Universo da obra
Universo da obra
Um missionario, que por alli passou, demorando- se dois dias sob as palhas pôdres d'um velho curral porque nenhum dos moradores, para que o santo homem não désse pelos torpes vicios que ennegreciam as suas vidas, tão livres como as dos animaes, quiz hospedal-o ou mesmo visital-o, sahiu aterrado d'aquella aldeia, mais encharcada em peccados do que a impura Sodoma e, nos campos, sacudiu, com horror, a poeira das sandalias.
A egreja cahia em ruinas e pastores, nas horas mais abrazadas, recolhiam os seus rebanhos á sombra fria das lages da velha nave e alli ficavam profanando o sagrado muradal com cantares de amor senão com o mesmo amor.
O cemiterio jazia desamparado, sem muro ou sebe que o protegesse contra os animaes e não havia uma cruz em todo o vasto terreno tomado pelas hervas bravas.
Os sacramentos eram alli desconhecidos ; as creanças ficavam com os nomes que lhes davam os paes sem que o baptismo os confirmasse e purificasse, ao mesmo tempo, a almasinha maculada ; não havia noticias de casamentos e, na hora extrema, ninguem se lembrava de reclamar uma vela e a presença de um padre para que a alma, prestes a partir, não sahisse em trévas e carregada de pesadissimos peccados.
O missionario resumiu a sua impressão n'uma phrase : «E' uma grande possilga» .
E era.
Todavia, se o santo homem houvesse seguido um trilho sinuoso que, por entre velhas arvores, levava ao alto de um outeirinho alegre, teria encontrado os lyrios d'aquelle tremedal : dois velhinhos e tão puros que, até se dizia, á bocca pequena, que recebiam no seu casebre visitas de anjos e de santos.
Effectivamente, uma tarde, um velho zagal, que recolhia com o seu rebanho de cabras trefegas, viu, no caminho do outeiro, um lindo moço louro, com azas mais brancas do que as das graças, subindo vagarosamente em direcção ao casebre.
Era um anjo do Senhor e, como os velhinhos nem sequer desciam ao mercado, logo se murmurou na aldeia que o mesmo Deus os sustentava milagrosamente mandando-lhes, por anjos, agua pura e manjares.
Em verdade não se pode levar vida mais santa do que a que levavam as duas creaturas perdidas em tão escuro marnel de crimes.
Sempre juntos, elle e ella, nem desciam ao pavoado para que os seus trémulos pés não tocassem a terra d'aquelles caminhos malditos nem os seus olhos esmorecidos vissem um só rosto d'aquelles hereticos -viviam na moradia solitaria e tão arredados da impureza da aldeia como se estivessem a mil leguas de distancia.
Contente com elles, já por serem virtuosos e, principalmente, porque conservavam a virtude em tão depravado meio, quiz o Senhor recompensal-os generosamente com uma acção de grande misericordia.
Assim, uma tarde, estavam, como de costume, os dois velhinhos, sob uma velha mangueira plantada e tratada por elles, onde as cigarras e os gaturamos cantavam ao cerrar do dia, quando um velhinho, mais velho que elles, abordoado a um bastão florido, com uma sacola ao flanco, appareceulhes como por encanto, pedindo agazalho, exectamente como fez Junipiter, outr'ora, procurando, como peregrino, a Philemon e Baucis.
A velha reconheceu promptamente o bom Deus sob o miseravel disfarce e, numa emoção que a agitou suavemente, sorrindo com lagrimas e tão trémula que nem podia juntar as mãos engelhadinhas, poz-se a louvar o Creador clamando que era indigna de receber na sua miseria Aquelle que governava os mundos e premiava a justiça.
Mas o Senhor, tranquillisando-a, disse-lhe : «Que se ella se commovia por vêl-o alli, á sombra da velha mangueira, mais se commovia a sua Bondade por ter, naquella terra tão envilecida, duas creaturas sãs que lhe abrandavam a colera suspendendo-lhe o movimento de vingança que mereciam gente e terra tão vis» .
E, acceitando a offerta dos velhinhos, sentou-se com elles á mesa frugal da ceia e participou, com appetite, da brôa e d'um pedaço de anho que era tudo que havia no armario pobre.
Ao fim do repasto - já noite negra, posto que o outeirinho resplandecesse porque n'elle estava a propria Luz- o Senhor disse aos seus hospedes que lhe pedissem uma graça.
Os dois hesitaram, encolhidos de vexame, e foi o mesmo Deus quem, de novo, fallou : -Quereis tornar á mocidade ?
Dar-vos-hei a mesma força e a mesma belleza que tinheis quando, na antiga ermida, em presença do cura, vos recebestes como esposos.
O velhinho sorriu esfregando as mãos a pensar n'aquella mocidade ardente e tão bem vivida!
Ah ! como era bom ser moço, poder andar, correr, bailar, subir ao monte, ter força no braço e ligeireza nas pernas.
Ah ! como era bom ser moço!
Por baixo da mesa o seu joelho magro e trémulo tocou o joelho trémulo da velhinha e o Senhor esperava pacientemente com um dôce sorriso na face veneravel.
Então a velhinha fallou : -Senhor, o que a Vossa Divina Graça nos offe rece é, em verdade, um presente divino, só o mesmo Deus, como sois, poderia fazel-o ; mas, se a creaturas vis, como somos, quizesseis permittir a sinceridade, eu vos agradeceria o que nos offereceis com um não respeitoso.
