Universo da obra
Universo da obra
MADRID, 18.
Hoje, pelamanhan, foi preso um individuo que atirou grandes e pesados ramos de flores á carruagem da princeza D.
Maria Thereza, irman de sua magestade o rei Affonso.
Verificando-se que os ramos só continham flores e que o individuo era um simples enthusiasmado, foi elle posto em liberdaden. (Telegramma d'O Paiz./ primeira luz da manhan eil-o de pé, pallido, com fundas e rôxas olheiras, dobrado de fadiga, exgottado pela vigilia da noite longa, rolando soffredoramente, pavidamente, no leito real de baldaquino armoriado.
Que noite angustiada ! não padeceria mais um réo que, na vespera do supplicio, estirado no secco grabato, olhasse, de instante a instante, o alto e gradeado respiradouro á espera do primeiro alvor da madrugada mortal.
Misero principe!
De volta das festas, ancioso por um instante de silencio e socego, recolhe-se à sua camara tapeçada.
As paredes sombrias estão cobertas de retratos dos grandes, dos fortes reis da Hespanha: de Affonso o poeta até Carlos v o senhor do mundo e outros e outros perdendo-se na penumbra, uns vestindo velludos, outros acobertados de aço e, entre elles, como a propria bravura iberica, o genio guerreiro da peninsula, o Campeador, com as mãos apoiadas no punho do montante, os olhos além, como a perscrutar o horisonte ; e todas as figuras parecem fitar, com pena, o joven rei em cujas veias um sangue fraco circula com o vagar d'uma aguasinha de arroio que vae seccando.
Lá fóra, além dos muros espessos do palacio, velam as sentinellas armadas contendo o povo generoso que acclama o moço monarcha, e elle ouve as vozes confusas da populaça, ouve os sons das charangas que passam, o atroar dos vivas que reboam e, de instante a instante, como a recordar a grande religiosidade da terra de Santo Ignacio e de Santa Thereza, os sinos bimbalham alegremente porque a Egreja celebra egualmente, com jubilo, a ascenção ao throno de mais um defensor da Fé.
E elle ouve, escuta.
Vae a noite seguindo o seu curso, recama-se o ceu de estrellas, a lua apparece, lua de Maio, clara e linda, d'uma dôce luz transparente.
Um clarão amarellece o espaço como o livor d'um incendio- é que toda a cidade resplandece illuminada festejando o acontecimento de que é elle o protagonista.
Elle é a causa unica d'aquella alegria, foi para honral-o que outros principes deixaram os seus reinos seguidos de numerosa comitiva; que os embaixadores chegaram apressados, com presentes, de todas as partes do mundo; que os comboios se multiplicaram para conduzir os homens curiosos do fulgurante espectaculo.
Todos os palacios têm hospedes de estirpe- os grandes de Hespanha receberam e agasalharam representantes das nobres côrtes, os hoteis regorgitam de forasteiros, as modestas locandas fôram disputadas e todo esse movimento de sympathia fal-o tremer apprehensivo.
Onde estariam elles ?
Pouco a pouco a cidade vae escurecendo ; ainda passam grupos, e, ás vezes, uma estropeada de animaes.
O leito lá está a esperal-o ...
Dormir !? e se alguem houvesse penetrado no palacio aproveitando-se d'uma distracção da guarda que anda com a attenção nas festas, esquecida dos seus deveres ou, quem sabe? talvez mancommunada com os assassinos ?
Póde estar alguem alli dentro, á espera da hora silenciosa, com um punhal prompto para o crime.
A tremer, lento e cauto, eil-o a correr os cantos, descalço, contendo o coração - afasta os pesados reposteiros, olha, inclina-se para espiar atraz dos moveis ; desconfia e estira-se no soalho atapetado e olha para baixo da cama.
Ha lá uma sombra, treme, recúa e insiste- não, talvez se haja enganado.
Volta a olhar : sim, foi engano.
Levanta-se e, dando com um dos retratos, estremece- a figura de um guerreiro formidavel parece sorrir com pena d'aquelle mancebo fraco que anda, em pontas de pés, de canto a canto, espiando, perscrutando, examinando.
