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A Bico de Pena

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A Bico de Pena

Capítulo 10 · A Bico de Pena

Decadencia

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Da vida de duas princezas uma alleman, outra russa que cahiram em miseria, deram os jornaes o triste romance.

A primeira, fugindo na mesma noite do casamento, preferiu ao marido, um principe, certo bohemio desabalado que, depois de a haver empobrecido, abandonou-a com uma filha pequenina e enferma nos braços.

A desgraçada, repellida pela familia, cuja coroa ficára indelevelmente mareada, errou, faminta e tiritante, pelos campos até que a creança lhe morreu achegadinha ao collo mirrado e, sem lar e sem pão, com uns sordidos andrajos sobre o esqueleto, foi, uma noite, bater a porta d'um hospital pedindo, a chorar, que a recebessem por misericordia.

Receberam-n'a tomando-a por uma pobre mulher, viuva de algum operario e, só na hora extrema, quando a desvairada se desprendia do mundo, os enfermeiros souberam quem ella era.

A outra, menos romantica, perdeu-se em operações financeiras : atirou-se à jogatina da bolsa sacrificando milhões de rublos, empenhando as joias, o mobiliario, a seda, os linhos, até que se achou, uma manhã, sem um azinhavrado kopeck.

Como não era mulher fragil e conservava no coração um resto de esperança, preferiu continuar a viver, mesmo com soffrimento, a mergulhar no Neva ou a queimar os miolos, se os tinha, com um tiro.

Procurou emprego como a Krotkaia de Dostoiewsky e, como não lhe foi facil encontral-o em uma repartição do Estado, acceitou, com resignação, o logar de servente de pedreiro e, como no tempo do fastigio subia, com peliças caras sobre os hombros, as escadarias de marmore dos palacios moscovitas, pôz-se a subir as escadas oscillantes que levavam aos andaimes equilibrando na cabeça, sobre a rodilha dos cabellos louros que haviam, em tempos prosperos, sustentado uma coroa, o cócho acogulado de barro.

Acabou, sem refazer a fortuna, em negra miseria, envelhecida, callejada n'aquelle rude trabalho, ao sol e á neve.

Entre nós ha de ser difficil apparecer um d'esses casos lamentaveis, porque não temos principes, mas podemos apontar muitos decahidos que, se não têm nas veias o sangue azul, tiveram nos cofres ouro bastante para, com habilidade, se quizessem, arranjar o colorido cyanico que é um nobre privilegio dos descendentes de reis.

I T NS Um d'esses decahidos acabou, no Hospicio Na- R S G A R I E cional de alienados.

Eu o conheci já na miseria, mas EV E H I R A ainda são, integro de espirito.

Chamava-se Pinheiro, HN I FI C I B por antonomazia - Chicote.

Fui-lhe apresentado, uma noite, por um academico em cuja casa elle costumava pernoitar.

Era um homem sympathico, distincto, dotado de uma voz insinuante, conversando como um gaulez.

N'essa noite, minutos depois da sua apresentação, falando-se do passado, o sempre bon vieux temps, elle, que se achava sentado em uma canastra, levantou-se e, sacudindo os cabellos, compridos e soltos como uma juba, poz-se a passeiar pelo quarto acanhado, em silencio, estalando os dedos.

De repente, detendo-se, cravou em mim os olhos que fulguravam, e disse com um momo : Meu amigo, no Brasil ninguem vive, isto é uma ocára, comprehende ? uma ocára insipida.

Para quem nunca atravessou os mares o Rio tem encantos mas, para quem viveu lá fóra, isto não passa de uma aldeia sordida e triste, com um lindo ceu e algumas arvores.

E, inspirado, entrou a descrever a vida alegre, agitada, em Paris --os boulevards illuminados, o Bois à tarde, os lagos no inverno recortados pelos patinadores que deslisam graciosamente sobre a neve Depois Londres com o seu movimento e o seu nevoeiro, as costas azues do Mediterraneo, Nice e toda essa Italia artistica e languida, as ilhas classicas, a Grecia, Constantinopola, Jerusalém, os desertos, que sei !

Falou-me do mundo descrevendo pittorescamente, e com saudade, toda a sua longa e lenta viagem-noites em Covent Garden e noites á beira do Mar Morto, n'uma tenda, entre beduinos, ouvindo os chacaes.

Depois o Egypto, depois a Hespanha com amores e serenatas ...

Agitava-se, ia e vinha sacudindo, de instante a instante, a cabeça, com os olhos muito brilhantes.

