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A Bico de Pena

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A Bico de Pena

Capítulo 32 · A Bico de Pena

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Que sôe o hymno de Archiloco a cujos accentos estavam tão habituados os ares finos e azues da Olympia que, mal auletrides e cytaredos o rompiam entre as nuvens doiradas da poeira da arena revolvida, logo os écos o iam redizendo antes mesmo que os cantores o entoassem.

Que sôe o hymno de Archiloco celebrando a victoria dos athletas que, com o poder do musculo robusto e agil, conquistaram a gloria que fica perpetuada na inscripção tabular.

Os tempos são outros-já os poetas não se levantam entre o povo, com a lyra enramada de oliveira pallida, o olhar ardente de inspiração, saudando os heroes da lucta-hoje a poesia é gemedora e fraca: arrula e suspira, não freme como nas eras pujantes, quando muito atita, porque lhe falta o heroismo de outr'ora que fazia do poeta um glorificador.

O homem definha e com a consumpção que lhe vae entibiando o corpo, a alma se lhe torna fraca, pusillamine, sem fé.

Já que os cantores contemporaneos preferem a mollicie do amor á valentia da peleja, um beijo ao arrojo seguro d'um disco de bronze, o abraçolanguido å formidavel tensão nervosa que exige um pugilato, a caricia de um olhar humido ao flammejar dos olhos de adversarios que se medem, um gorgeio de mulher voluptuosa ao rouco bramir do auriga que, no estadio, excitava as parelhas da rapida quadriga, uma promessa lasciva ao desafio heroico, genios do passado e tu, maior de todos, moço thebano, cantor sagrado dos grandes feitos de Epharmosio, vencedor nos jogos pythicos, neméos e isthmicos, empresta o teu genio immortal a um dos vates que melhor compõem a estrophe com a imagem que a illumina e com a rima que a enfeita para que elle dignamente descante o renascimento do culto e da belleza do Homem.

Salvé! salvé ainda heroes do pareo forte que vindes levantar, com o vosso exemplo, a alma abatida dos mancebos patrios.

Um povo não se robustece na inercia.

A mesma arvore, prisioneira pelas raizes, tem o vento como lanista que a obriga a exercitar-se : abalam-se-lhe os galhos, retorce-se-lhe a coma, a captiva debate-se violentamente como o leão que passeia na jaula e salta corcoveando para expandir a sua força nervosa.

O rochedo cravado tem o mar que o fustiga-a terra é como a Atalanta do espaço : corre vertiginosamente e se perde do sol que a vence, deixando-o nas brumas do inverno, é porque se curva para apanhar os fructos do outono que o Hippomenes flammejante lhe atira.

O homem, que se devia impôr pela força como a mulher se impõe pela graça, porque elle deve ser como o cedro e ella como a palmeira, copia os ademanes femininos e, a pretexto de ser esbelto, amaneira-se, fugindo a todo o exercicio, com receio de que se lhe callejem as mãos ou se lhe tufem os musculos endurecidos como os do Hercules Farnesio eo resultado é termos uma mocidade dessorada, tibia, muito encalamistrada, muito oleosa e trescalante, mas incapaz de um acto de energia, passiva por fraqueza, humilde por desalento.

A culpa, em verdade, não é dos moços senão dos paes que os criam nos refolhos domesticos, atabafados, para que o ar não lhes dê tremuras, para que o sol não thes creste a cutis e, d'esse chôco o que sahe é uma ninhada a piar medrosa e transida, que encara a vida com medo e, a primeira difficuldade, encolhe-se e deixa-se morrer covardemente.

Se os governos das sociedades modernas não entendem, como o rispido Lycurgo, que o infante é um bem da patria que o deve affeiçoar, desde a edade mais tenra, ao destino que lhe cabe, que é o de ser um cidadão util na paz, como elemento de prosperidade e na guerra como elemento de defeza, cuidem, ao menos, de mostrar aos paes que os exercicios são a melhor medicina e a moral mais san- ganham com elles o corpo e a alma, desenvolvem-se a força e a coragem, uma que é o fructo da robustez, outra que é a flôr da energia.

