Universo da obra
Universo da obra
Os criticos de profissão devem estar afiando os ferros para a autopsia do gigante afim de que o mundo, que estremeceu abalado com a quéda do colosso, possa conhecer o segredo da força que impulsionava aquella formidavel figura épica que, durante tanto tempo, fazendo soar uma lyra estranha, maravilhosa pelo prestigio, como as de Orphéo e de Amphião, moveu, a seu talante, as multidões insubmissas e as coisas inconscientes, agitou as almas e as florestas, as paixões e as tormentas fazendo com a natureza o que Prospero, o magico, fazia com a sua ilha e com as forças elementares, passivas e obedientes á voz d'essa poesia alada : Ariel.
Quem estudar a fauna prodigiosa do naturalista de Medan pasmará da sua estupenda faculdade de analyse : o que Buffon e Aubudon fizeram com os animaes elle fez com a natureza com a differença porém de que os primeiros restringiam as suas observaçõs ao criterio scientifico e elle viu e descreveu com a larga visão da Poesia, sem se preoccupar como estreito limite, rompendo, devassando todos os horisontes e todos os mysterios.
A sua obra é uma visão apocalyptica- ao lado de cada homem está uma besta monstruosa : Aqui é a Terra superficial, geradora dos fructos e das flôres, a Terra do pão e das rosas, o campo da seara e o jardim das violetas.
E' a Terra do sabor e do arôma, do alimmento e do gozo : a besta fecunda, estendida ao sol e á neve, a ruminar sementeiras e mortos, devolvendo a cinza em estriga e em corolla, colorindo as camelias com a pallidez das virgens mortas, carminando as papoulas com o sangue absorvido.
E' a besta tranquilla, a esphynge impertubavel que devora o homem e olar- a consumidora e prodiga.
Por sobre ella vão os arados, cantam os lavradores, trillam os pardaes, resplandece o sol, alargam-se as sombras quietas, desce o crepusculo, pallejam os luares e a besta serena vê passar, uma após outra, gerações e gerações de rusticos, de avós a netos pisando-a, rasgando-a, conspurcando-a, até o dia fatal em que a sua bocca se escancara e fecha-se sobre o corpo gelado do camponio morto.
Alli é a Terra profunda, a Terra dos Telchinos, a terra obscura, o antro ; é a besta spelea, o minotauro sinistro, a mina.
Parece dormir e os homens, como os anões das lendas scandinavas, lá vão ao intimo abscondito, penetram, excavam, tiram-lhe as riquezas e o monstro consente até que, num dado momento, como aquelles dragões flammivomos dos barditos medievaes, sopra um halito explosivo e as galerias aluem como se as garras da fera se plantassem nos homens subjugando-os, esmagando-os, triturando-os.
Subito uma agua jorra, é como a baba lubrificante que escorre.
Os que podem fugir correm alucinados ás caçambas e sobem ouvindo os gemidos das victimas e, alcançando o grande ar luminoso, respiram, gratos áquella resurreição, mas lá os espera outra besta - a miseria, que os desnuda e os deixa ao frio, que os consome e esqueletisa, que os prostra, que lhes rouba os filhos, que lhes prostitue as mulheres, que os converte em assassinos.
Outra «besta» -o mar, que o diga Lazare.
Outra, o bosque, o Paradou, especie de Mylitta babylonica, Eden no qual as arvores, as aguas, o ar, a luz, os passaros, os insectos são outrostantos poderes lascivos, ministros da eterna força irrecursiva que junge os corpos tirando d'elles a eternidade da especie como do attrito dos lenhos, na mão do sacerdote aryano, saltava, viva e alegre, a esplendida centelha que mantinha perenne, no altar domestico, o corpo terreal e fulgurante de Agni.
Outra- a locomotiva, especie de boa dos tempos humidos do planeta, quando ainda a crosta da terra era molle e fria como o barro que espera a plasmagem do artista.
Lá vae a correr, arquejando, através da névoa das manhans e da escuridão das noites, com o seu grande olho cyclopico a brilhar, o seu rosto rente aos trilhos, bufando fumo, lançando brazas, a assustar os rebanhos com os seus urros, cortando os campos, atravessando cidades, mettendo-se ariscamente pelas lócas, subindo aos montes, descendo aos valles, beirando rios, lançando-se afoitamente sobre abysmos ora alegre, ora exhausta, vivendo como se tivesse uma alma, morrendo como se tivesse uma vida.
Outra o commercio; outra a guerra; outra a Arte... e toda a obra, emfim, do admiravel artista, é uma scena de pygmeus em torno de um animal monstruoso.
A mesma Nand, como muito bem notou Lemaitre, que é senão a «besta» do vicio ?
«Naná est une belle béte au corps magnifique et malfaisant, stupide, sans grâce et sans cœur, ni méchante ni bonne, irresistible par la seule puissance de son sexe.
C'est la «Venus terrestre» avec de « gros membres faubouriens» .
C'est la femme réduite á sa plus simple et plus grossière expression» .
Zola apresentava-se como um reformador filiado ao processo de Balzac quando, em verdade, elle foi o grande decorador do romantismo: o edificio estava prompto e sustentado pelas cariatides que fizeram a revolução de 1830, elle entrou e, levantando os andaimes, começou a ornar as paredes com os frescos soberbos da sua «Historia natural e social de uma familia no segundo imperio» .
Mesmo se the quizermos notar os processos e essa estranha psychologia das coisas vamós encontral-a esboçada, á maneira larga de Miguel Angelo, por Victor Hugo -nos Trabalhadores do mar, o oceano; em Notre Dame, a cathedral, etc.- são as coisas vivas, as coisas animadas, os monstros que Zola desenvolveu classificando na mesma «familia» todos os achados que foi fazendo na vida- desde o mercado até Lourdes, na série das Cidades.
