largo e profundo suspiro abalou os velhos muros da cabana e as colheres raparam as malgas onde apenas restavam as espinhas chupadas e, como nada mais houvesse, os discipulos desceram á fonte e Cephas, juntando as mãos, com os olhos no ceu, disse cheio de uncção devota : -Seja tudo pelo amor de Deus !

E, emquanto se demoraram em Capharnaum, Cephas e os seus companheiros não comeram mais que peixe do lago ...

E' por isso, para commemorar o sacrificio dos apostolos que, durante a quaresma, o peixe é de preceito ...

Emfim, se não é por isso (bem pode ser que não seja porque essa tradição é muito contestada), deve ser por outro motivo, bem desagradavel aos peixes que nada fizeram e que na semana santa têm a vida por um fio e custam os olhos da cara.

A Bico de Pena

Sinopse

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