Felizmente parece que a mocidade já se vae insurgindo contra o regimen desmoralisador.

Coalha-se o mar de embarcações esguias que disputam a carreira na arena verde e mobil ; corpos arrojam-se ao encontro da vaga e lá vão por ella ás braçadas rijas, ora levantados nas cristas espumantes, ora desapparecendo nos sulcos ; as bicycletas affrontam os andurriaes, trepam ás serras, descem aos valles, atravessam florestas em viagens longas, de Estado a Estado ; a péla elastica parte como uma bala da cesta dos fundibularios ; cruzam-se floretes e sabres em punhos de esgrimistas ; turmas flanqueam as parallelas, correm outras ao lawn-tennis.

Alli é um trapezio que oscilla, além é um corpo que volteia na barra; mais longe vae o ginete sorvendo o ar dos prados frescos, levando um cavalleiro louro e moço e no campo, sobre a herva rasa, correm os teams, disputando a bola que bate, salta e vôa perseguida, indo d'um a outro, repellida, numa ancia desensoffrida de victoria que dá á face dos luctadores a côr alegre e formosa da saúde.

É exercitando-se n'esses jogos energicos que o homem aprende a vencer na vida : o hoplita dansava a pyrrhica sob o peso derreante das armas.

O grego era um povo estheta que admirava o corpo formidavel de Sostrato dormindo nú, estirado na herva verde e cheirosa do Parnaso ; o grego corria aos gymnasios para applaudir os gladiadores, a Hellade atroava quando um mancebo conquistava, em Argos, a taça de bronze e as corôas ornavam o thymelo tragico como a borda da biga triumphante.

Hoje, porém, raros são os que prestam culto á robustez,-as raças succumbem anemicas, o Adão actual não se parece com o collosso de argilla dura cuja ossada era de rude granito-é uma figurinha de terra-cota, mais para a peanha do que para a arena.

Nem todos os paes querem vêr os filhos nesses exercicios- a maioria prefere vêr os seus mirrados pimpolhos, muito apertados em umas casacas que lhes dão o ar de grandes gafanhotos negros, fazendo n'uma sala voltas subtis de valsas.

Felizmente, porém, começam a apparecer os jovens reaccionarios, os que se revoltam contra essa vida abafada e molle de plantas de estufa e correm, com o peito forrado por uma camisa de malha, os braços nús, as pernas núas, ao ar livre reforçando-se ao sol que é o grande juiz e o apologista da força. t E' preciso pensar um pouco no Homem que é o responsavel pelo mundo, que é o fiador do Progresso.

Não basta que sobre as vertentes das collinas e nas verdes planicies cresçam palacios de nobre architectura, alastrem relvedos de parques, refuljam serenos lagos ; que, por toda a parte, circulem activamente os vehiculos electricos, que haja monumentos nas praças, centros de sabedoria, casas de diversão, casernas e hospitaes, é necessario que haja homens, homens que não fiquem avassalados pelas maravilhas, homens que não sejam ridiculos ao lado das magnificencias, homens, emfim, dignos da cidade, do paiz em que nasceram e no qual brilham pelo esforço e pelo espirito.

Que diria o estrangeiro que, ao saltar no cáos d'uma cidade toda de marmore, com avenidas de cedro, faiscante de fócos electricos, visse pelos degráus dos templos, nas raizes robustas das arvores, nos perystillos dos palacios, uma população enfesada, a tiritar de frio, macillenta e livida ?

Sorriria ou daria por mal empregada tanta belleza...

Pois temos um meio de evitar esse ridiculo deprimente e o meio é bello e é nobre e nos foi dado por um povo que é um dos orgulhos da humanidade-o inglez.

Acceitemol-o e tornemo-nos dignos d'esta grande patria, que é, como um jardim exhuberante de Titania ... habitada por pygmêus.

A Bico de Pena

Sinopse

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