Leia agora
A Bico de Pena

Universo da obra

A Bico de Pena

Capítulo 15 · A Bico de Pena

Palpites

15 de 45 ≈ 8 min de leitura

Ó mulher, onde metteste tu o dinheiro ?

Que dinheiro, homem de Deus ?

Não te queiras fazer fina! responde e deixa-te de historias.

Que fizeste do dinheiro que estava no pé de meia ? -No pé de meia não havia vintem.

O que havia no pé de meia ficou na barrella. -No pé de meia havia duzentos e tantos mil réis em muito boas notas, que eu lá guardei.

Vamos, deixemo-nos de brincadeiras : onde metteste o dinheiro ? -Se eu te digo que não havia vintem ... -Vintem não havia, havia notas, já te disse.

Onde estão ? -Foram por agua abaixo, na lavagem. -Mau ! mau!

Olha que eu não estou disposto a rir.

Quem sabe se a senhora quer imitar o ministro ? imitar, digo mal, porque elle queima.

Vamos, diga onde poz o dinheiro se não quer que eu faça aqui uma das minhas ...

Depois ...

Aqui d'El-Rei ... !

Homem, queres que eu seja franca ?

Sem duvida.

Pois o dinheiro ... o dinheiro ... levou-oo burro.

Que burro, senhora?

Para que quer um burro duzentos e tantos mil réis ? -Foi o burro.

Elle não levou os duzentos mil réis de pancada, foi levando aos poucos.

Como? então o burro entrava no quarto, abria a meia, tirava o dinheiro que queria ... ?

Homem, mulher, tu pensas que eu sou idiota ?

Quem tirava não era o burro, Manoel ...

Então quem era ?

Era eu .

Tu !

Então que historia é essa do burro ? -É que era o burro que o levava.

Tu nunca jogaste no bicho ?

Eu ? a senhora bem sabe que eu não tenho vicios.

Pois foi o burro do jogo que levou o dinheiro.

O caso foi assim : Tu conheces a mulher do Cunegundes, uma ruiva, que tem dois filhos pequenos ?

Conheço.

Mas que vem cá fazer a mulher do Cunegundes ? -Ouve.

Como sabes o Cunegundes está de cama ha uns pares de mezes.

Emquanto teve saude foi um homem de trabalho, atirava-se a tudo para ganhar a vida - trazia a casa farta, a mulher limpa, os pequenos sempre bem vestidos, a molestia, porém, acabou com tudo isso.

O pobre homem, para não morrer á mingua, aprendeu a fazer charutos, mas os charutos dão muito pouco...

Que eram cem charutos por dia para uma familia como aquella ?

A Adelaide andava varada, pallida ; os pequenos, rotos, descalços, pediam pão de casa em casa, até fazia pena.

Quanta vez eu aqui lhes dei comida ...

Ah ! meu amigo, quando um pae de familia cahe numa cama ....

Pois sim, mas vamos ao burro ...

Vamos.

As cousas estavam nesse pé quando, um bello dia, a Adelaide, que não tinha um casaco decente para chegar á janella e andava sempre a chorar, a lamentar-se, pedindo a morte para ella e para os filhos, appareceu risonha e mais contente do que d'antes e, todos os dias, eu, por entre as reixas da janella, via chegar gente com embrulhos para a Adelaide : eram queijos, caixas de vinho, fazendas e a Adelaide a deitar luxo até que um dia sahiu de carro como a senhora do doutor. - E o pobre do marido a fazer charutos ... -A fazer ? a fumal-os, e dos bons, deitado em lenções de linho, com fronhas de renda nos travesseiros : um luxo de principe.

Eu fiquei a banzar e, como não sou maliciosa, disse commigo : « A Adelaide tirou a sorte... » E um dia, apanhando-a a geito, disse-lhe em ar de pagode : « Então, sua felizarda, sempre apanhou um bilhetinho premiado, hein ?! » Ella ficou muito espantada e respondeu : <<Não senhora : eu não jogo na loteria.

Ah! já sei porque a senhora fala- é porque me vê andar assim, apezar da molestia do Cunegundes, coitado !

Que quer, minha amiga ? quem não tem cão, caça com gato. - Que gato ? -Espera, ouve, homem.

«Emquanto o Cunegundes tinha saude e força eu não me preoccupava, mas veiu a doença e, a senhora sabe, as creanças têm fome e o homem da venda não fia principalmente quando sabe que o dono da casa está entrevado no fundo de uma cama.

Procurei trabalho ...

Só me appareciam charutos; desanimei.

Foi então que uma comadre minha, cujo marido anda longe, apanhando borracha nos sertões do Amazonas, disse-me que eu aventurasse alguma cousa no touro.

