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A Bico de Pena

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A Bico de Pena

Capítulo 18 · A Bico de Pena

As arvores

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Li algures que, na China, quando nasce um inIfante, os paes plantam uma arvore.

A' medida que a creança vae crescendo, vae a arvore ganhando vigor e belleza ; e quando o petiz, ainda mal seguro nas pernas, sahe, arrastando pela cauda um minusculo papagaio de papel de arroz, pintado a côres, a sua verde irman, lá de longe, lhe acena com todos os seus ramos viçosamente cobertos de folhas e, se é precoce, recamados de flores.

O joven chim tem, para alental-o, os cuidados domesticos - os paes não o perdem de vista e a ama tartara, solicita e carinhosa, segue-o a toda a parte, protegendo-o ao sol, com a sua sombra, equilibrando-o com os seus braços, animando-o com o seu canto monotonó e, á noite, depois de o adormecer com uma historia maravilhosa, deita-se junto ao seu berço de laca, n'uma fina esteira e, ao mais leve resmungo, eil-a de pé, debruçada, a examinar a cócedra macia, a sacudir o mosquiteiro ou a balançar, de leve, o berço delicado.

De manhã, lá o leva ao ar puro, aos jardins, a correr na relva ainda humida e, quando o sol aquece, lá vae ficar á beira dos lagos que parecem dormir um somno doce e eterno e sobre os quaes as aves, que se reflectem ligeiramente, passando e turgindo no ar, são como iterativos sonhos.

A arvoresinha tem apenas o sol e as chuvas que a vão nutrindo e, nos tempos seccos, duas vezes ao dia, ao partir e ao chegar das pombas domesticas, a rega do velho tankia melancolico.

Ninguem a agasalha -dorme exposta ao tempo, ao clarão dos luares, e cresce, enfolha-se, frondeja e floresce.

O joven chim deixa os braços da ama e, seguindo para um kiosque forrado de seda, alto como um taï, agasalhado discreta, silenciosamente n'um bosque de bambús, entrega-se a um velho lettrado que lhe fala dos grandes espiritos do imperio : Laótseu propagando a doutrina de Taó, Confucio dictando aos seus discipulos as sabias leis puras da moral, os lamas contemplativos que descem do Thibet, com uma corrente beneficiadora, fazendo crescer nas almas a esperança e, por desfastio, de quando em quando, lá lhe põe ante os olhos uma peça dramatica composta por alguma das mulheres do régio harem para os comicos da côrte.

Depois são as armas- é um espadachim que lhe transmitte a sua agil sciencia, manejando uma espada ou enristando uma lança; depois o mestre de equitação que aderença um alfario ardego até que, um dia, moço e lindo, gracioso e robusto, para continuar a gloria da sua casa, os paes, depois de muitas consultas, resolvem dar-lhe por esposa uma princeza mandchú, senhora de terras vastas, ricas em arroz e em arvores de laca.

Contratada a alliança, determinado o dia dos esponsaes, é logo chamado um artista perito para construir o leito nupcial.

E a arvore que, lá fóra, toda se enfeita ao sol, a arvore plantada no dia do nascimento do noivo, alta e forte, verde e em flôr, é sacrificada como uma victima.

Recebe no tronco um golpe fundo, outro logo, ainda outro, cava-se uma cinta d'onde escorre, como sangue novo e sadio, a seiva loura, saltam aparas e a madeira ringe, estrepita, estala, oscila e pende- a fronde ainda resiste, mas, a uma leve aragem, derreia-se languidamentè e, ao peso da folhagem, inclina-se com fragor atroante e tomba com sonoro farfalhar de folhas e de galhos.

É depois arrastada, entra na officina, é serrada, acepilhada, torneada e vae, a pouco e pouco, sob os ferros do artista, tomando a feição graciosa de um leito- os embutidos enfeitam-n'a, os vernizes emprestam-lhe um brilho resplandecente, o ouro enriquece- a em filetes de caprichosas voltas e, no res paldar, o dragão emblematico, de rútilas escamas, contorce-se, de olhos fuzilantes, com as garras de ouro esmagando crysanthemos e lyrios sobre um fundo vago, indefinido, onde võam garças.

É n'esse leito que se reunem os membros da nova familia- a arvore torna-se assim como um elo humano - o seu destino é nobre, a sua genitura é poetica e, à proporção que sobe, vão os paes sentindo que é tempo de cuidar das bodas e ella, toucando-se de flores, para estar a chamar a linda noiva, que deve repousar nos seus braços e gerar no seu collo.

Eis ahi um culto poetico que, se não garante a eternidade do vegetal, estabelece, ao menos, a obrigação do replantio.

Assim, na China, emquanto nascerem infantes, nascerão arvores -um pimpolho que engatinha indica que ha uma ramaria a dar sombra e flor, um tronco forte, não longe, destinado a ser o thalamo sagrado-e ganha a natureza com essa tradição poetica, creada, sem duvida, por um philosopho budhista, defensor de animaes e florestas.

Por que não havemos nós de imitar, no amor, essa gente barbara, que vive confinada entre as altas muralhas, além das quaes não chega a civilisação ?

