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A Bico de Pena

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Capítulo 23 · A Bico de Pena

Um convento fluctuante

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No porto deTaganrog entrou um naviobem curioso: ograndeveleiro Pokrow-Pressiyatya-Bogoradız, que não é senão um convento fluctuante.

Toda a equ pagemé compostade mongesdomonte Athos; o capitão é o P.

Gerassim, superiorda ordem.

Os marinheiros monges trazem vestes eсclesiasticas, porém, apropriadas ao serviço.

O navio é pintadode negro e tem na proa uma grande cruz.

Abordo, o capitão diz missa todos os dias.

Emgeral ahi se observam rigorosamentetodasas regras do convento.

O accesso do navio é interdicto ás mulheres.

Acarga compõe-se de oleossagrados edeobjectos religiosos.

Os monges e os officiaes são de nacionalidade russa, mas navegam sob o pavilhão turco.

Noticia transcripta.

UEM leu as paginas admiraveis consagradas pelo visconde Melchior de Vogüé á Montanha Santa, que forma o fecho de um dos promontorios chalcidicos, rematando, em contraforte abrupto, uma das linguas de terra que, como os tentaculos de um polvo immenso, partem da antiga peninsula macedonica para o mar, não vê sem interesse a curta noticia da peregrinação d'essa náo monastica, abrindo as velas aos mesmos ventos que levaram Argos em tempos mais fortes e mais jocundos, ao som de cantos, com a flor dos pelasgos, á conquista do ouro nas terras de Aétes.

O monte Athos, cuja sombra, espalhando-se nas aguas calmas do Egéo, chegava, no dizer de Plinio, a escurecer as praias de Lemnos, viu formigar a seus pés a chusma asiatica que Xerxes conduzia fragorosamente ; viu mais d'uma vez, em noites claras, passarem, em cardumes, brincando e cantando na vaga, as encantadas filhas de Nerêo ; viu nascerem cidades em torno do seu corpo, viu-as cahirem esboroadas pelas catapultas ; teve, mais d'uma vez, ensejo de admirar as aguerridas phalanges macedonicas, e, uma manhan, olhando d'alto um punhado de homens que formigavam na sua base, descobriu entre elles Dinócrates que propunha talhal-o d'alto a baixo n'uma figura monstruosa na qual o futuro maravilhado visse a imagem do moço Alexandre, dominanador do mundo.

As florestas seriam a cabelleira encaracolada e verde do heroe formoso, as nuvens formariam a sua chlamide translucida ; fontes rebentariam copiosas das dobras do seu manto; nos seus hombros, pelas suas coxas cresceriam cidades, na palma das suas mãos, estendidas e abertas, quadrigas disputariam o premio da corrida e a seus pés fervilhariam emporios colossaes.

O sonho de Dinócrates passou e o monte, aspero, escabroso e altivo, manteve-se o mesmo do antigo tempo, monstruoso e severo como o descreveu Diodoro.

Morreram os deuses, o crepusculo escureceu o esplendor da Hellade e o monte lá está, de pé, nas terras que hoje são da Romelia, onde voaram, em tempo de Trajano, as aguias do Capitolio, levadas, como gerifaltos, pelos vexillarios de Roma e quem agora o governa é o turco barbaro que la mantem, numa aresta de rocha, entre vinhas agrestes e rispidos cardos seccos, o seu representante.

O monte é hoje um silencioso eremiterio : cobrem-no mosteiros atorreados, alguns construidos nos primeiros dias do seculo ix, em pleno esplendor byzantino, outros mais recentes, mas todos rijos, de grandes blocos de granito, lembrando as construcções cyclopicas das primeiras eras.

Nelles habitam os homens santos, os homens virgens que se afastaram, para o sempre, do mundo segregando-se nos alcandores onde não chegam as seducções enganadoras do seculo.

Nas épocas da prosperidade d'essa Thebaida alpestre mais de dez mil monges entoavam antiphonas pelos seus meandros, no fundo dos valles onde se despenham torrentes, nos visos dos cimos, nos pendores dos abysmos, no seio das mattas escuras.

Hoje esse numero está reduzido a seis mil skitas, administrados pelo conselho dos cinco ou epistatia, que elege annualmente, tirando alternativamente d'um convento e d'outro o protathos, ou magistrado supremo do estado monastico.

A população do monte Athos, diz Melchior de Vogüé, é exclusivamente composta de religiosos su bordinados á regra de S.

Basilio.

O uso da carne, do fumo, dos banhos lhes é desconhecido.

Usam invariavelmente um habito negro, de lan, conservam toda a barba e o cabello que trazem em tranças sob altos gorros, d'um tecido grosseiro, copiando a forma do fez.

Seguindo a antiga crença nazarena, não cortam os cabellos : Non tanget caput novacula, como diziam os nazires.

«A particularidade mais curiosa da sua regra é a prohibição feita a toda a mulher, a toda a creança, a todo o animal femea de penetrar no territorio do Athos.

Essas prohibições pueris, para não dizer revoltantes nunca foram infringidas desde que foram dictadas, ha mais de dez seculos : ellas contribuem, mais que tudo, a dar um caracter de singular estranheza a esse canto de terra, posto fóra da natureza, tão longe quanto o pôde levar o furor ascetico » .

E' com tal gente que vae tripulada a não que surgiu no mar de Azov, não com a celeuma alegre que os marujos levantam quando sentem na aragem o tepido perfume da terra proxima, mas ao som triste dos canticos religiosos.

Sebastião Brandt, o grave jurisconsulto de Strasburgo, autor do Narrenschiff, ou navio dos loucos, não foi tão longe com a sua tresloucada phantasia.

As lendas bretans falam de barcos espectros que passam surdamente nas brumas dos dias polares e nos quaes a companha é toda de sombras e a bandeira é uma alva mortalha e vive a lenda do navio do Hollandez errante, acossado por mil tormentas, vogando incerto por todos os mares, mas que são essas creações da satyra e do medo, essa ironia e essas superstições comparadas á verdade que pode ser vista deante do porto rumoroso da cidade fundada por Pedro o Grande ?

Lá está o navio-é um mosteiro sobre aguas : a sua tripulação é toda de monges, a sua carga consiste em oleos santos e em objectos religiosos.

Emquanto está ancorado a maruja mystica póde cuidar serenamente do culto : o gageiro deixa o cesto de gavea, deixa o timoneiro a canna do leme, fecha o piloto a bitacola e, com os pannos ferrados, as vergas estendidas em cruz, a náo atrôa os hymnos.

Sobe-lhe do bojo, em espiraes ceruleas, o fumo aromatico dos thuribulos, tine retine a campainha e a hostia, branca e pura, eleva-se entre os dedos salitrados do protathos navegador, á luz do céo nevoento, defronte da cidade moskovita mas ... vendidos os santos oleos e os rosarios de sandalo, as nominas e as veronicas, as reliquias e, talvez, antigualhas byzantinas e aberto largamente o panno sigamos, mar em fóra, a náo monastica.

Lá vae, prôa altiva, rompendo a vaga, galgando o macaréo ; lá vae !

Range a mastreação, silva o vento nas enxarcias e, em torno do cabrestante passam os monges os cabos ...

Eia! mãos bentas, ala ! iça ! aos turcos a chalupa !

Ala ! e o protathos, energico, brada á companha hirsuta que, marinhando por mastros e mastaréos, surgindo nas escotilhas, caminhando na rede da bujarrona, em faina ligeira, põe o navio á feição do vento até que elle ganha a abordada e parte.

Lá vae!

Se não mentem as balladas do Norte que se referem á existencia de cathedraes e mosteiros submarinos onde officiam bispos e cantam, em côros de nacar, escamosos monges e freiras de olhos d'esmeralda, quando a náo monastica passar na vizinhança de taes templos e conventos, os sinos bimbalharão sob as aguas ceruleas e as sereias christans ajoelharão devotamente nos genuflexorios de coral, sobre esponjas macias.

Não é a peregrinação dos monges que eu lamento- o mar tem encantos que absorvem a alma, quem viaja sonha, mas a terra ?

A terra que se adivinha como uma fellah pudica, encolhida sobre o verde tapete das aguas, toda envolta em gaze, mostrando vagamente os seus contornos, os relevos do seu corpo ondulante; a terra que se vae avistando, ainda indecisa, despindo-se com o vagar pudico de uma noiva, deixando vêr alvuras ; e depois as torres agudas que apparecem, zimborios que rebrilham, vidraes faiscando; por fim a cidade que se vê linda, alegre, resplandescendo, ora verdes planicies ou em avelludados outeiros com o casario alastrando ou subindo, em rebanho, pelos flancos das eminencias e lá, no referver da vida, o espectaculo novo para aquelles olhos cançados de vigilias á luz trémula das lampadas absconsas, da grande, forte e inevitavel germinação.

Não lhes arderá na alma o desejo, filho do instincto, que é o pastor do rebanho dos sentidos ? não lhes pulsará o coração ancioso batendo, como uma machina apressada, a impellir o corpo para o seu destino ?-o polo magnetico do amor não os attrahirá da terra ?

Não, não é a peregrinação pelos mares que eu lamento- as sereias deixaram as ondas que d'ellas apenas conservam a perfidia, as sereias estão hoje em terra firme e têm as suas grutas de coral, não erguidas pelos phalansterios, mas estofadas pelos armadores ; o que eu lamento é a chegada aos portos, é a visão da terra seductora.

Uma mulher que passa na praia cantando levathes os olhos e manda-lhes o seu perfume.

Oh ! o aroma da carne !

Outras caminham ao longe e, á noite, a hora calada das estrellas e das ardentias, quando no porto adormecem as docas, sulca as aguas mansamente um barco e n'elle, unidos, dois vultos trocam beijos.

O monge que vela escuta o crepitar dos labios ardentes, debruça-se à amurada, olha e, extasiado, não se póde tirar d'aquella contemplação allucinante.

Ao longe a cidade, recamada de luzes, fulgúra e um hausto grande, quente, rumoroso como um arquejo, hausto que é a confusão de todos os suspiros que sobem, hausto que é a grande respiração voluptuosa dos que amam, chega ao navio ascetico e os monges levantam-se atordoados como perseguidos por um sonho máo.

Que é !

Que é ! indaga o protathos e todos, lividos, perturbados, trémulos, estendem os braços magros mostrando a cidade ao longe, cravejada de luzes, subtilisando o perfume embriagador da volupia.

E' a cidade !

E' a cidade !

O protathos dá o signal da partida fugindo com pressa ao peccado e, à primeira luz da manhan, pannos todos abertos, bojando á aragem, lá vae a náo velejando a fugir á mulher, levando, porém, como um presente satanico, a acidia, essa melancolia que é uma saudade do mundo, essa tristeza mortal que é uma revolta da carne e que foi assim definida por Frei Luiz de Granada : «He uma frouxeza e cahimento de espirito para bem obrar, e particularmente he uma tristeza e fastio das cousas espirituaes » .

E, recolhendo a não ao porto do Egéo, voltando os monges ás asperezas da sua montanha, mais a acharão deserta e triste, intratavel e mesquinha.

Mas a regra ferrenha será transgredida, não pela presença da Mulher, mas pela obsecação do Feminino apenas e de leve percebido nos rapidos surgimentos naquelles portos onde o amor era livre, na terra e no mar, não só entre os casaes humanos que trocavam beijos mas mesmo entre os animaes.

E, no monte, os delirantes, contorcendo-se raivosamente nos grabatos das cellas, não distinguirão no murmulho do arvoredo o delirio do amor e, se distinguirem, por certo não communicarão ao protathos para que elle, em ira feroz, não conclame as congregações para abaterem, a machado, as depravadas arvores, unicos viventes que ousam, com desfaçatez, cumprir o preceito divino da procreação naquelle eremiterio da esterilidade.

Pobre não de sombras, mais tragica do que a dos espectros alvos que passa envolta em nevoeiros pelos tristes mares mudos da região dos polos.

Pobre não de agonia !

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Sinopse

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