Eu ouvia pasmado e, como não conhecia a estranha historia da sua vida, tomava-o por um louco.

De vez em quando procurava os olhos do academico que m'o apresentára e nada n'elles descobria que denunciasse incredulidade : o rapaz ouvia, com respeito, as descripções fantasticas que ia fazendo aquelle homem cujo casaco estava no fio, cujas botinas gastas iam e vinham pelo soalho sem ruido como se fossem forradas de algodão.

Depois referiu-se à Arte recordando as suas detidas visitas aos mais notaveis museus, com uma opinião sobre cada época e sobre cada um dos grandes mestres da pintura e da esculptura.

Falava com acerto como se repetisse as palavras de um guia bem compilado.

Por fim chegou a mulher e sobre todas teve uma phrase- desde a robusta camponia, linda e graciosa no seu vinhal do Douro, com as côres viBICO DE PENNA 77 vas dos seus trajos que recordavam a fantasia alegre dos sarracenos até à branca e delicada miss, figura mystica, d'uma doçura divina, como anjos das illuminuras medievaes-e a todas elle amára e guardava ainda o sabor d'aquelles beijos que recebera, uns que sabiam a mosto, outros que deixavam na bocca a impressão delicada d'um gosto de violeta.

Mas, quando, de volta d'essa viagem, elle reentrou a barra do Rio de Janeiro, a celebrada barra que não tem rival no mundo, a sua tristeza começou a manifestar-se : o enthusiasmo cahiu em morna melancolia e elle tornou á canastra, cruzou as pernas e, depois de haver explorado inutilmente os bolsos, pediu-me um cigarro.

Dei-lh'o e isso foi pretexto para que elle discorresse sobre o fumo, falando de Cuba e das suas ricas plantações.

Não era um homem, era a propria geographia.

O grande sino de S.

Francisco pôz-se a bater vagarosamente as dez horas e o homem levantou-se.

O academico insistiu com elle para que ficasse. -Não, estava uma noite linda, ia aproveital-a.

Tomou o chapeu e a bengala, despediu-se e foi-se, cabeça alta, bamboleando o corpo.

Quando os seus passos se perderam na escada eu disse ao meu amigo : Esse sujeito é doido, não ?

Não.

Esse homem que vistes foi um verdadeiro nababo.

Descendente de uma familia abastada herdou uma grande fortuna e, logo que entrou na posse dos seus haveres, resolveu satisfazer a ambição da sua mocidade : vêr o mundo e sahiu a realisar essa viagem admiravel da qual nos deu, ha pouco, as linhas geraes e, ainda assim, muito apagadas porque elle hoje está com a melancolia: ha luar, é sempre assim. -É, então, um lunatico ? -Não sei, diz que o luar lhe reaviva todas as recordações.

Pensas, talvez, que foi dormir ? não, foi andar e anda até de manhan.

Vae a pé a Botafogo, fica horas e horas a passeiar ao longo do caes, falando só, ou falando ao mar; detem-se deante de certas casas, olha demoradamente, depois segue cantarolando, como para disfarçar uma tristeza ; é sempre assim, quando ha luar.

Chama-se Pinheiro, Pinheiro Chicote.

Dizem que, de volta da Europa, enamorou-se de uma formosissima senhora e desposou-a.

A principio, por vaidade, abriu os seus salões, recebendo com fausto ; levou a mulher aos bailes da corte, aos espectaculos no Provisorio, a garden-parties, de repente retrahiu-se ; nunca mais a senhora foi vista em parte alguma, e entraram a dizer que, n'uma scena violentissima de ciume, o marido levantara contra ella o chicote ferindo-a no rosto e no collo.

O povo entrou, desde então, a chamal-o Pinheiro Chicote, juntando-lhe ao appellido, como antonomasia estygmatisante, o nome do instrumento vil com que elle ferira a linda dama .

Elle nunca se referiu á esposa nas palestras que commigo tem tido, conheço taes factos por outras pessoas que o alcançaram ainda no tempo brilhante.

A senhora morreu, dizem uns, outros affirmam que o abandonou e que ainda vive ; não sei.

Elle é o que vês -um misanthropo, com essa erudição de viagens e um pouco de poesia melancolica no coração.

De resto -bom homem, posto que, algumas vezes, tenha verdadeiras crises de mau humor tornando-se insupportavel.

E' de um orgulho desmesurado: soffre fome para não pedir e, se apanha algum dinheiro, vae a correr, para a estação das barcas para, sentir-se no mar.