Ah ! aquelle era da raça dos valentes que, ao brado dos esculcas, montava o ardego ginete e, descendo a viseira e enristando a lança, arremettia feroz contra as hostes soberbas.
Aquelle não tremia e, só com um brado, fazia recuar o inimigo mesquinho.
Elle descendia d'aquelles heroes magnificos, era um rebento d'aquella raça viril, de consquistadores afoitos mas, pobre d'elle ! se para ser rei da Hespanha The fosse necessario revestir todo o aceiro d'aquellas armaduras, peça a peça, desde o morrião até os sapatos de ferro e afivellar a espada, embraçar o escudo, empunhar a lança, então o mundo veria que a raça dos reis acabou no dia em que o ultimo alfageme, açacalador de armas finas, deixou morrer o fogo na sua forja.
E a noite segue.
Já os sinos não bimbalham festivamente.
De espaço a espaço, no silencio, um d'elles bate as horas lugubres.
O palacio dorme-lá fóra velam as sentinellas armadas como as guardas d'uma alcaçova sitiada.
E elle é o rei-sente na fronte a impressão da corôa, ouve ainda as vozes que entoaram a sua glorificação, vê o povo contido pelas alas militares e o sol, o admiravel sol fazendo brilhar as polidas laminas das bayonetas que o defendem.
E' o rei ...
Deita-se medrosamente, encolhido.
Uma zoada enche-lhe os ouvidos como se nelles tivesse as abelhas d'umas colmeias assanhadas.
Repentinamente erriçam-se-lhe os cabellos, um fremito percorre-lhe o corpo, escancellam-se-lhe os olhos ... que viu? uma das figuras das telas como que se moveu levantando o braço rijo e, como o velho Eviradnus do poeta, deixando a armadura no palacio sinistro, lançou fóra do quadro a mão calçada em guante agitando uma lança aguda.
Foi illusão ... o velho rei lá está immovel, olhando-o serenamente, com a piedosa ternura com que um avô contempla o pequenino neto.
Foi illusão; deita-se e, sem somno, fica-se a repassar todos os acontecimentos do dia.
Elle é rei ! rei e senhor de toda aquella terra tradicional, rei d'aquelle povo heroico que, tantas vezes, em tão esforçadas batalhas, em tão arriscadas expedições, levantára gloriosamente o pavilhão catholico.
E' rei e senhor nas cidades velhas como Toledo e nos campos fecundos, nas aguas do mar que ainda refervem sobre os destroços da frota carregada de ouro e nas montanhas onde rolou o precioso sangue de Rolando e de Oliveiro, em cujas penhas parece haver ficado o éco clangoroso do oliphante do paladino; nos valles ferteis onde loureja o trigo e reverdece a vinha e nas covas asturianas onde se refugiaram os companheiros de Pelagio.
Elle é rei !
Na sua infancia diziam-lhe que elle governaria outros povos de ilhas longinquas, umas nos mares da Asia, outras nos mares da America... depois chegaram homens feridos, rotos, sangrando e nunca mais lhe falaram de taes ilhas ... tambem, para que mais territorio ? para que mais povos se elle tem a Hespanha e os hespanhóes ?
E elles ? onde estariam elles, os inimigos ?
Com certeza, durante as festas, alguns, mais atrevidos, tentaram chegar ao seu carro e teriam realisado o seu intento se a tropa os não tivesse contido e porque não havia elle de os conhecer, a todos?
Que fazia a policia que os não prendia ? e os carrascos da Hespanha?
Ah! não, a Hespanha não os tinha ...
E, como havia elle, o rei, de livrar-se d'aquelles homens que desejavam o seu sangue?
Morrer !
Morrer quando começava a reinar ...
E, ante os seus olhos, como numa dança fantastica, cruzam-se, rebrilhando, laminas frias de ferros mortaes.
Sacode-se o infante, ergue-se e a visão horrivel desvanece-se subitanea.
