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A Bico de Pena

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A Bico de Pena

Capítulo 38 · A Bico de Pena

Resurreição

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Ave Maria ! dobre a finados.

O sol agonisa.

Em torno d'elle, no leito do occidente, prostram-se as nuvens, como odaliscas, recolhendo, com ancia, a herança luminosa dos ultimos esplendores.

Eil-as garridamente rolando na copiosa purpura que escorre, todo o occaso encarde-se e, á mesma terra, chegam restos da luz que esmaece no azul.

As nuvens ficam vaidosas, qual mais dourada ou mais vermelha, escabujando nas ondas sanguineas que, como um rastro, o sol deixa na altura.

Iblis, porém, espreita as descuidadas e, tanto que o guerreiro tomba, logo se precipita no céo com a sua horda rapace roubando a claridade ás nuvens resplandecentes.

Rouba com furia, deixando-as pallidas como cadaveres e estende pelo ceu livido o crépe negro da noite, prega-o seguramente com os cravos das estrellas, espalha sobre elle a cal funeraria da Via Lactea e, aqui, alli, punhados de nebulosas e, a lua, como um fantasma melancolico, vestindo o sudario branco, sahe pelos ares tristes peregrinando solitariamente.

Veste-se a terra de luto e Iblis, sempre parodiando o Senhor, abre o sinisiro aviario soltando nos ares os voadores tragicos.

A estryge chirria, trissa o morcego, a phalena esvoaça e myriades de insectos enxameam a sombra como uma poeira viva : são miniaturas de vampiros, abelhas satanicas que fazem o seu mel com o sangue da flor humana.

Meia noite!

Iblis domina.

O silencio é geral–só as aguas, que brilham o seu viajar eterno, passam chorando pelos cavados leitos pedregosos.

E' a morte.

Eis, porém, que no oriente apparece uma nesga rosada-desprende-se o crépe, rasga-se o funéreo velario.

Canta um gallo no campo, um sino vibra : Matinas ! é a resurreição- a aurora.

Resurge o sol como uma semente que se abreé um renovo primeiro, tenro, mal rompendo a densidão das nuvens, mas radia como uma haste que vae lançando as folhas, cresce, aclara, esplende, brilha, aquece rútilo, flammeja, sóbe no ceu, impõe-se e, como sob uma arvore é a sombra que se espalha, sob o sol é o clarão dourado que irradia.

Vivo, lá vae, emtanto, a caminho da morte-o BICO DE PENNA 323 occaso é o alvo do oriente - a estrada da vida vae em rumo direito á sepultura e a sepultura que é? o canteiro de Deus.

Resurge ! esta é a ordem indefectivel, este éo imperativo divino : a morte é um novo principio.

Para onde vão os rios ? vão ter ao mar, sóbem ao ceu, baixam em chuvas e em orvalho, entranham-se na terra e reapparecem em vigor na planta, em sabor no fructo, em arôma na flor ; seccam na planta, mirram no fructo, exhalam-se na flor e morrem - vão renascer adeante, em outros sêres, na eterna resurreição, porque Deus, no Paraiso, fez uma só sementeira para toda a eternidade.

Não choremos a morte.

Quem chora o somno ? quem lamenta uma creança que dorme ? espera-se que desperte; pois do somno maior espere-se a resurreição.

Esperar o ceu é ter consciencia da eternidade, : mas o ceu é o anniquillamento pela inercia, é a morte pela esterilidade- o fim universal é a producção : Deus é acção.

A piedade pela morte é um sentimento do egoismo humano-porque se lamenta o homem que geme ? simplesmente porque o gemido é a exteriorisação do soffrimento como a lagrima ; e quem nos diz que as coisas não soffrem?

A pedra bruta ferida responde ao golpe flammejando, arma-se de raios como a nuvem, tem cerdas de fogo, que arroja ; a arvore lacrimeja quando o machado a fende e entre os animaes, que tão pouco nos merecem, ha as mesmas manifestações que caracterisam a dôr- a ave chora o ninho destruido, o pachyderme atrôa a floresta com o rugido lamentoso quando encontra ferida a companheira- a dôr é universal.