Tem a nostalgia das aguas que o levaram a todos os pontos do mundo onde havia alguma coisa que vêr, e admirar; e tem, talvez, um remorso que lhe tira o somno, que o irrita ou que o prostra em longa e muda melancolia, dias seguidos .

Fala seis linguas, e é um critico de arte admiravel.

Onde mora ninguem sabe, dorme, ás vezes, aqui, outras vezes em casa do Rodrigues, e nas noites de luar caminha.

E' tudo quanto sei. -E que faz ? -Nada.

Já lhe quizeram dar um emprego, rejeitou com desprezo.

Quer a sua independencia absoluta, não sabe obedecer.

Annos depois, uma tarde, achava-me eu no largo da Carioca, á espera do bond, quando ouvi uma gritaria e gargalhadas estrondosas que vinham da rua de Santo Antonio -voltei-me e vi apparecer, á frente de uma grande malta de garotos, roto, brandindo furiosamente um velho guarda-chuva, o Pinheiro Chicote.

Estava envelhecido e magro, o casaco era um trapo, as calças pretas, poidas na barra, reluziam.

Caminhava apressado, gesticulando ; de repente, sentindo perto os pequenos que diziam chufas, que lhe atiravam immundicies, que o puxavam pelas mangas, pelas abas do casaco, voltou-se e foi um chorrilho de obscenidades.

Um policia interveiu defendendo-o e elle lá foi, atirando os braços, com acenos ameaçadores, e desappareceu na rua de Gonçalves Dias, perdido na multidão que subia apressada.

Recolhido ao Hospicio foi, emfim, libertado pela morte.

Esse grande desgraçado que, para uns, soffria as torturas de um remorso, que, para outros, era apenas um nostalgico da fortuna, vivia do passado : na maior miseria sustentava-o a recordação dos dias felizes que, no dizer do Dante, constitue a provação maior; para elle era a felicidade.

Olhar as aguas verdes e irrequietas do mar era para o infeliz um consolo-por ellas seguira outr'ora, moço e rico, e ellas o viram feliz em tantos portos diversos, gastando a mãos largas ; por ellas tornára para agasalhar-se na patria tendo por companheira uma senhora de esmerada educação e de fascinadora belleza.

Fôra injusto e cruel com ella, as erynnias vingaram-n'a e o misero Pentéo pôz-se a errar pela cidade, pobre e solitario, ao luar e ao sol, revendo os sitios em que fôra feliz: aqui certo balcão d'um antigo predio, que fora seu, talvez, de onde, ao lado d'ella, olhára tanta vez aquellas mesmas estrellas do ceu; adiante um jardim onde deixára uma lembrança do seu carinho n'uma arvore que elle vira pequenina e que, então, abria uma copa frondosa; os montes, os campos, o mar, o mar sobretudo ...

Essa insistencia da visão das coisas antigas de via ir abalando o pobre espirito-não foi a miseria que levou ao desespero a alma orgulhosa, altiva e soffredora do miserando, foi a saudade, foi a lembrança da ventura que, a principio, o sustentava como a hera sustenta as ruinas mas que, insinuando-se por todas as frinchas e taliscas, acabou por estalar aquellas fracas resistencias dando com a pobre alma na loucura.

E que fazia o louco? não vociferava, não investia, não ameaçava - só, monologando, ia e vinha pelos compridos corredores apontando coisas imaginarias, sorrindo, admirando.

Ás vezes corria-não julgassem que ia praticar alguma maldade, não; ia tomar o comboio para Jerusalém ou o trenó para atravessar a steppe e, sorrindo, acenava adeuses fugindo na loucura para aquelle passado, na visão suave do que fora, dentro do eterno sonho.

Nas noites de luar accendiam-se-lhe os olhos, tremia e pallido, sem poder conciliar o somno, não se aquietava emquanto não lhe permittiam ficar junto a uma janella olhando, através das grades, a lua pallida no ceu.

Que lhe recordaria o astro meigo ? talvez um amor no deserto ou, quem sabe? a sua brutalidade de ciumento.

Que descobriria na lua triste? seria elle um dos predestinados de que falla Raymundo Correia no seu Plenilunio ? talvez ...

A lua...

Ha tantos olhos n'ella arroubados, No magnetismo do seu fulgor !

Lua dos tristes e enamorados, Golphão de scismas fascinador !

Astro dos loucos, sol da demencia Vaga, noctambula apparição !

Quantos, bebendo-te a refulgencia, Quantos por isso, sol da demencia, Lua dos loucos, loucos estão !

A Bico de Pena

Sinopse

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