Alli mesmo em palacio devia haver conjurados ... aquelle velho lacaio que vira seu pae, o finado rei, ensaiar os primeiros passos nas alamedas do parque real ...
Não, pobre velho ! se elle o olhava com aquelles olhos cheios de piedade ...
Porque lhe havia de querer mal, o bom velhinho ?
Não ! mas, os outros ? os alabardeiros ? os pagens, que, à noite, atravessavam sorrateiramente os longos corredores, cosendo-se com as paredes como se não quizessem ser vistos ?
Mesmo entre as damas algumas ha que lhe despertam suspeitas ...
E os guardas ? serão todos fieis ao juramento que prestaram ? aquelles brados que quebram o silencio da noite morna não serão um signal convencionado ?
Porque não ha de elle conhecer todos os conspiradores !
Oh! a incerteza cruel ! a duvida tremenda ! a eterna suspeita ...
E aquelle homem que rompeu a multidão para arrojar ao collo da princeza os dois grandes ramos de flores !
Seria mesmo um representante do antigo e generoso povo de Hespanha que estremecia os seus reis dando a vida por elles ?
Sim, era um humilde homem do povo que, querendo provar aos soberanos a sua fidelidade, talvez mesmo com o intuito de demonstrar que, apezar da sangrenta propaganda do anarchismo, ha ainda na Hespanha homens fieis á tradição, resumira as suas despezas para reunir as pesetas necessarias á acquisição d'aquellas flores de Maio com que enthusiasmado, saudou a princeza Maria Thereza.
A cavalheiresca cortezia não foi retribuida pela dama gentil mas por um solicito agente da segurança que logo se apoderou do homem-e os dois ramos fôram repellidos do carro e, examinados cuidadosamente, os homens da policia nelles apenas encontraram flores - rosas, lyrios, amaryllis, fuchsias e, circumdando, folhas de tenue e recortada avenca e era tudo.
O homem, de pé, entre esbirros, olhava acompanhando, com pena, a destruição dos lindos ramos : as petalas espalhavam-se pelo chão, eram pisadas brutalmente e elle olhava, calado, lembrando-se de que, para comprar aquellas flores, privára-se de tanta coisa ... tanta !
E alli estava preso, maltratado, ameaçado como um criminoso.
Por fim, demonstrada a sua innocencia pelas mesmas flores, deram-lhe liberdade.
O misero ficou ainda algum tempo cabisbaixo, a olhar e foi necessario que o mandassem sahir para que se resolvesse a tomar o chapéu e partir.
Desceu as escadas vagarosamente, um sorriso triste franziu-lhe os labios e, em baixo, detendo-se, ficou a pensar nas flores, as lindas flores, que lá estavam em cima amarfanhadas pelas mãos brutas dos agentes.
Porfim, resolutamente, mergulhou na multidão e desappareceu : Este episodio, que lhe fôra narrado por um aulico, acode ao espirito do joven rei e, pensando no homem simples, cuja bondade fôra tão mal remunerada, Affonso sente o coração travado e uma voz, como da consciencia, diz-lhe no intimo daalma : «Esse homem nunca mais trará flôres à passagem dos reis -é um despeitado e tem razão...
Se o vires no teu caminho evita-o.
E lembra-te, agora que és rei, que os odios do povo nascem sempre de injustiças como essa que foi commettida com o teu subdito» .
As sentinellas bradam e, como o rei se recline nos travesseiros, á escuta, ouve uns tremulos de guitarras e vozes que entoam uma seguidilha alegre.
E' uma serenata que recolhe, rapazes.
E sósinho, triste, entre as hirtas figuras dos seus rispidos antepassados, o joven rei da Hespanha vae esquecendo o enthusiasta das flores para acompanhar aquella alegria da mocidade, ultimas notas da festa nocturna, que lá vão pelas ruas adormecidas, fazendo estremecer de amor nos leitos puros as lindas moças enamoradas como no tempo romantico de D.
Juan Tenorio e, deixando-se cahir pesadamente no leito, o rei suspira, invejando os mancebos que pódem andar livremente, à noite, pelas ruas, cantando amores, ao luar.
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