Aventurei.

A primeira marrada custou, isso custou, mas hoje ... » е desatou a rir, só para que eu lhe visse os dentes obturados a ouro, como lá diz o outro.

Eu fiquei a olhar para ella e, com franqueza, extranhei aquella alegria porque a Adelaide era alegre mas agora dá umas gargalhadas ...

«Então a senhora vive agora á custa do touro ? » -É verdade, respondeu ella.

E seu marido ?

Ah! meu marido não sabe.

Para uma mulher ser feliz no jogo do bicho deve guardar segredo, principalmente para o marido.

A senhora porque não tenta?

Tu sabes que eu não gosto de bois, não gosto de touradas, boi só vacca, essa mesma cosida.

Não, D.

Adelaide, eu não gosto de bois. -Não gosta !

A senhora diz isso porque ainda não experimentou.

Eu tambem não gostava e hoje não posso passar sem elle.

Experimente, experimente -e dobrou-se toda n'outra gargalhada.

Eu fiquei pensando e depois que ella sahiu resolvi experimentar.

Tu!?

Então ?

No primeiro dia mandei pedir porco ; deu o burro ; no segundo dia mandei buscar elephante, deu outra vez o burro.

Fiquei desconfiada com tanto burro : Diabo ! isso não é um jogo, é uma estrebaria !

Quem sabe se não é Deus que me está mostrando o caminho da felicidade! pensei.

Á noite sonhei que estava agarrando um burro pelo rabo.

Foi n'aquella noite em que te agarrei, não te lembras ?

Sim, mas eu não sou burro ...

Nem eu te agarrei pelo rabo.

De manhan, muito cedo, fui ao pé de meia e mandei comprar no burro ... couce ! e ... de couce em couce, meu velho, fiquei a tinir.

A Adelaide vive regaladamente á custa do touro, eu com o burro só consegui amofinações e miserias.

Então os duzentos e tantos mil réis foram todos no burro ?

Todos.

Muito bem. -Antes eu tivesse jogado no touro- ainda hontem deu. --Se a senhora tivesse jogado no touro ia agóra mesmo, como um fuso, para o olho da rua, entende ?

O touro dá todos os dias mas, se me constar que a senhora joga em semelhante bicho eu faço um banzé dos diabos n'esta casa.

Touro não é bicho que entre em casa de familia, está ouvindo ? -E a Adelaide ? -Que tenho eu com a Adelaide ? -Ella não joga em outro.

Por que o marido está entrevado mas eu não estou, com a graça de Deus.

Emfim-no burro póde jogar uma ou outra vez, pouco, com touros é que eu não quero negocios.

Se eu souber que me entrou touro aqui em casa a senhora vae para o olho da rua em dois tempos.

É o que lhe digo. (E foi; todos os jornaes noticiarem o caso commentando-o).

O homensinho, que apertára os cordões á bolsa, levando para a Caixa Economica o que d'antes deixava nas meias, começou a desconfiar dos lautos jantares que a mulher the apresentava - eram verdadeiros festins -e, farejando os pratos, perguntava desconfiado: -Mulher, isto é burro ?

Tudo é burro, pelo moderno. -Então agora não dá couces ? -Qual ! está manso como cordeiro.

Pois sim, mas não te fies.

Depois appareceram sedas, chapeus, costumes de panno francez, joias, camarotes do lyrico ... -É burro ?! -Então! que ha de ser ? -Olha lá, mulher - acho muita carga para um burro só. -A culpa não é minha ... se elle dá.

Um dia, porém, o homem entrou em casa justamente na occasião em que a mulher fazia jogo e viu...

Que viu elle?

Sei apenas o que os jornaes disseram : que elle travou d'um páo e desancou a mulher.

Sem razão disse a coitada ao delegado, explicando o caso: na occasião em que o marido entrou no quarto ella abria a porta de espelho do guarda casaca e o homem tomou por uma desobediencia o que era a sua propria imagem. -Eu permitti que ella jogasse no burro, senhor doutor, mas o que eu lá vi de burro não tinha nada. -Então que era ? -Ora ! que havia de ser? palpites da Adelaide.

A Bico de Pena

Sinopse

Leia gratuitamente A Bico de Pena, de Coelho Neto, obra brasileira em domínio público com fantasias, contos e perfis organizada para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi saneada a partir de fonte pública preservada no Wikimedia Commons/HathiTrust e conferida com o registro do Domínio Público/MEC, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978659467126919848656056
A Bico de Pena

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

A Bico de Pena

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de A Bico de Pena

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral A Bico de Pena Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 15 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de A Bico de Pena

Todos os capítulos 45 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir