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A Bico de Pena

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A Bico de Pena

Capítulo 11 · A Bico de Pena

D. João de Maraña

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Na lapide de uma tumba rasa que serve de limiar á portaria da egreja da Caridade, em Sevilha, lê-se em letras gastas pelo continuo roçar dos pés, este epitaphio sombrio : •Aqui yace el peor hombre que fue en el mundo» .

Diz Mérimée que taes palavras, dictadas no momento da morte por aquelle que debaixo d'ellas repousa, como se quizesse ficar sob um perpetuo estygma ou sob um perpetuo annuncio, ou foram suggeridas por um humilde arrependimento ou inspiradas por um desmarcado orgulho.

O corpo que alli jaz foi o de um galhardo fidal 1 Reminiscencia de uma novella de Mérimée. go, destemido e affrontoso, horror de Sevilha e de Salamanca, herdeiro da fortuna e da nobreza dos condes de Maraña, infame rausor de virgens, profanador de claustros, grande acutilador e matador de homens.

D.

Carlos de Maraña, vencedor dos Alpuxarras, era de antiga e illustre casa sevilhana, famosa nas chronicas esforçadas do tempo das grandes guerras.

Depois de muito talhar mourisma, destroçando aduares, escalando muralhas e levando, à frente da sua mesnáda afoita, a cavallaria do Islam batida e confundida, mui cançado de «montear» os cães de Mafamede e não menos enfastiado de aventuras, resolveu recolher ao seu palacio, nos arredores da cidade, no silencio sombrio d'um parque de velhas arvores, com muita terra de semeadura para o fundo, onde verdejavam olivedos e vinhas.

Os famulos, com as continuas e demoradas sortidas do fidalgo, ficavam a cochilar no immenso e soturno palacio e, de tempos a tempos, acordados pelo mordomo, lá iam aos salões : abriam largamente as janellas ao sol e ao ar, sacudiam a densa poeira que encobria os quadros, açacalavam as armas das panoplias, bruniam os marmores dos moveis, batiam as tapeçarias, mas o senhor não tornava e, de novo, o palacio recahia no silencio, fechado á luz como um solar abandonado e maldito.

Ás vezes, um cavalleiro, coberto de pó, com as armas sem brilho, refreiava, diante da grande casa BICO DE PENNA 85 armoriada, o ginete esfalfado, apeava e, com o punho da espada, batia de rijo na porta principal, chapeada de ferro, como a de uma fortaleza.

O som estrondava longamente-acudiam, a correr, os famulos sobresaltados, olhavam pelo postigo gradeado e, reconhecendo o cavalleiro, com esforço faziam rodar a porta emperrada e pesada de cujos gonzos, no lento girar dos quicios, cahia, como a farinha da mó, uma vermelha poeira de ferrugem.

O cavalleiro penetrava, era acolhido com alegre alvoroço, davase-lhe do melhor vinho e da melhor fructa e, à noite, em torno da grande mesa, ao chammejar da lenha, seccando canecos, elle narrava á boa gente domestica os feitos maiores do senhor que lá ia, ao longo das praias, repellindo para o mar o ismaelita corrupto, levando-o, á ponta de lança, como o campino, na lesiria, apúa a pampilho o touro-e, até noite alta, quando o fogo morria, os famulos, em silencio, maravilhados e orgulhosos, escutavam as descripções das proezas do lidador.

Na manhan seguinte o cavalleiro apressado montava um animal robusto e, com outro á dextra e machos resistentes, lá ia levando novas armas ao campeão que pelejava e vencia a peito descoberto.

Veio, porém, o fastio da vida errante e incerta e o fidalgo, com mais d'uma ferida no corpo e um grande talho d'alfange na face acobreada, entrou no seu palacio e, suspendendo o montante e o morrião, despindo a couraça abolada que foi brilhar, como um trophéo, entre as luzentes armas dos Maraña, mandou abrir, de par em par, todas as portas e janellas, e, n'esse dia, velhos morcegos, que se haviam acolhido, como em ruinas, aos angulos d'aquelles salões, deslumbrados pelo grande sol que entrava fulgurante, puzeram-se a esvoaçar pesadamente, indo de encontro ás telas, ferindo-se nas ascumas, aos trissos, e foi para a gente domestica uma divertida e ruidosa caçada.

D.

Carlos, porém, habituado á vida agitada dos acampamentos, sentindo-se muito só n'aquella immensa morada, pensou em tomar esposa.