Se um bruto mongol entrasse em uma das nossas mattas e encontrasse o lenhador derrubando veThissimos troncos, não para aproveital-os em uteis construcções, mas para reduzil-os a achas, certamente, e com razão, tomal-o-hia por um barbaro ; pois esses barbaros constituem legiões -do extremo Norte ao extremo Sul do Brasil o machado trabalha desapiedadamente, sem descontinuar, devastando.

Quem percorre o interior paulista vê, ao longo das linhas ferreas, altas trincheiras de lenha- é o tributo florestal.

As locomotivas, como os dragões das lendas medievaes, exigem esse repasto cruela tarasca do Rhódano reclamava virgens, o monstro de ferro reclama o cedro, e a selva despovoa-se em proveito do que chamam- o progresso.

A area esterilizada pelo machado é immensa - o calculo feito por um distincto engenheiro, o dr.

João Pedro Cardoso, assombra e prova, com algarismos irrefutaveis, que se os lavradores não tratarem, em tempo, de sustar a depredação, dentro em breve uma grande área do riquissimo Estado de S.

Paulo não será mais que vageiro esteril.

Com a morte das arvores desapparecem as fontes: rios que rolavam aguas abundantes derivam agora em filetes rasos e tão escassos que uma quente semana de verão é bastante para seccal-os ; a caça rareia.

Estrangeiros, que percorrem o interior, voltam impressionados com a ausencia de passaros - não se ouve um gorgeio, não se vê um ninho -tudo é silencioso, e viaja-se longamente ao sol, sem um oasis, sem uma arvore, mas os tócos adustos, que apontam á flor da terra, attestam a existencia anterior de florestas grandiosas -levou-as o machado, arrasou-as o fogo, e, sobre o terreno nú e sáfaro, cresce a herva maninha que apenas serve de abrigo å serpe.

O ar vicia-se, o mesmo clima modifica- se, e isso é notado pelos velhos moradores d'esses logares, d'antes bem regados e sadios, hoje seccos, ingratos e insalubres, onde o homem não vive nem a sementeira vinga.

Além das estradas de ferro que devoram as florestas, grande numero de fabricas não queima outro combustivel senão a lenha, e já não falo na que se consome nos fogões domesticos .

O lenhador vive folgamente, sem preoccupações -não tem o cuidado do lavrador que se alarma quando, no tempo da florada, o sol abraza ou grandes chuvas assolam; não lhe importa a geada, as larvas são-lhe indifferentes-sempre é tempo para destruir e o mercado é sempre lucrativo- um ferro de bom gume, o carro e quatro juntas de bois bastam ao que vae á floresta, e quem atravessa as estradas ouve monotonamente os golpes do machado, de repente um grito de aviso e logo o fracasso da queda d'arvore talhada.

Parece, entretanto, que já se vae sentindo a necessidade do replantio; os mesmos «fazedores de desertos» , como muito bem lhes chamou o dr.

Euclides da Cunha, começam a comprehender o mal que fizeram, mas não se atrevem a reparal-o, porque é mais difficil construir que destruir-emigram, talvez com remorsos, passam adeante, d'olhos compridos, consultando os horisontes rasos, e onde descobrem verduras frondosas, ahi ficam, afiam os ferros, armam ranchos e entram em exercicio.

Dizem-me que ha leis decretadas em favor das arvores, affirmam-me que o Congresso já se preoccupou com essas miseras autochtones mas, quem ha de fazer respeitar a lei? onde estão os nossos guardas florestaes , a nossa policia das mattas e dos campos ? ninguem os viu até hoje- o homem, que atravessa a trilha com a caçadeira e um cão, é um pobre matuto que vae bater a macéga ou o cerrado, vêr se levanta uma perdiz - as arvores não tem defensores.

As municipalidades evitam, com esperta prudencia, a lucta-o fazendeiro declara que as mattas lhe pertencem, são seus bens, póde mandar destruil- as se assim lhe convier que lhe importa a manutenção dos mananciaes que abeberam a cidade ou villa ? a lenha é tão sua como o café e o milho, a cana e o feijão, o arroz, a batata e a mandioca que elle colhe e manda ao mercado, e o lenhador errante é um voto certo e será um terrivel capataz da opposição se a municipalidade lhe sahir ao encontro prohibindo-lhe a faina cruel.

E, dia a día, vão os bosques desapparecendo a região privilegiada e formosa das arvores será, em breve, mais arida e mais núa do que a Lybia esteril.

Os mais bellos especimens da nossa flora riquissima sómem-se reduzidos a cinzas e os animaes emigram, fogem: uns pela terra, outros pelos ares, buscando novos abrigos, e a terra alhanada, deserta, com uma hirsuta felpa de capins resequidos, estende-se, plana e solitaria, ao sol que a queima, cheia de cepos tostados, que são como fragmentos de columnas, restos de um fastigio morto, escombros de uma gloria extincta, ou cippos funeraes n'um extensissimo e aquecido cemiterio.

O arvoredo é o grande chimico de Deus.

Felizmente o alarma, que repercute em todo Estado, vae despertando a attenção dos que ainda se interessam pela sorte d'esta terra formosa e rica e desgraçada.

A Bico de Pena

Sinopse

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