Leia agora
A Bico de Pena

Universo da obra

A Bico de Pena

Capítulo 13 · A Bico de Pena

A sorte

13 de 45 ≈ 11 min de leitura

A bruma viera cedo apressando a noite, a noite maior, е trazendo o frio, o bom frio do S.

João.

Não havia uma estrella, certamente Jesus as escondera para que o essenio bravio, que acabou ás mãos de Mennaei, no fundo do carcere de Machaerous, perto das cavalhariças de Herodes, onde brilhavam, como de neve, as tresentas eguas brancas da Arabia que Vitellio arrebanhou, maravilhado, não se aproveitasse de alguma para, com ella, incendiar o mundo.

Não havia uma estrella, em compensasão, de instante a instante, alguem bradava no terreiro annunciando um balão.

Corriam todos contentes, numa chalrada ruidosa, as creanças empurrando os velhos e, na varanda, ao frio, ficavam a olhar o fogo errante que lá ia oscillando, aos boléos, em direcção ás montanhas.

A foguira alta ardia no terreiro espalhando um rubro clarão que chegava ás arvores tingindo- as de sangue e tornando a folhagem rutilante.

Por vezes, ao abater d'um tronco encarvoado, fagulhava um enxame de faiscas alegres que estrallejavam e morriam.

As creanças levantavam um alarido saltando e batendo as palmas: «As abelhas de S.

João !

As abelhas de S.

João! » Subito, um foguete arrancava e lá subia serpentinando, explodia, dois, tres estouros ou eram bombas que estrondavam.

Feixes de canna, rimas de batatas e de carás esperavam a um canto, perto de uma aroeira, a hora do pagode, como dizia tio Chico.

Violas e cavaquinhos preludiavam e, lá dentro, na casa illuminada, era um ir e vir de gente apressada em torno da mesa fiorida onde já os grandes bolos tostados, os cremes, as gelatinas, os sequilhos empilhados, os alfenins alvissimos e as compoteiras desafiavam a gula da petizada e mesmo dos taludos que rondavam aquelle altar esquecendo o outro, armado numa saleta, entre verdes folhagens, onde S.

João, cercado de cirios e de rosas, com o cajado e o melote ao hombro, seguido do cordeirinho, estendia a mão como a abençoar.

As velhas faziam-lhe a corte- volta e meia lá estava uma espevitando os cirios, afastando um galho pendido ou contemplando, com enlevo, a imagem.

Outras chegavam e, de mãos enclavinhadas, ficavam um instante a olhar, com um movimento tremulo dos labios.

Só a dona da casa, muito occupada com a ceia, não se detinha ante o santo- quasi que nem olhava, tendo-o por uma «divindade domestica» , um intimo com o qual não fazia ceremonias.

As outras que pedissem á vontade, ella não precisava; tinha-o todo o anno em casa e, quando quizesse alguma coisa, era só abrir o oratorio e rezar um terço.

No peitoril d'uma janella, ao sereno, um copo de agua esfriava-alguem alli o deixára, com um ovo dentro, para ver a sorte à meia noite.

Tiravam-se os primeiros cantos logo interrompidos pelas gargalhadas ... recordações alegres de outros annos.

«Quá, genti !» e lá iam os tangedores, dobrados sobre os instrumentos, ponteando com bravura, qual mais agil, qual mais faceiro, repinicando os bordões que resoavam cheios, pondo um arripio em todas as raparigas.

Mas, a noite esfriava deveras ; uma aragem gelada vinha de fóra; pipocavam foguetes, crepitava a fogueira; mas era inverno bravo, os dedos estavam duros.

«Genti, issu assim não vae ... » Tio Chico entendeu as falas e foi logo, pressuroso, buscar o restilo para animar o povo.

«Sim, que encarangados elles não podiam mesmo tocar coisa que prestasse e a noite estava dura.

Elle mesmo, que não era friorento, estava alli fazendo de forte, só Deus sabia como» .

E là foi o codorio, no mesmo copo de vidro grosso, de mão em mão, e era um pigarrear satisfeito em todo o bando.

«Agora péga, genti ! mas péga cum sustancia, nada di afrouxá.

Oia ca genti não sabe si chega p'r'o anno ! » «Cruz !

Credo ! » rebateram o agouro.

Havemos de chegar, porque não ? o santo não está alli? qui mais !

Deixa di falas tristes-que a morte tem di vir todo o mundo sabe mas o melhor é não falá nella.

