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A Bico de Pena

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A Bico de Pena

Capítulo 21 · A Bico de Pena

O passado

21 de 45 ≈ 8 min de leitura

Depois de um anno bem longo de apartamento encontramo-nos peito a peito n'um abraço forte que, por muito apertado, como que nos espremeu o coração fazendo com que nos subisse aos olhos uma humidade que o nosso pudor de homens logo seccou -não nos ficava bem chorar na gare d'uma estação atulhada de gente, com tantos olhos curiosos voltados para o nosso lado porque o povo começa a interessar-se pelos seus poetas e alli estava o maior da nossa geração, o suave Bilac.

Olhei-o depois, vagarosamente e, a principio, pareceu-me o mesmo rapaz robusto e sadio do bom tempo- ah ! o bom tempo!-Pouco a pouco, porém, (meus olhos estavam deslumbrados pela emoção) comecei a notar nos cabellos negros do fino cantor das Virgens mortas uns sulcos de rara alvura, uns fios claros como uma teia que se tramasse n'aquelle esplendido negrôr : eram cabellos brancos.

Diabo! disse commigo n'uma explosão de egoismo, somos da mesma edade e se elle tem esse «signal dos tempos» eu o devo ter tambem e, machinalmente, passei a mão pelos cabellos como se quizesse sentir os mortos, os arrefecidos fios entre os que ainda conservam o tom louro da mocidade.

Não os senti, não podia sentil-os, e, confesso, fiquei com um pequenino orgulho como se houvesse reconhecido a minha resistencia maior, mas o amigo, o irmão, como nos fossemos lentamente dirigindo para o carro, lançou tambem um olhar perscrutador á minha cabeça e, como eu, ufanamente, alisou os seu cabellos negros e lużidios.

E puzemo-nos a falar dos amigos distantes.

Emquanto o carro rodava, ia eu pedindo noticias de um e de outro, de certos logares amados e o poeta referia-se aos homens com tristeza, quanto ás bellezas da terra sempre as mesmas, talvez maiores, realçadas por um anno de copiosos aguaceiros e de soalheiras abrazadoras.

Só os homens mudam ... -Mas tu estás o mesmo ... -E tu? ! ...

Como mentiamos !

Eu vira-lhe os cabellos brancos e elle tambem relanceara os meus ; mentiamos ambos.

Quando nos concentramos, no meu gabinete, entre livros, discorremos largamente sobre os dias pas sados-- dias de esperança, sem preoccupações, sem tormentos - havia difficuldades, mas, com que garbo as venciamos e o riso era o clarim com que sahiamos a pelejar, entretanto ... -Francamente, suspirou o poeta, se Deus me propuzesse voltar á mocidade com a condição de repassar os soffrimentos que curti, eu lhe diria-muito obrigado !

Não querias ? -Não.

Pois eu daria alguma coisa para tornar a esse tempo.

Houve um silencio entre nós, interrompido estrondosamente por um dos meus filhos que entrou cavalgando uma bengala.

Emquanto a creança circulou pelo gabinete estivemos calados, logo, porém, que ao appello tartareado do irmão mais moço, esfusiou pela porta, aos brados, n'uma galopada, voltamos ao nosso assumpto. - Queres saber ? trazes apenas da travessia que juntos fizemos as impressões amaveis, ha memorias que repellem as recordações amargas.

Se houvesses lentamente descido pelas barrancas escalavradas d'um abysmo rasgando as carnes nas arestas da pedra, deixando as roupas, que são as illusões, (porque nós andamos vestidos de illusões) nos espinhaes, sangrando, arquejando, simplesmente porque na altura o ar era mais fresco e cheiroso e de lá os horisontes pareciam mais amplos e nas bordas dos rochedos viste flôres de uma côr admiravel e ninhos cheios de pas saros, quererias voltar ao soffrimento e aos receios da descida ? não, por certo.

Pois a nossa vida, no passado, foi isso, senão foi peior.

Nem tanto. -Teriamos de rever os amigos mortos e passariamos pela dôr de os perder de novo, seriamos pungidos pelas mesmas desillusões ... -E os gozos ? -Gozo ! o gozo é o prazer tranquillo que nunca tivemos.

O homem que janta, ás pressas, n'um hotel de estação, não aprecia o que come.

