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A Bico de Pena

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A Bico de Pena

Capítulo 17 · A Bico de Pena

O gallo

17 de 45 ≈ 7 min de leitura

Todo curvado e attento, a olhar as entranhas sangrentas d'um gallo, o meu amigo Galracho, áruspice e rosa-cruz, venerador de Peladan, sar nos cartões de visita e primeiro official do correio, na lucida manhan de janeiro, emquanto o Menino seguia para o templo, a cumprir a Lei Judaica, santa pela intenção e hygienica pelos resultados, tirava augurios no fundo recondito de um quarto discreto, onde se empilham caixotes sobre os quaes, á guisa de altar, as victimas palpitam e mostram nas visceras os arcanos do futuro.

Galracho, em robe de chambre sacerdotal, com um facalhão inglez, de lamina luzente e larga, lembrava um sacrificador do antigo tempo.

Quando entrei, sentindo os meus passos no soa lho que range, voltou a cabeça e fitou-me com os seus olhos de myope, desarmados das poderosas lentes.

Não me reconheceu de prompto mas, ouvindo-me a voz, tranquillisou-se e acenou mysteriosamente para que eu encostasse a porta afim de que a senhora, que é alegre e incredula, não interrompesse a ceremonia com o seu riso e com os seus commentarios mordentes.

Galracho suava em bicas naquella estufa esoterica e deposito de velhas caixas.

Um raio de sol, descendo pela claraboia, dourava a victima gorda em torno da qual esvoaçavam gulosamente, desrespeitosamente moscas zumbidoras e o áruspice, com as mãos mais vermelhas do que as de um magarefe, tomava notas ligeiras n'uma larga folha de papel toda manchada de sangue. -Que diabo fazes tu aqui, Galracho ? -Não vez ? estou tirando augurios, como os nossos paes romanos.

Leio o futuro.

Leio-o nas entranhas d'este gallo como se o lesse nos mesmos livros da sybilla.

Estava agora justamente interpretando o figado.

Ah ! meu amigo, suspirou Galracho meneando a cabeça, em grande e abatido desalento -as coisas não nos sorriem.

Vamos ter molestias este anno, molestias mortaes e muitas.

Epidemias ?! -Epidemias ... não digo.

Ha muita gordura no figado, vê -- o gallo está gordo de mais ...

Divino é que elle está !... e a enxundia confunde as linhas do mysterio.

Não te posso dizer se teremos epidemias, affirmo-te, porém, que teremos molestias. -Isso tambem eu affirmo, mesmo sem olhar as entranhas do bicho. -Olha aqui a moella...

Que vês n'ella ? -Eu... eu vejo que o gallo morreu em jejum, ou, antes, tendo illudido a gana com uns granisos e areia.

Sabes que quer dizer isto ?

Sabes? e a voz de Galracho silvava e os seus olhos de myope faiscavam. -Quer dizer que não atiraste milho ao poleiro ... -Não, quer dizer que vamos ter fome ! fome!!!

Não a fome que soffreram os lydios mas ... -Uma fome modesta, assim como quem diz : meia ração. -Isso : meia ração ; meia ração é bem dito.

Vamos passar á meia ração.

E Galracho coçou a cabeça intrigado : O diabo é a gordura!

Quasi que não posso interpretar com tanta banha.

Mas, cá está a fome, cá está ! - Olha, Galracho, faze como José; previne-teenche a despensa e o gallinheiro, põe-te em guarda e não esqueças o meu talher.

Mas o grande amigo saltou electrico, arripiado, n'uma inspiração.

Olha o fel ... a politica : está tumido e negro.

Vamos ter luctas, luctas tremendas.

Ah ! meu amigo, no anno passado, consultando as entranhas d'uma pata... $ -Tão gorda como este gallo ? -Não, mais magra, (era uma pata propria para o mysterio) eu annunciei todas as calamidades que nos haviam de flagellar.

Disse que o presidente sesia substituido... -E foi, realmente. -Disse que haviamos de perder um grande homem... -Perdemos varios, a pata foi sóbria ; é verdade que estava magra. -Prognostiquei o nascimento do Augusto... -Tua senhora, em outubro, já se sentia mal e, em março, avisado amigo, levamos o lindo Augusto á pia. -É verdade ! ...