Os que se preoccupam miudamente com as analyses meticulosas pódem notar os defeitos na grande arte decorativa do possante auctor dos RougonMacquart-eu contemplo-a á distancia, abandonando os detalhes fatigantes e só demorando a vista nos que revelam uma impressão poetica como a estropeada selvagem dos cavallos famintos, na Debacle ou a morte de Albina, entre flores.
Zola era um sincero : descrevia monstruosidades porque a sua visão poderosissima augmentava tudo dando proporções colossaes ás menores coisas.
Esse <<naturalismo » que deu a Moysés é o mesmo que gerou o Inferno- é o naturalismo dos genios.
A verdade é uma mas é sentida diversamente : o luar que, para Musset era um incentivo poético porque é suggestivo, para o portuguez é apenas o pretexto para um passeio, à fresca ; para o bandido é um cumplice ; para o sensual é um amavio ; para o melancolico é um motivo de tristeza; para o alegre é o melhor incitamento á troça.
Zola via a natureza através de um sonho pantheista.
Elle era dos poucos que não acreditavam na voz prophetica que gemeu doridamente nas praias da Thessalia -para elle o grande Pan vivia.
Poéta e poéta dos fortes andou sempre dentro d'uma illusão, seguindo um sonho ao qual resolvera dar o dôce nome de Verdade.
Foi um pessimista, e, por isso, rudes foram os ataques com que a Critica mais d'uma vez, o foi perturbar na sua grande officina, esse castello de Médan de onde, todos os annos, sahia uma obra divina e satanica, como do solar do condede Raimond, numa noite sinistra, fugiu, aos gritos, Melusina, a mulher-serpente.
Nos livros do poéta ha esse dualismo -- a cauda serpentina é enorme mas prestae attenção e descobrireis em todos elles o busto e, dentro, um coração meigo pulsando com enternecimento como batia o da castellan que, tornando á pena, enchia os ares de gemidos e orvalhava a terra de lagrimas pensando nos pequeninos filhos e no amor que deixára.
Em Raimond é a curiosidade a causa do Sortilegio, em Zola é a imaginação, essa curiosidadedo Ideal.
Sei que a Critica aprecia a parcella e na obra de um grande espirito procura não só os largos traços como as pequeninas e mesquinhas insignificancias e, como os corvos, passa indifferente pelas bellezas baixando immediatamente, com alegres crocitos, mal sente o fartum da carniça; falo da pequena critica, a das varejeiras, que estão para os corvos como os chacaes estão para os leões.
Não vejo em Zola o homem da preferencia salaz, mas se elle só foi repellido porque nos apresentou Naná, porque havemos de adorar Longus, com a sua Lycenion, Ovidio com os seus Amores, Vatsyayana com os seus conselhos, Apuleio com a sua Metamorphose, Theocrito com a sua Feiticeira ? volupia é mais excitante do que a lascivia: ha seducção maior nos encantos que se adivinham do que na nudez que se ostenta descomposta e impudica.
Ha exaggero mas sejamos leaes : o exaggero é a qualidade propria do escriptor, é a sua maneira como elle exaggera o mal exaggera o bem, como exaggera o homem exaggera anatureza.
Para Montsou aquella gente, para Sedan aquelles soldados e aquelles animaes fantasticos, para Coupeau aquella monstruosidade do Assomoir, para aquella vermina aquelle planturoso mercado do Ventre de Paris com os seus taboleiros, com as suas barracas onde parece accumular- se toda a producção das hortas fartas dos arredores da cidade.
A mesma virtude é exaggerada como no padre Mouret, o mystico.
O estylo de Zola é formidavel-elle não tinha a preoccupação das miudezas posto que, por vezes, se 256 ABICO DE PENNA divertisse em detalhar; a sua intenção era o assumpto e, deante da téla immensa, lançava o desenho com a pressa fogosa de um delirante e, enchendo-o com as tintas, procurava, à força de côr, a verdade imaginada e, quando contemplava os seus horisontes como que ainda os achava apertados e la ia com elles para mais longe, impellindo-os como se afastasse um biombo que atravancava um aposento.
O que torna, talvez, monotona a grande obra é o forte tom marcial que d'ella sobe- é o mesmo hymno que regula a vida d'aquella gente-no campo e na cidade, nas minas e nas egrejas, nas gréves e no amor, na guerra e na balburdia dos mercados, nos boulevards e nas chans campestres.
O rythmo é o mesmo e tem-se a impressão de um cynematographo variegado, de grandes proporções, ora trazendo scenas épicas, ora apresentando episodios domesticos ou mostrando o trabalho agricola, a lucta tremenda do camponez com a terra, ao som da Marselheza tocada estrondosamente e sem descontinuação.
Esse defeito do poeta épico desapparece por vezes e é quasi sempre attenuado pelo enthusiasmo que desperta ainda que prejudique, em certos lances, a verdadeira emoção-isso, porém, vem ainda provar que o grande escriptor era um extraordinario poeta que se deixava arrebatar pela musa seguindo-a nos vôos arrojados Bem differente do tranquillo Daudet, que tão bem descrevia os homens e a vida, sem arrancos BICO DE PENNA 257 comum sentimento justo, com as proporções exactasum via a natureza e o homem e copiava-os, outro cantava-os com a voz forte com que os aëdos e os ollans dos tempos heroicos referiam os feitos dos guerreiros e descreviam as carnificinas e as quédas estrondosas dos muros das cidades.
Sei que a Critica vae analysar a obra do romancista, eu fico contente com a minha admiração pelo poeta.
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