O nosso prazer era um delirio e queres tu a prova? some lois entediados ... -Eu, não. -Tu, não ?

E deixastes o Rio e vieste procurar o silencio d'uma cidade do interior... que é isso senão indifferença ?

O teu prazer hoje é tranquillo como convém-tens a esposa, os filhos, o aconchego seguro, pensas no amanhan- és homem, emfim, e que eras tu ? um visionario que vivias accumulando utopias e colhendo desenganos.

Queres saber? eu não olho para o passado com saudade senão com tristeza e pena do que lá deixei, que foi muito, foi tudo, devo dizer.

Demais, para recordar esses dias extinctos, não careço da memoria-tenho os achaques.

Pensas que venho por essas serras acima por gosto ? não sou alpinista : venho empurrado por esse mesmo Passado que me deixou assim, como vês.

Se me dissessem- volta ao passado e virás suavemente pela vida sem molestias, caminhando sobre libras esterlinas, livre das perfidias, da inveja, do odio mesquinho e das discussões politicas, eu ainda pediria alguma coisa ao bom Deus ... ? -? -Que me fizesse bronco, mais bronco que um penhasco para não ser perturbado na minha felicidade pela intelligencia.

Não ha coisa peior, meu amigo. Ο «Porque ?» é peior que o abutre de Prometheu; querer saber é o diabo.

Não ha nada como a indifferença dos lorpas e das coisas-viver como a agua que e cantando por entre ribas verdes sem se preocupar com o destino - se vae direita ao mar ou se tem de se rebalsar num açude para depois descer a uma azenha e virar a mó.

Isso é que é.

Mas viver a vida vivida com todas as suas vicissitudes, isso nunca !

E queres saber? para mim deve ser esse o supplicio infernal.

Morre um desgraçado e, na outra existencia, é condemnado a repassar todos os soffrimentos que o atormentaram na primeira provação- dôres, falta de agasalho, dias de solidão, noites de insomnia, intrigas, o diabo ... -E tu que não falas d'um só momento feliz ? porque os tivemos ... -Gottas de agua no absyntho. -Que pessimismo, homem.

Isso é influencia do dia que está taciturno, com essas nuvens pardas.

Vamos dar uma volta pela cidade.

Conheces Campinas ?

Já aqui estiveste ? -Sim, em 1892 ... horas apenas. -Pois vamos dar uma volta.

Sahimos.

O dia era triste, nublado; nos telhados das casas corvos negros, pousados n'uma immobilidade de figuras de bronze, concorriam para a melancolia que nos ia encharcando a alma.

Em uma das praças cantava a agua d'um chafariz.

Começou a polvilhar uma neblina fria que ia abrumando o horisonte; amiudamos os passos, corremos curvados, com as golas dos casacos levantadas.

Quando nos refugiamos na Minerva -justamente o caixeiro chegava para o muito conhecido : «Que ha de ser ? » - a chuva cahiu forte, aos jorros, ruflando na vidraçaria e o poeta, sacudindo-se, muito cauteloso, arripiado e arrependido de haver sahido sem o guarda-chuva, resmungou contra o tempo perfido.

«E' o diabo ... esta molhadella agóra ... » -Quê ? estás impressionado ? -Então ? que pensas ? julgas, talvez, que somos ainda aquelles doidos que affrontavamos aguaceiros como o famoso que apanhamos desde o largo do Rocio até á rua do Riachuelo numa noite de carnaval ?

Foi-se o tempo... hoje os medicos nem querem que eu apanhe sereno.

E tu ?

O caixeiro serviu-nos dois grogs.

Lembras-te da tua volta do rio d'Ouro quando lá foste com Moyses Frontin para a maravilha da agua em seis dias ? parecias um d'aquelles barbaros de Arminio descriptos por Tacito. -Se me lembro ! molhado até os ossos. -E nada, hein ? -Fome apenas. -Bom tempo !

E o poeta, talvez para não cahir em contradicção, poz-se a mecher lentamente o seu grog, mas bem que eu lhe notei uma certa ondulação do peito como se elle houvesse engulido um suspiro.

Por fim, não se contendo, disse : -Estamos velhos, meu amigo.

Eu affirmei num aceno, descoroçoado.

E, calados, ficamos a ouvir a chuva que jorrava grossa.

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