Ser moço é, em verdade, um grande bem mas não depois de haver sido velho -- o que torna a vida agradavel é a esperança e que esperança podemos nós ter quando, com a experiencia de cem annos pesados, sabemos que tudo é illusão ?
Não, Senhor - não queremos voltar á mocidade -a vida é um livro que se não relê.
Já que nos › permittis a escolha eu ouso pedir-vos que nos concedaes a Graça de morrermos sem ancia, no mesmo minuto, para que um não tenha de chorar o outro e não soffra a agonia, mesmo rapida, da solidão e da saudade.
Esta é a graça que vos pedimos, Senhor.
E, Deus, commovido, prometteu aos velhos que assim como desejavam se havia de cumprir.
Disse e logo um clarão illuminou o casebre deslumbrando os velhinhos que entraram a tremer e, quando os olhos tornaram a vêr, o casebre estava como d'antes - em silencio e sobre a mesa ardia escassamente a candeia das vigilias. --Queres ver que foi sonho ? exclamou a velha. -Sim, foi sonho ... affirmou o velho ; mas lá estava um prato conservando ainda um pouco de pão e um pouco de anho, prova de que um terceiro alli havia estado e esse terceiro fôra o mesmo Deus que os visitára.
Tu devias ter pedido a mocidade, disse baixinho o velho ; e a velha, firme na sua idéa : -Foi melhor o que pedi.
Uma semana depois achavam-se os dois velhos sentados sob a mangueira, gozando o fresco da tarde e ouvindo as cigarras e os gaturamos, quando uma nuvem lhes passou pelos olhos.
Ouviram uma doce musica, sentiram um aroma gratissimo e inclinaramse, um sobre o outro, conservando-se sentados e immoveis, sob a velha mangueira cheia de cigarras e de gaturamos.
Logo dois anjos desceram e tomaram as almas dos velhinhos subindo com ellas ao ceu, todo estrellado e com um luar que luzia como se se houvesse preparado no Paraiso uma grande festa para os receber.
Os corpos lá ficaram vasios, no banco, sob a velha mangueira, junto ao casebre do outeirinho e alli o tempo os ha de consumir sem que os da aldeia dêem pela morte d'aquelles justos.
Subiam os anjos com as almas e, de repente, o que levava a da velha ouviu-lhe a voz dôce a perguntar : -E elle ? -Vem perto, nos braços de um cherubim; descança. -Não é uma virgem que o vem trazendo ? -Não, é um cherubim ... -Ah!
E subiam.
Apezar do vôo ligeiro dos anjos levaram toda a noite a subir até que avistaram a porta esplendida do ceu onde uma turba de seraphins desfolhava flôres e esparzia perfumes.
A alma da velha, sempre preoccupada, não se aquietava entre os braços de seu conductor, indifferente aos esplendores celestiaes, só perguntando pela outra.
«Vem ahi» , respondia o anjo sorrindo e assim chegaram á presença dos Thronos que guardam a entrada do Paraiso.
Um d'elles adiantou-se e, tomando a alma da velha, levou-a a um grande santo que se movia entre retortas e alambiques em um immenso laboratorio.
O santo trancou-se com a alma da velhinha e, ao cabo de uns minutos, abrindo de par em par as portas rutilantes, declarou que havia encontrado entre as virtudes, que eram magnificas, 55 °%% de ciume.
Levantou-se uma discussão entre os anjos : uns bradando que o ciume era um feio peccado porque a base do amor deve ser a confiança reciproca, outros affirmando que o ciume era a mesma essencia do amor- Deus decidiu a favor da velha recebendo-a, a sorrir, à sua direita e foi a vez de ser examinada a alma do velho.
Não foi longa a operação e o santo, encarregado do laboratorio ethereo, abrindo as portas, declarou,. carrancudo, que havia encontrado vestigios de um amor impuro.
A alma da velha estremeceu à direita de Deus.
E o santo continuou com precisão a expôr o crime divulgado pela analyse : « Certa noite, na primavera, no caminho do outeiro, descia uma moçoila para a fonte, com a bilha ao hombro quando esta alma toda se agitou n'um desejo ardente e ... » As virgens coraram e batendo azas fugiram espavoridas e a alma da velha tremia à direita de Deus e soluçava : -Ah ! antes eu não viesse ao ceu !
Antes eu não viesse porque conservava a illusão unica da minha vida.
A Rachel!
A Rachel ! ah ! estou a vél-a, a desavergonhada, com a bilha ao hombro, a caminho da fonte ...
Antes eu não viesse ao ceu.
E a alma do velho, entre os dedos do santo, tremia, n'um grande medo.
E osjuizes declararam -«Que aquelle peccado merecia as penas infernaes» .
Ia o santo soltar a alma peccadora quando a outra, a da velha, se pôz a gemer afflicta rojando-se aos pés de Deus : -Para o inferno não, Deus de misericordia ...
Para o inferno não, meu Senhor ! -Louvo a tua caridade, disse o Senhor commovido, porque tens pena d'aquelle que te trahiu ... !
Não queres que pague nas chammas o seu crime ? -Ah !
Senhor, não é pelas chammas, não ...
Pouco se me dá o fogo que là arde ... -Então porque é? perguntou o Senhor e os anjos, cheios de curiosidade, cercaram a alma chorosa da velhinha : -Ah!
Senhor, a fallar a verdade : é porque sempre ouvi dizer que o inferno está cheio de mulheres bonitas.
EUT
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