Vi tudo na pata.

É extraordinario ...

E agora no gallo ? ... -Vejo todo o anno em que entramos.

Chamo a tua attenção para aquella gordura que se vae fundindo ao calor do sol. -E que diabo é aquillo na tua sombria sciencia ? -Aquillo ? pois não vês? a gordura é dourada, não é? pois é um projecto de conversão do papel moéda ... -Em ouro, comprehendo.

E Galracho meditou e disse: E póde ser tambem uma tentativa revisionista.

E sobre o Codigo Civil, que diz o gallo ?

Tem muita gordura, meu amigo, e a gordura é o embaraço.

Vou agora consultar uns velhos livros sybillinos para ordenar o oraculo.

Espera-me um instante no meu gabinete, tens lá a réde, livros e uma caixa de musica com doze peças.

Dirigi-me ao gabinete, tomei um livro ao acaso -era um romance venusino, com gravuras que fariam humilhação aos camapheus antigos, dei corda á caixa de musica e afundei mollemente na rède, ouvindo o repinicar do Trovador e deliciando-me com uma historia d'alcova, ardentemente illustrada.

Despertei em sobresalto, sacudido pelo amigo Galracho que me chamava para o almoço.

Doce somno ! exclamei esticando-me nas pontas dos pés.

Dorme-se bem neste gabinete.

A caixa emmudecera e o livro jazia escancarado sob a rède expondo uma sena lubrica aos olhos pudibundos do ledor d'entranhas.

Lá fomos ao almoço e, emquanto roiamos azeitonas e barravamos, com manteiga fresca, o pão branco e molle, levantou-se uma questão.

Galracho affirmava que as entranhas do gallo gordo the haviam augurado um successo extranho e tão novo que elle, apezar de haver consultado todos os mestres da sciencia, não conseguira achar solução para o caso.

E Galracho estava, em verdade, sombrio e preoccupado e, tão distrahido estava que, com vagar soprava para o prato toda a polpa das azeitonas e engulia, com gosto, os caroços.

Uma terrina, fumegante e cheirosa, appareceu e occupou, com grandeza e brilho, o centro florido da mesa.

Galracho meditava emquanto a senhora ia enchendo os pratos com uma canja, toda lentejoulada d'olhos d'ouro e com paio ás rodellas.

Cheirava e espalhava por toda a casa o seu appetitoso cheiro. -Galracho, disse eu, baixa á realidade : deixa lá o transcendente, toma a tua colher e atira-te á canja ...

Deixa lá o successo : que venha e, para que não nos encontre fracos, comamos e bebamos. -Não, meu amigo, não ; o que eu achei no gallo não me sahe da cabeça.

Alli ha successo e grande ...

Então que foi ? dize lá ! -Que foi! que havia de ser ? um ovo, homem, achei um oVO ...

Superfectação ...

Qual superfectação !

Velhice ... e eu ia comendo.

Qual velhice !

Um ovo authentico... num gallo ...

Este paiz está perdido, meu amigo ; irremissivelmente perdido.

Nem Deus o salva!

Por causa do ovo ? ....

Então ?

Queres vér?

E, arrebatadamente, Galracho deixou a mesa, correu ao sanctuario e eu ouvi um urro, um verdadeiro urro e logo o áruspice reappareceu tremendo de terror sagrado, com os cabellos em pé, livido, bradando: Que é do gallo ?

E a senhora, serenamente, sorrindo, mostrou a terrina que rescendia dizendo ao esposo alarmado : -Está aqui, homem, não te apoquentes- aproveitei-o para a canja; estava tão gordo .....

O gallo prophetico !

Estamos perdidos !

E Galracho deixou-se cahir pesadamente no sofá e poz-se a dizer com uma voz tão soturna, rolando uns olhos tão apavorados : « Estamos perdidos !

Estamos perdidos ! » que eu, francamente, não descançei emquanto não me vi livre do diabo do gallo gordo e carregado de vaticinios.

A Bico de Pena

Sinopse

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