Como , pela vida que adoptara, andasse sempre longe, não conhecia as damas sevilhanas, despindo, porém, as armas e cobrindo-se de velludos, com um gracioso florete ao flanco, antes adorno que defeza, fez-se o mais assiduo galanteador nos salões da nobreza, procurando, com sagacidade, uma donzella que fosse, em tudo, digna do seu nome e do seu amor.

Achou o que buscava, não no esplendor da cidade mas no retiro virtuoso de um paço de velha nobreza, calmo no seu recato, todo em sombras d'arvores, á beira do Guadalquivir.

D.

Ignez, nascida e creada n'aquelle pensativo solar, onde apenas viviam damas, que o pae là lhe ficára em guerras, na costa do mar, junto do filho que o seguira, muito moço ainda, mas já ardente em batalhas, era d'uma pallida belleza, mais branca do que as imagens do seu oratorio contiguo ao quarto em que dormia, fechado a ferros como uma cella de monja ou o ergastulo de um galė.

O primeiro homem que os seus olhos calmos contemplaram com a demora de um olhar foi D.

Carlos, o guerreiro acerrimo, junto de quem ella ficava como um lyrio fraco e languido perto d'um roble annoso.

De vêl-a a pedil-a não houve demora e logo se annunciou pelas casas armoriadas o casamento do conde batalhador com a delicada filha dos fidalgos de Beira d'Agua.

As bôdas, como convinha a duas familias de tanta prosapia, foram sumptuosas : tres dias duraram as festas e a gente dos campos desceu a admirar a riqueza e a fulgurancia do palacio dos Maraña.

Annos tristes passaram sem esperança de herdeiro; uma manhan, porém, D.

Ignez, a chorar e a tremer nervosa, deu ao conde a noticia grata de que se achava fecunda, e, mezes depois, na hora da tarde, com o canto dos frades que enchiam a capella, nasceu, robusto e lindo, o varão que devia honrar e continuar a gloria das duas casas.

Levado á pia com solemnidade- dobravam alegremente os sinos como nos dias grandes da religião - recebeu o infante o nome de João e cresceu entre os cirios e as rosas da capella onde a mãe, que o tinha por dom divino, com elle desapparecia a rezar.

O conde, taciturno, medindo os vastos salões a duras e largas passadas, murmurava contra aquelle vergar d'alma e, quando, longe das vistas da mulher, achava o filho curvado, a folhear velhos livros cheios de illuminuras devotas, lá o arrancava com violencia e, trancando-se com elle na sala d'armas, ia-lhe apontando, um a um, os retratos dos avós, citando-lhe os seus feitos, descrevendo batalhas e, ora brandindo uma espada, ora embraçando um escudo, ora enristando uma lança, arremessando-se e recuando, aos brados estrondosos, dava-lhe ao vivo o exemplo dos combates quando, na confusão da peleja, os ginetes acobertados chocavam-se com estridor e as lanças voavam em estilhas de encontro aos aceiros rijos.

E, como o menino, em cujas veias ardia o sangue bravo dos heroes de duas temiveis linhagens, se fosse inclinando áquelle gosto que renascia no pae, deu-lhe o fidalgo um destro mestre de armas e, assim, entre esfiar de rosarios e botes e arremettidas, devoções no oratorio e retinir de espadas no salão ou no parque, foi crescendo o mancebo que devia continuar, com honra e denodo, a tradição dos Maraña.

Vêndo-o o conde desenvolto e robusto, resolveu despachal-o para Salamanca, onde florescia a Universidade.

D.

Ignez, ao despedir-se do filho, encheu-lhe os bolsos de rezas e amuletos, pedindo-lhe que se lembrasse sempre do quadro que havia na capella domestica, representando as almas do purgatorio, soffrendo nas chammas espicaçadas por demonios negros, entre monstros esvoaçantes.

Que a não esquecesse nas suas orações, para que a sua alma não chegasse a penar como penavam as BICO DE PENNA 89 da téla sinistra.

D.

Carlos, cingindo-lhe uma espada de boa tempera, lembrou-lhe a honra dos Maraña que elle ia continuar e engrandecer.

E o moço partiu.

Em Salamanca fel-o o demonio encontradiço com o estudante mais estroina da Universidade, D.

Garcia, nobre e airoso moço que andava esfarrapado por gosto e blasphemava por basofia.

Ligaram-se os dois -de dia dormiam pelos grabatos das baiúcas ou nos alcouces das marafonas, entre restos de orgias; á noite, traçando as capas, com a guitarra e a espada, lá iam pelas ruas e calejas acordando as virgens que acudiam aos seus cantares seductores.

Rara era a noite em que D.

João, recolhendo, não referia ao companheiro um novo crime- ou de deshonra, descrevendo, com lascivia cynica, a belleza profanada, ou de morte, commentando o golpe com que prostrára o desconhecido na tréva deserta de uma esquina.

Tantos e tão seguidos foram os seus crimes que, a conselho de D.

Garcia, que temia um levante dos burguezes e a rispidez do corregedor, abandonou Salamanca, passando-se a Flandres a offerecer a sua espada e sua lealdade ao ferreo duque d'Alba.

Tornando, porém, a Sevilha, onde o palacio, por morte dos fidalgos, reentrára no antigo silencio, uma noite, num fim de orgia, gabou-se D.

João de haver ultrajado no amor toda a casta de homens : rolára com mulheres no estrame do pastor serrano e em damascos de leitos reaes; tivera mesmo nos braços, núa e ardente, aquella que, em Roma, todos inculcavam como amante do Santo Padre-só lhe faltava, na lista dos trahidos, um nome-o de Deus.

Foi, então, que alguem se lembrou de o excitar ao derradeiro e mais hediondo ultraje e, para enraivecel-o, sorrindo com incredulidade, desafiou-o a rematar a lista infame com o nome que faltava.

Pallido, oscillando, ergueu D.

João o cantaro espumante e emprazou os companheiros para um festim que seria presidido por uma freira.

Beberam todos e o sol, entrando pelas janellas enramadas de trepadeiras, dispersou-os.

Na manhan do dia seguinte estava D.

João no leito quando ouviu tanger de sinos e lembrou-se que alli perto, na visinhança, a curtos passos de sua residencia, erguia-se um convento de freiras, casa de muita pureza, de onde jamais sahira para o mundo o echo mais leve do mais leve escandalo.

Alli quiz elle ensaiar a seducção e, vestindo-se á pressa, com austeridade, encaminhou-se ligeiramente para o seu posto.

Entrou e, seguindo, com ar contricto, por entre bancos e genuflexorios, foi ajoelhar-se junto ás grades que separavam as freiras e as noviças da multidão dos devotos do officio da manhan.

Logo, lançando o olhar arguto ao gynecêo sagrado, poude vêr entre as monjas uma ainda moça e de perturbadora belleza.

Tanto, porém, que deu cem ella, bateu-lhe o coração e a si mesmo, baixinho, lançou esta pergunta: «Onde vi eu este rosto ?» e a freira, por seu lado, tremia e baixava os olhos corando, com o que mais se lhe avivava a formosura.

Attentando na face da religiosa lembrou-se de certa donzella de Alcalá, herdeira de um nome puro que elle, em delirio sensual, enxovalhára.

O nome subiu-lhe aos labios : «Thereza» ; com elle, porém, na mesma lembrança, veiu toda a tragedia que rematou tristemente aquelle caso de amor: o velho pae, que os surprehendera, ferido de morte no vão d'uma escada, um lacaio a escabujar em sangue e ella fria e pallida, cahida como morta e semi-núa sobre os linhos do leito profanado.

Thereza tremia, mas o amor, que não lhe deixára o coração, subiu como um sopro abafado que um sopro de brisa ateia e logo rebrilha e chammeja.

Houve entre ambos o entendimento dos olhos, corresponderam-se com as scentelhas, das pupillas e, mais tarde, pondo D.

João o jardineiro do seu lado, facil lhe foi fallar á monja e logo a rendeu, combinando-se entre os dois a fuga para a noite proxima.

Uma liteira bem fechada e guardada por homens bravos viria esperal-a a par do muro, numa viella deserta ; o jardineiro guial-a-hia ao caminho e, para que não succedesse, no caso de ser elle interrogado, dizer o que sabia, um dos lacaios devia emmudecel-o para sempre; com tal recado dera-lhe o conde um dos punhaes mais finos da panoplia veneravel, arma que os de Maraña só haviam utilisado, com lealdade e bravura, defendendo a Fé, defendendo a Patria ou defendendo a honra.

D.

João não viveu as horas que o afastavam do momento alegre e de vaidoso triumpho em que devia apparecer entre os companheiros, conduzindo pelo braço a esposa do Senhor.

Chegada que foi a noite, lá se foi elle postar no sitio mais escuro, á espera que soasse a hora determinada.

Era pelo começo do outono; um vento frio picava e as corujas passavam no ar brumoso com um chirrio lugubre.

Impaciente ia e vinha o fidalgo, quando ouviu um côro de vozes tristes que pareciam entoar um canto religioso.

Devia ser no convento, pensou -- alguma prece nocturna ... mas não, era um canto merencoreo, de morte, e elle, que olhava, viu apparecer ao longe uma procissão sinistra- duas longas filas de penitentes negros, com cirios, encapuchados em cogúlas, precediam lentamente um esquife forrado de velludo e trazido aos hombros de monjes de longas barbas brancas e armados como guerreiros.

Apezar do vento as chammas dos cirios conservavam-se direitas e as estamenhas dos homens mantinham-se immoveis, duras como as roupagens de pedra das estatuas e, sendo elles numerosos, não se ouvia, entretanto, o mais surdo rumor de passos.

Aprocissão encaminhava-se para uma velha egreja arruinada e desprezada.

Como o primeiro penitente passasse junto do fidalgo, cuja curiosidade ia crescendo sempre, elle dirigiu-lhe a palavra perguntando : «Quem era o que levavam a enterrar ?» O penitente levantou a cabeça e o nobre moço viu dois olhos que pareciam arder e um rosto agudo, macilento e marmoreo como o de um morto e o estranho andejo disse sinistramente : Senhor, é o conde D.

João de Maraña.

Elle sorriu affectando indifferença, certo de que o farricôco, que o reconhecêra, quizera zombar do seu animo e foi com a procissão como attrahido.

O cortejo seguia no mesmo andar pausado e surdo e achava-se ainda a alguns passos da egreja quando, entre os velhos muros, reboou tristonha e funebre, a voz grave do orgão e logo, no limiar, appareceu um grupo de padres entoando cavernosamente o De profundis.

Deposto o esquife no cenotaphio formaram alas os penitentes para a vigilia funerea; então, já aterrado com todo aquelle cerimonial, o conde adeantouse e dirigiu-se a outro penitente, perguntando-lhe quem alli jazia ? e o homem, n'uma voz cava, respondeu como o primeiro : -Senhor, é o conde D.

João de Maraña.

Allucinado, o moço fidalgo arremetteu e, querendo empurrar os penitentes, a sua mão impetuosa passou através dos corpos como por um fumo negro-subiu, em desvario, os degráos do cenotaphio, chegou ao esquife-nesse momento na torre do mos teiro soava vagarosamente a hora do sinistro ajuste : Thereza, anciosa e medrosa, devia vir pelo jardim silente suppondo-o escondido na sombra quieta das arvores.

Violentamente descobriu o rosto do cadaver, inclinou-se e viu-era elle que alli estava estendido, as mãos duramente enclavinhadas no peito, livido, hirto e frio ; era elle mesmo, bem lhe haviam dito os penitentes-era D.

João de Maraña, filho do conde Carlos, rausor de virgens, roubador e matador perverso.

Em torno, sombriamente calados, immoveis, velavam os penitentes negros.

Curvavam-se-lhe as pernas, um suor frio escorria-lhe da fronte, faltava-lhe o ar.

De repente levantou-se na egreja uma grita estrondosa e medonha : «A nós, o infame!

A nós, o delapidador ! a nós, o devasso ! » e, de toda a parte: das ruinas dos nichos, dos vãos dos velhos altares, dos escombros do côro, quebrando, com estrepito, as lages sepulchraes que assoalhavam a nave, surgiam sombras pallidas e n'ellas ia o conde reconhecendo as suas victimas amorosas e as que haviam cahido a golpes de espada e punhal-lindas moças conspurcadas, velhos cujas barbas brancas esvoaçavam, mancebos d'uma graça inda infantil e todas mostravam as feridas sangrentas ou vociferavam contra o enganador que as manchára e esquecera.

A velha egreja enchia-se, atroavam os clamores e, nas cimalhas, nos florões dos capiteis, nas cornijas, demonios rubros, de cornos em brasa, riam com esgares, balançando-se suspensos das caudas, brandindo garfos que chammejavam.

Na manhan seguinte alguem passando, por acaso, pelas ruinas da egreja, viu, cahido entre os destroços d'um muro, o moço nobre- a seu lado jazia a espada núa e humida do orvalho.

Não lhe acharam no corpo ferimento algum.

Recolhido ao palacio alli esteve, entre a vida e a morte, longas e tristes semanas, a cuidado de um velho dominicano e, melhorando, viram-n'o os famulos sahir, envelhecido e curvado, seguindo com o religioso para desconhecido sitio.

Tempos depois todos os bens dos Maraña eram convertidos em esmolas e mais um frade rezava no coro dos dominicanos.

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