Que venha quando Deus quizé» .

«E que seja bem tarde ! » disse um dos violeiros e Casimiro, que era folião, accrescentou com a sua voz cheia : «Permitta Deus que ella, quando tivé di vi p'ra mim, dê uma topada no caminho e fique concertando o pé uns bons par de annos... » Houve riso e um «Pois sim !» atirado n'um muchocho.

Mas uma das violas rompeu e as outras, em concerto, com os tremulos dos cavaquinhos e os graves dos violões, deram o signal da dança.

Uma a uma, graciosamente, foram as moças cedendo aos convites dos rapazes e, em pouco, os pares revoluteavam e era um sorriso só em todos os rostos, um só brilho em todos os olhos e que aroma na sala, de canella e de lirios, lirios das aguas, dos que nascem do mururú no meio das lagoas, nos remansos dos rios, brancos, tão brancos, que até dizem que são restos da lua cheia que ficam nas aguas e que vêm á tona, de noite, pedindo á lua que os recolha.

As velhas, sentadas pelos cantos, enlevavam-se nas graças das filhas e, quem sabe lá se aquelles sorrisos, que lhes franziam mais os rostos encarquilhados, não se referiam ás suas reminiscencias, ao bom tempo d'antanho, quando ellas, novas e lindas como aquellas que alli dançavam, cingidas por braços de rapagões, ai! d'elles, ouvindo-lhes as palavras iam, quasi sem sentir o chão, fazendo voltas airosas e leves como se os mancebos fortes as levassem ao collo, carinhosamente, por um sonho fóra.

Ai ! tempo.

E as violas zangarreiavam alegremente e lá fóra, com a grita das creanças, ia morrendo a fogueira e a bruma crescia como o fumo de uma fogueira maior que ardesse longe, no ceu, talvez, para recreio dos anjos. -Mas, genti, quê dê Luzia?!

A esta exclamação lançada, de improviso, no meio da sala que refervia, detiveram-se todos entreolhando-se pasmados.

Os violeiros, que afinavam os instrumentos, levantaram as cabeças fitando a dona da casa que, de braços cruzados, olhava ora para um, ora para outro como á espera de uma resposta.

A mocinha alli não estava, não estava lá dentro; dançára uma polka, a primeira, com o Firmiano, isso dançára, mas não a viram mais.

«Quem sabe se ella foi-se deitá ?

Já olharam no quarto ?» «Não está ! » affirmou a dona da casa com a voz opprimida.

Já as senhoras se haviam espalhado pela casa, invadindo os aposentos, chamando a mocinha.

Tio Chico chegou á varanda e poz-se a bradar para o terreiro onde a fogueira morria esquecida : «Luzia !

Luzia !

Nada!

Um balão fugia pelo ar escuro levado pelo vento, longe o risco de fogo de um foguete coriscou no negrume; as arvores buliam devagarinho e, no silencio, ouvia-se bem a quéda da agua no moinho, perto.

«Luzia !

Onde se terá mettido essa rapariga ?» Chegaram outras pessoas á varanda, olhando, chamando.

As moças cochichavam reunidas e já pesavam suspeitas sobre a mocinha quando, de novo, a voz de Tio Chico se fez ouvir : - Que é aquillo alli em baixo? vocês não estão vendo um vulto? alli para os lados dos bambús ? -Sim...

Parece ...

E o velho bradou de novo : «Luzia ! » Um cão poz-se a ladrar na sombra.

«É gente ! é...

E é gente conhecida ...

O Tigre que calou a bocca é porque é gente de casa» .

As senhoras romperam pela varanda afflictas quando um dos violeiros disse: «Vem gente alli, e é mulher... » «Luzia ! » -Eh! responderam. -Que é que você anda fazendo lá fóra com essa noite, menina ?

Era ella.

Vinha devagarinho com um punhado de lirios na mão e coroada de lirios.

Entrou calada, sorrindo timidamente, a brincar com as flores.

Cercaram-n'a e a dona da casa avançou sem poder conter a furia : Que é que você foi fazer lá fóra, pequena? onde estava ? fala.

Tio Chico quiz intervir, já disposto a perdoar a escapada, mas a mulher, de pé diante da mocinha, com as mãos nas cadeiras, olhava-a a resmungar ameaças.

Luzia, de olhos baixos, esmagava os lirios alvos sem dizer palavra, com um sorriso triste no rosto moreno e lindo.

Foi uma velha quem descobriu o segredo : Que horas são ? perguntou.

