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A Bico de Pena

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Capítulo 24 · A Bico de Pena

A morte do estadista

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Não ha morte que mais commova do que a do guerreiro; basta que a noticia circule para que a multidão se levante empolgada pelo enthusiasmo e deplore, com verdadeiro sentimento, a perda do heroe ; mas o que a agita e abala não é propriamente a quéda do vingador intrepido da Patria mas a série de circumstancias, o conjuncto épico que a torna extraordinaria.

Imagina-se o momento, compõe-se a rhapsodia, á guisa das de Homero, concorrendo cada imaginação com o seu subsidio : «Eil-o soberbo, soffreando o ginete árdego que escarva o sólo, á frente dos exercitos estendidos em linha de batalha. 1 Dr.

Silviano Brandão, eleito para a vice-presidencia da Republica.

«Ao sol que sobe, claro e quente, rebrilham as linguas agudas das bayonetas, fulgem os canhões, scintillam os metaes das fardas.

As bandeiras desfraldadas palpitam anciosamente como aves batendo as azas em ensaios de vôos ; relincham os corceis, vibram os clarins estridulos e elle olha firme, com a espada a flammejar no punho, attento aos passos do inimigo.

«Subito, ao longe, d'entre as hervas, um golfão de fumo nitido arremette, outro, mais outro - atroa o pavido silencio, turva-se o espaço luminoso.

Estralleja e ronca a metralhada rasgando os ares, detonam bombas, crepita a fuzilaria e, d'um lado e d'outro, o incendio cresce, o armistrondo reboa.

«Gritam, guaiam, clamam os feridos, gemem os moribundos e, num momento, ao soar dos clarins, movem-se os cavalleiros erguendo as compridas lanças, fórmam-se os pelotões e elle, acenando aos soldados, parte, á redea solta, levando no rastro do seu ginete a multidão frenetica.

«Lá vae a avalanche em desabalada investida através do fogo cruento, rompendo as sebes de aceiro, deixando a planicie assoalhada de cadaveres, os vallados entupidos de mortos, os marneis encardidos de sangue.

Mas uma bala silva- empallidece o heroe, oscilla incerto na sella, pende-lhe no punho a espada, cerram-se-lhe os olhos e os companheiros, que o vêem sem alento, acódem em seu soccorro.

E' tarde ! a morte turva-lhe a vista, mas a alma heroica sobe lhe ainda aos labios para o derradeiro commando pedindo que prosigam e emmudece abandonando o corpo enlanguecido.

«A soldadesca, ao saber do desastre, assanha-se ainda mais querendo vingar o general ousado e áquelle cadaver, que é recolhido á tenda, fazem os exercitos uma oblação de sangue, só voltando ao acampamento quando o inimigo, espavorido, abandona a acção refugiando-se, desbaratado, entre as suas trincheiras» .

Morre assim o guerreiro, choram-n'o todos os olhos, lastimam-n'o todos os corações, mas comparae a sua morte à d'esse homem que se finou depois de tão longa agonia.

O guerreiro, cahindo entre os bravos, leva na alma a consoladora certeza de que a patria o glorificará porque os actos da sua vida não se reservam em segredos - o homem de Estado vae duvidoso da justiça, entretanto, se compararmos os feitos d'um e d'outro, o guerreiro terá de ceder ao estadista.

Na guerra a commoção de todos inflúe na coragem, ha o estimulo electrisante dos clarins, ha o pean das musicas guerreiras, as vozes que bramam, a artilharia que incita, o fumo que embriaga, e, acima de tudo, a força poderosa do instincto de batalha que arrasta, impelle o mais enfraquecido.

O scenario é vasto, o publico é o universo e no silencio d'um gabinete onde chegam, como projecteis tremendos que vão direito á honra, os reclames do povo faminto, os apodos das facções adversas, os protestos da imprensa, as accusações dos grupos despeitados, os pedidos das camarilhas e os compromissos que trahem a honorabilidade do governo, as campanhas politicas, as urdiduras da intriga, as guerrilhas de campanario, as exigencias absurdas dos directorios, as alicantinas eleitoraes, todas as tramas da administração eivada de vicios antigos nas quaes o homem de Estado se debate como a mosca na teia da aranha perfida, elle só tem um estimulo - o dever.

Se resolve uma questão cria sempre desaffectos, se aplaina uma difficuldade dão-n'o por acompadrado, se consegue um beneficio accusam-n'o de interessado, se protella uma resolução affligem-n'o com injurias, se procede com energia bradam contra o tyranno, se anda com calma e doçura increpam-n'o de pusillanime.

Deixam-lhe os cofres vasios, exigem que os abarrote.

Se restringe os gastos passa a ser miseravel; se desattende, por insufficiencia, aos contractos anteriores, logo lhe assacam os mais infames apodos e não o deixam em paz um só minuto-os amigos com a amizade, os inimigos com os ataques.

Sabe o guerreiro o que tem a fazer, o estadista tem sempre necessidade de modificar os seus planos para attender ás conveniencias-um é o absoluto conductor da batalha, outro é um instrumento do partido; o primeiro só tem um fim : vencer, o segundo precisa attender à victoria e aos meios de conseguil- a fechando, muitas vezes, os olhos ao saque como fez Caio Marcio dentro dos muros de Corioles.

Esse que se finou esteve na trincheira, de pé, até a ultima hora.

Já a molestia o minava, já elle sentia os primeiros crueis symptomas do mal que, antes de o levar, o torturou penosamente, e lá estava trabalhando em silencio, em prolongadas vigilias, para recompor o Estado cuja administração lhe fôra confiada.

Quem via o seu trabalho quando elle o fazia ? ninguem.

Vêm-n'o todos agora, e applaudem.

Elle, entretanto, dirigia a batalha formidavel na qual os exercitos eram de homens pacificos contra a miseria, contra a esterilidade.

Elle ordenava os semeadores nos campos, os lenhadores nas florestas, os mineiros nas minas, os machinistas nas machinas, os faiscadores nos corregos, a justiça no seu tribunal, a instrucção nas escolas, a honra e a fortuna nos lares e a integridade nos lindes do territorio do Estado.

Não viam ou não queriam vêr emquanto elle agia, foi necessario que, com a quéda do seu corpo, a vista se alargasse francamente pelos beneficios que elle fizera para que então o applaudissem e venerassem.

Essas victorias sem brilho são as mais fecundas e esse que morreu de fadiga, sacrificado pelo dever, foi o vencedor de um inimigo terrivel - a inercia, porque deu aos mineiros, povo forte e nobre mas que parece viver ainda numa época pastoral como os hebreus em Ur, a consciencia da sua força e o incitamento para o progresso e, mais feliz que o pastor energico do povo de Deus, succumbiu na cidade formosa que sonhára para ser o centro da vida do poderoso e riquissimo Estado, que vive acabrunhado e pobre dando, entretanto, ao mundo que o explora, os thesouros do seu ventre inexgotavel.

Esse que foi honesto, trabalhador e leal bem merece que lhe dêm por mortalha a bandeira da sua terra porque por ella morreu heroica, abnegadamente ... e pobre.

E esse heroismo da honra vale bem o da temeridade.

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Sinopse

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