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A Bico de Pena

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A Bico de Pena

Capítulo 7 · A Bico de Pena

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Entrando, de manhã, no meu escriptorio, vi o velho calendario murcho, a oscillar com a aragem na parede fronteira á minha mesa de trabalho - só lhe restava uma folha ...

Para que arrancal-a se nada mais havia atraz d'aquelle numero que representava apenas uma recordação ?

Que o misero levasse aquella ultima folha para o lixo.

Outro calendario, novo e gordo, carregado de folhas, como uma arvore na primavera, foi substituir o velho bloco lentamente consumido e foi somente essa substituição que me fez sentir o tempo, porque não notei differença alguma na manhan nem mais moça, nem mais velha.

No alto o mesmo azul, no azul o mesmo sol; voando, os mesmos corvos e as mesmas andorinhas ; na terra as mesmas arvores, as mesmas flores, as mesmas aguas, entretanto, durante a noite, o mundo silenciosamente doubára outro marco.

E porque só o calendario accusava a passagem destruidora do tempo?

Indifferentemente, todas as manhans, eu lhe arrancava uma folha e a lançava á cesta dos papeis.

E que representava aquella folha morta ?

Quem lhe escrevesse o inventario teria de encher resmas e resmas de paginas largas registrando a campanha dos homens «pelo ventre» , como diz Epicuro : vidas e mortes, fomes e frios, agonias e prazeres, bôdas e enterramentos, marchas de exercitos e convenios pacificos, ceremonias rituaes e conciliabulos covardes, inventos e desillusões, sonhos desfeitos e utopias realisadas, travessias de aguas e de areaes estereis, ascensões arriscadas e mergulhos no seio da terra á cata do ouro das minas, trabalhos serenos, estudos calmos, ancias desesperadas, ambições voracissimas, e, superiormente, a marcha tranquilla dos astros luminosos.

Tudo isso continha a miseravel folha morta que eu atirava, com desprezo, á cesta dos papeis inuteis ; cada uma d'ellas representava um dia.

Ai! de mim, cada uma d'ellas era como um recibo que eu dava de um dia que vivera e como elles são avaramente contados, como o dinheiro de Shylock, era o meu capital de alento que assim se exgottava.

Era, pois, de mim mesmo que eu arrancava aquellas parcellas-o calendario era apenas um symbolo, o que eu ia destruindo era o meu proprio sêr.

E fiquei a olhar o papelão onde estava estampado aquelle numero que era tudo quanto restava do velho calendario.

Occorreram-me, então, as palavras do philosopho: «a vida é como um rio que corre sobre um leito eterno - o tempo » .

Nós somos as aguas que passam, aguas, como as do Nilo santo, de origem mysteriosa.

Para onde correm ellas? para a eternidade, que é um oceano sem praias.

As margens são de vario aspecto- aqui frondosas, alli estereis, acolá sombrias, illuminadas além.

Ha gottas de agua que descem desde a nascente, pelo meio claro do rio, rolando em tumulto, reflectindo o sol e as estrellas, numa alegria sem fim: são as vidas ligeiras e inuteis; que bem fazem? que destino cumprem ? correm, engrossam apenas a caudal e passam.

Outras, como se se houvessem petrificado para conservar em carcerula uma scentelha astral, crystallisam-se em diamantes impereciveis e refulgem no seio das aguas - a luz é a inspiração perenne, o genio crystallisa o esplendor em obras immorredouras.

Outras remansam-se junto á raiz d'uma arvore e transformam-se em seiva e, subindo, desabrocham em flor e metamorphoseiam-se em fructo.

Outras, as mais humildes e as mais numerosas, transbordam com as cheias, são repellidas pelo fluxo do rio e alastram alagando as margens, fórmam nateiros pingues onde reponta a messe de ouro.

Essas são as gottas gene rosas, são o enxurdeiro da fecundação, o tremeda da abundancia.

As outras passam-o rio é alvo e feliz e discorre cantando, o lodo é negro e parado Que nasce no rio? a nymphéa ; o centro é este ril, só as margens tranquillas verdejam e o nateiro é todo trigo, é todo linho, é todo azeite.

Queres tu ser a gotta que vae na derrama ferti lisante? não, por certo-preferes, sem duvida, se a gotta ligeira e despreoccupada que desce na cor renteza para o oceano do eterno silencio.

O ideal <a «facilidade> -feliz é o que corre sem encontra tropeço, brincando nos remoinhos, saltando nos pe drouços, revoluteando nos grotões e mais feliz aind é a bolha ephemera de espuma que vive apenas tempo necessario para reflectir o azul dó ceu e verde formoso da paizagem.

Como são deseguaes os desejos !

Vêde como va riam nas almas os ideaes.

Cada qual trata com ma empenho de illudir o tempo.