Vae para a uma, disseram. -Então está ahi, Luzia foi a fonte.

Pois vocês não estão vendo que ella está cheia de açucenas ?

A rapariga levantou vivamente a cabeça e fitou a indiscreta: Pois fui mesmo, disse altiva ; fui e que mal ha nisso ?

Cada qual sabe de si e Deus de todos.

Fui ...

E, nervosa, desatou a chorar.

Foi bom assim porque a gente que a cercava sentiu um grande allivio, foram-se as suspeitas e as companheiras que a julgaram mal, como se as picasse o remorso, cercaram-n'a carinhosamente consolando-a : «Que não chorasse !

D.

Anna não estava zangada.

Tinham dado falta, não a viam, não a achavam em casa...

Aquillo era um matto perigoso, podia ter acontecido alguma coisa, ficaram afflictos ; era natural.

Ninguem estava zangado. » Ella foi, abafando os soluços, seguindo entre as companheiras para o interior da casa.

Os violeiros, querendo acabar com aquellas tristezas, deram o signal para uma quadrilha e Tio Chico foi logo dizendo que era a ultima, antes da ceia, e como D.

Anna, muito anciada, ainda falasse do grande susto que lhe pregára a filha elle, que estava alegre, fezlhe uma festa bregeira no rosto gordo : -Está bom, não fallemos mais nisso, a pequena foi á fonte vêr a sorte, já está ahi, com a graça de Deus.

Vae vêr a ceia, anda ; sem isso não teremos comida senão lá para a madrugada.

Com uma noite fria assim! até póde apanhar uma coisa no peito. -Qual, historia ! em noite de S.

João não ha molestias.

Vae, anda.

Olha, a gente está fraqueando que até faz pena.

Dançava-se com enthusiasmo a terceira parte da quadrilha, marcada, aos berros, pelo Gustavo da Roça nova quando um tiro estrondou no terreiro.

Os cães ladraram com furia mas, quasi ao mesmo tempo, uma das moças, que olhava para a varanda, exclamou corando : «Mundico, gente !>>> Um rapaz desempenado estava parado á porta, de botas, chapéu á banda, o chicotinho enfiado no punho, sorrindo.

Foi um alvoroço na sala, desfez-se a quadrilha ; correram todos para o recem-vindo e quando o Tio Chico viu o rapaz, alegre como estava, abriu largamente os braços e caminhou para elle : -Quê, homem ! você por aqui ? quando chegou ? - Hontem e aqui estou que é o mesmo que dizer que ainda não preguei olho.

E tia Anna ? e Luzia ?

As duas appareceram e foi um espanto ruidoso : -Meu Deus, Mundico !

Quando chegou ?

Você fez exame ?

Foi feliz ?

Como está gordo !

E a velha mirava-o, sorrindo.

Luzia, mais retrahida, sorria tambem mas de olhos baixos.-Toma alguma coisa, rapaz ; um pouco de vinho, um pouco de canna, café?...

Nada!

Nada ...

Não estavam dançando ? ...

Sim...

Uma quadrilha ?

Estavamos na terceira parte... -Pois vamos continuar...

Não ha por ahi uma dama ?

E voltava-se lançando o olhar em torno : Tens par, Luziazinha ? -Eu, não ...

Então, anda cá.

Mas falta um vis-à-vis ... disseram.

Arranja-se.

Tio Chico, titia ... venham ...

O que?

E' para completar aqui o negocio, tenham paciencia ...

Os dois velhos, quasi empurrados pelo rapaz, foram tomar logar e os violeiros romperam.

O Gustavo gritou logo, já rouco : En avant !

E Mundico, inclinando-se disfarçadamente para a prima, perguntou baixinho.

Então ?

Então?!

Então é que elles desconfiaram.

Eu bem dizia a você que estava demorando muito.

Châine de circumstancia só para as mada- - mas ! esguelou o Gustavo.

E as violas repinicavam com furia.

A Bico de Pena

Sinopse

Leia gratuitamente A Bico de Pena, de Coelho Neto, obra brasileira em domínio público com fantasias, contos e perfis organizada para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi saneada a partir de fonte pública preservada no Wikimedia Commons/HathiTrust e conferida com o registro do Domínio Público/MEC, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978659467126919848656056
A Bico de Pena

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

A Bico de Pena

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de A Bico de Pena

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral A Bico de Pena Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 13 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de A Bico de Pena

Todos os capítulos 45 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir