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A Bico de Pena

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A Bico de Pena

Capítulo 12 · A Bico de Pena

Rehabilitação

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Baptista Tornielli, escrevendo ao Aretino, disse, com deslavada e cynica subserviencia : «Non sapete voi, che con la penna vostra in mano havete soggiogato piú principi, ch'ogni altro potentissimo principe con l'arme?

La penna vostra a quale non mette terrore, a quale non é formidabile ? » O proprio Aretino deixou dito em uma carta: « ...la maggior parte de i gran maestri non temono l'ira di Dio, e temeranno il furore de la mia penna» .

Quando a morte alliviou Veneza d'aquelle discolo que a depravava, choveram os epitaphios e, em todos elles, transparecia o odio que o grande diffamador creára em torno da sua pessoa detestada e temida.

Entre os muitos, citados pelos biographos, ha este que resume a vida abocanhadora do « sozzo cane » : Qui giace l'Aretin poeta tosco Che disse mal d'ogum, fuor che di Dio Scusandosi col dir: non lo conosco.

A palavra, posta a serviço de uma idéa generosa, fulgura como um astro, empregada por um vilão é como a scentelha do pantano.

Os mesmos vocabulos que o Aretino, como um volcão de lama, arremessára de Veneza sobre as reputações manchando-as, são esplendores nos versos de Dante e Petrarcha.

Victor Hugo, na Reponse a un acte d'accusation, um dos golpes mais rudes vibrados contra o pedantismo classico, fez uma brilhante defeza do vocabulo humilde, d'esses miseros e despreziveis termos do populacho que não entram nos diccionarios para que não maculem as nobres expressões de estirpe, descendentes de sonoros verbos gregos ou latinos ou, mais remontadas ainda, podendo mostrar a sua origem nos livros da India veneravel ou da Persia heroica.

Elle desceu ao patois e foi buscar a farandula da gyria, penetrou o argot mysterioso e trouxe para o esplendor da sua estrophe os vocabulos esmulambados, descalços, sordidos, cambaleantes que os poetas escrupulosos e os prozadores brazonados evitavam como se evita nas ruas um bebedo que resmunga , aos trancos ou um mendigo esfarrapado.

Toda palavra tem uma missão, é um sêr : Car le một, qu'on le sache, est un être vivant... e o grande poeta, o denodado renovador, acabando com os preconceitos, n'um generoso impulso, enriqueceu a lingua franceza com aquella horda formidavel que fazia pensar numa avalanche de barbaros, como os hunos grosseiros de Attila, rompendo fragorosamente pelos periodos molles, estrondando nos versos alambicados, com a brutalidade de invasores poderosos que trouxessem um sangue novo e pullulante para trasfegar nas veias dessoradas dos consumidos nobres dos glossarios.

E, como nos tempos rudes, um scytha, coberto de pelles cerdosas, com grandes e desabridos gestos, vozeirando, bramando, rugindo, saltava do cavallo ardego para sentar-se no throno d'um monarcha effeminado, gasto pelas orgias, assim os rudes filhos do povo, os termos resoantes do calão da plebe, subiam }- a escadaria de marmore da estrophe e iam impor-se anonymos, sem etymologia conhecida, collocando-se orgulhosamente entre um verbo cujo radical vinha dos tempos da Illiada e um adjectivo contemporaneo de Fabio Pictor. a Sombre peuple, les mots vont et viennent en nous Les mots sont les passants mystérieux de l'âme.

Que é a idéa sem a palavra ? uma alma errante.

Julgaes, talvez, que ha homens mudos? engano : ha homens carceres : as palavras lá andam dentro d' les como galés em um presidio.

Algumas logram , vezes, evadir-se e sahem coxeando , tartamudeant como se ainda lhes pezasse a grilheta.

Apalavra pois, o corpo da idéa e porque havemos nós de pellir essas creaturas do sentimento , da impressão povo? não lhes perguntemos de onde vêm- sac garotos do pensamento mas, quantos d'esses gard têm conseguido a consagração dos lexicons?

Os classicos não admittiam a promiscuidade diz o poeta na sua Resposta fulminante , queriam os vocabulos apresentassem certidões , que lhes r trassem as raizes da arvore genealogica e, se confiavam da bastardia de algum d'elles, logo c pelliam, com desprezo e rebuscavam um subst digno, de sangue azul, que fosse o introducto pens S a e me o nt t o ernmaocsierc t u o la r ç n ã a o v.a antiguado esquecian -era como um invalido , quando não o enterra pondo-lhe como epitaphio o lemma: archaic ninguem ousava exhumar o cadaver que lá fi não apodrecendo , mas immobilisado como uma mia entupida de resinas e envolta emligaduras a idéa que representára , ao lado, como o esca lho egypcio, symbolo da alma immortal .

Victor Hugo não só adoptou o baixo dialec mo reanimou os archaismos e quantosd'elles br nas suas estrophes , remoçados como o Faus gando o passado ao Futuro?

Il n'y a qu'un mot pour dire les choses, creio que é de Flaubert este admiravel axioma e aquelle escriptor que quizer apresentar o povo com verdade terá de lançar mão do seu vocabulario.

Gautier recommendava insistentemente a leitura dos diccionarios : « Lisez les dictionnaires ! » e Victor Hugo disse : ......

Chacun a quelque chose en l'esprit ; Et tout homme est un livre oú Dieu lui-même écrit.

Chaque fois qu'en mes mains un de ces livres tombe, Volume oú vit une âme et que scelle la tombe, J'y lis........

Eis a razão porque elle, procurando traduzir a vida das suas personagens, serviu-se da linguagem peculiar a cada uma.

Eu mesmo-e sirvo-me do exemplo-senti uma detestavel impressão a primeira vez que vi um indio em um nucleo de catechese.

Atravessando a floresta ia eu imaginando, com delicia, encontrar um homem reforçado e nú tendo apenas, em torno dos rins, um enduape de pennas e, na cabeça altiva, um kanitar tremulante e calculem a minha decepção quando me achei diante do cacique dos tembés que arfava apertado n'uma farda de capitão da guarda nacional.

Dá-se o mesmo com a expressão - ella, para impressionar, não deve vir disfarçada, os mestres antigos comprehendiam assim, o euphemismo é o envilecimento da idéa.

Il n'y a qu'un một pour dire les choses ... o mais é artificio e, se o povo tem a sua vida especial, as suas emoções proprias, porque não havemos nós de as traduzir com o cunho forte e rispido da sua origem?

As expressões populares são sempre representativas-ou são satyricas como as caricaturas ou onomatopaicas -tomemol-as e demos-lhe um lugar nos diccionarios, introduzamol-as na obra d'arte porque, ao lado dos grandes quadros mysticos dos mestres do Renascimento, pódem figurar os desvarios de Goya e Callot não perde apparecendo entre as verdes paysagens de Tadema nem em confronto com as finas carnes amorosas das mulheres de Cabanel.

A rehabilitação do baixo vocabullo deve-se, em França, ao mais nobre dos poetas contemporaneos que levou para a lingua a mesma idéa democratica da igualdade apregoada na vida social, pelo programma da Republica.

Todas as palavras são nobres porque vêm da alma ou, como disse o grande paladino dos simples : Car le môt, c'est le Verbe, et le Verbe, c'est Dieu.

A Bico de Pena

Sinopse

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