O menino imagina-se um homem é guerrein e, brandindo armas, que são brinquedos, affron inimigos imaginarios , ou é artifice e trabalha aju tando a ferramenta: aplaina, serra, prega e pule ou é agricultor e cava, revolve a terra, planta e c A menina ainda balbucia, e já pensa em s mãe-eil-a tartamudeando caricias á boneca e nina-a, e veste-a, e affaga-a.

Chega-a ao collo agazalhando-a, alisa-lhe os cabellos, fecha-lhe as palpebras e, á noite, cabeceando de somno, não ha convencel-a a deixar a filha : leva-a nos braços e dorme com ella chegada ao coração.

O menino julga-se capaz de realisar a conquista do mundo e orgulha-se da sua força e da sua agilidade levantando pesos, luctando ou subindo lentamente ás arvores como um esquilo.

A menina já se imagina seductora e dengosamente ensaia a faceirice-um corre aos ninhos, corre a outra aos espelhos, e que fazem ? sonham com o amanhan, é o instincto que os impelle através do tempo ao destino prescripto.

Para complemento da illusão o menino põe-se a repuxar o labio, a retorcer as guias de um bigode imaginario, engrossa a voz, piza com firmeza e, arrastando um bengalão, lá vae pela casa a pavonear ufano, e a menina reclama um vestido comprido, exige que lhe levantem o cabello, adelgaça a cintura, toma attitudes languidas e, quando se reunem, continuam a sonhar e o sonho é a familia : são compadrios, creanças que nascem, projectos de baptisados, mesas de lauto festim; ou intrigas na visinhança, as rusgas no casal e até (horresco referens!) allusões ao divorcio por incompatibilidade entre os conjuges - é uma comedia da vida por marionettes animadas.

Esses querem avançar.

Agora vêde mais adiante-outra face da illusão : os que procuram retroceder : É o homem que se encalamistra, é a dama que se maquilha; ' que fazem ? procuram reparar «des ans l'irreparable outrage» : são os regressivos.

Ha aqui um cabello branco indiscreto, ha alli uma ruga denunciadora, a pelle encarquilha-se, perde a frescura, vão-se os olhos tornando ternos, os labios já não são tão roseos, que fazer? pedir soccorro ao artificio- e são tintas, pomadas, pastas, lapis, ferros de feitios complicados, toda uma pharmacia, toda uma cutelaria no toucador.

O homem recorda, então, o tempo em que era um trefego rapaz agil e forte-ah ! dançava toda uma noite sem sentir fadiga, excedia-se em extravagancias, sem jámais soffrer as consequencias.

Uma noite em claro... que era isso!

Bom tempo !

A dama relembra os seus quinze annos viçosos, o seu primeiro namoro, os dias do seu noivado ... como era feliz ! tudo the sorria e os espelhos eram mais puros ...

Porque não havia de tornar esse tempo amavel?

E os velhos, os que já não pódem esconder as injurias do tempo ? esses tornam á infantilidade.

O 1 Se alguem possue um bom vocabulo portuguez que possa substituir esse francelho queira dar-se o incommodo dem'o remetter registrado. proprio tempo como que os transforma- tornam-se tartamudos, ficam desdentados, caminham á custa de apoios, alimentam-se como os petizes e até vão engelhando : - a velhice é a caricatura da infancia, os extremos tocam-se.

Certos povos entendiam que era uma caridade matar os velhos-que ficavam elles fazendo na vida? pobres ruinas, antes que aluissem o melhor era deital-as abaixo e os velhinhos, como era de uso o sacrificio, resignavam-se, e, arrimados aos mancebos, rindo, talvez, por entre os trigos e os fenos, ouvindo pela derradeira vez as vozes alegres dos passaros, lá iam para o cutello, desejando a paz aos que ficavam e abençoando os pequenitos.

Que nos importa mais um anno? isso de edade é grave para os velhinhos-quando o copo está cheio basta uma gotta d'agua para que transborde.

Para nós outros, porém, que ainda vámos pelo meio, que nos importa essa gotta que cahiu da clepsydra ?

A vida é como aquella collina encantada do conto maravilhoso- para alcançar-lhe tranquillamente o viso é mistér seguir de fronte erguida, olhando sempre em frente.

Ai! dos que volvem os olhos ao Passado-ficam na melancolia e na saudade e, se não vêm roch que clamam, como viram os irmãos de Parisad vêm lápides tumbaes e illusões perdidas.

Assin pois-caminhemos de olhos no além ! e que o nov caminho nos seja suave.

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Sinopse

Leia gratuitamente A Bico de Pena, de Coelho Neto, obra brasileira em domínio público com fantasias, contos e perfis organizada para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi saneada a partir de fonte pública preservada no Wikimedia Commons/HathiTrust e conferida com o registro do Domínio Público/MEC, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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