O que torna os simples e as coisas brutas superiores ao homem é a resignação e essa resignação é, talvez, uma prova a favor da utopia - o homem orgulha-se da sua intelligencia mas, que sabe o homem da vida? que ella é o principio da morte e espera-a com tristeza -os animaes e as coisas esperam-n'a com indifferença e, talvez, com ancia, porque sabem que ella é um aperfeiçoamento.

A arvore não chora a folha secca que cahe- deixa-a ir desprendida: se ella fica nas suas raizes alli apodrece e a sua essencia, a seiva, volta ao tronco mais forte e renasce na flôr e no fructo, se o vento a leva para longe, em qualquer sitio que caia, acha meio de resnascer voltando ao esplendor solar mais perfeita e mais linda.

A carniça que tresanda sob enxames de moscas é um viveiro embryonario -onde alveja um arcabouço ha a semeadura fecunda- a sanie purifica-se no tumulo e o que foi nojo volta como delicia.

O verme repugnante colora-se e desdobra as azas marchetadas durante o periodo da immobilidade- a larva jaz como morta no casulo antes de ser borboleta.

Entre uma pagina e outra ha uma pequenina solução de continuidade, longa como um bater de palpebras-é a morte.

Em todas as religiões ha um deus que succumbe e renasce e os exegetas vêm nisso uma reproducção do mytho solar-os mesmos gregos, tão indifferentes á morte, choravam entoando o lino lamentoso por occasião dos funeraes de Adonis.

O Christianismo, ampliando as tradições antigas, não podia deixar essa poesia da morte e fez d'ella, não um simples episodio, mas o motivo essencial do seu culto.

Toda a ceremonia do rito tristonho converge para uma apotheose á resurreição : as traições, as angustias, a agonia do horto, a marcha para o Calvario, a crucificação, a morte, são os degraus que levam á gloria suprema.

O ceu escurece quando a cabeça do martyr pende sobre o peito, faz-se noite em Jerusalém.

Redoura-se o ceu ao grito das mulheres annunciando o desapparecimento do corpo.

O mysterio reproduz-se no rito como no mundo ; a vida é uma continuação - cada existencia individual representa o progresso de uma série de vidas-o homem é uma accumulação.

« Onde estão os mortos ? pergunta Schopenhauer, e responde : aqui, entre nós.

Apezar da morte, a despeito da putrefacção, elles e nós estamos unidos>> e Pompeyo Gener accrescenta : «Assim se harmonisam o que nós poderiamos chamar a perpetuidade da materia e a perpetuidade do espirito-uma produzindo fórmas mais a mais perfeitas, a outra fornecendo obras cada vez mais consideraveis.

A herança das capacidades engendra seres cada dia mais aptos a pensarem, mais susceptiveis d'um grande nivel intellectual porque á capacidade e á aptidão que cada um recebeu ella ajunta o que adquiriu pela observação e pelo calculo.

De sorte que, pela herança conservadora e pelo progresso individual, a Humanidade encaminha-se gradualmente para a perfeição» .

Essa certeza da vida progressiva atravez da morte não basta para consolar a mãe que vê o filhinho morto, estendido entre rosas e ciriaes, no caixãosinho enfeitado de franjas e galões dourados.

Maria sabia que Jesus havia de resuscitar, que sahiria da cova, ao terceiro dia, entre anjos, na gloria esplendida da luz divina ; entretanto, desfizeram-se-lhe os olhos em agua e, emquanto durou o martyrio, não se despegou dos pés da cruz, na attitude sublime e muda do Stabat.

Viesse um cherubim á terra e dissesse à mãe infeliz que velava o cadaver do filhinho : «Secca o teu pranto, elle é anjo no ceu ... » ella, por certo, cahiria de joelhos e, de mãos postas, pediria o filho preferindo vêl-o junto ao collo, a sugal-o, a sabel-o no ceu, com uma harpa de ouro nas pequeninas mãos, entoando hymnos ao Senhor.

O que faz a morte triste é o egoismo humano.

O mundo é um grande tumulo tendo á cabeceira a cruz de Christo e nós vivemos de exhumações somos como essa Amina do conto oriental : a morte restitue-nos a vida, a semente é que nos dá o pão e o linho, subindo transformada da cova em que a deixamos.

A vida é uma resurreição perenne.

A Bico de Pena

Sinopse

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