Universo da obra
Universo da obra
A tarde ia muito fresca, muito dôce, toda azul, sem névoas.
Já o sol mergulhára por traz dos cerros que resplandeciam como zimborios e cuspides d'uma rica cidade de lenda, toda d'ouro puro, sob velarios tendidos de purpuras attalicas e os ultimos raios solares abriam-se em leque flammejante sobre as lombadas accesas.
As arvores, d'um desenho forte, em nitidos relevos, realçando todos os detalhes, pareciam cravadas na lamina esbraseada do occaso, como bordadas a retroz negro sobre uma téla de seda chammarreada.
Um silencio de extase ia adormecendo o campo raso e extenso que se esbatia em linhas indecisas, nas quaes, a espaços, resaltava, em tom mais claro, o sapé d'uma choça com o terreiro aberto em meio do 232 ABICO DE PENNA pomar, como um resto de luz na penumbra serena do crepusculo.
A estrada direita, alvacenta, desapparecia no bambual que vergava em movimentos demorados, afflictivos, d'ancia e por ella tardo, tristonho, a cabeça baixa, as mãos juntas d'encontro ao peito, vinha vindo um negro.
A' varanda, reverdecida de ipoméas, chegava, na aragem, o cheiro dôce das açucenas que abriam; os grillos começavam o seu canto nas hervas : era a hora das juritys ; quem fosse ao açude havia de vêl-as á beira d'agua, trefegas, esvoaçando assustadiças com turturinos doridos.
Empallidecia ; os cerros tornavam-se escuros, perdiam a côr dourada e uma nevoa fina, rala, subia da terra, envolvendo-os.
Longe, num canto do pasto onde frondejavam paineiras altas, o gado mugia deitado ou esfregando-se voluptuosamente pelos troncos ; borboletas nocturnas vinham vindo da matta pesadamente, num vôo incerto, as azas bambas, atordoadas, como se houvessem acordado-nuvens de mosquitos esfarinhavam-se no ar.
O ceu tornava-se violete, num esmaecido e lustroso tom de porcellana antiga; estrellas piscavam, aqui, alli, dispersas.
Em casa, como se o poderoso mysticismo da hora contivesse as almas, todos guardavam silencio, as mesmas creanças, reunidas a um canto da sala, brincavam baixinho, cochichando e o velho Estevão, com a sua apiançada dyspnéa de asthmatico, estirado na cadeira, os braços abandonados, d'olhos entre-cerrados, deixava-se afagar com volupia pelo ar puro e fresco que entrava, ás bafagens, como em halitos regulares.
Naquelle silencio religioso um som triste permanecia insistente como um zumbido lugubre que impressionava - vinha do lado da estrada, mas os meus olhos estavam retidos na contemplação da matta que negrejava alta, dominando a collina, com as suas grandes arvores cerradas e immoveis.
A lua nascia cedo e era de lá que ella devia surgir como um grande passaro que alli tivesse o seu ninho macio e sahisse, pela hora da noite, remontando silenciosamente aos ares, todo branco na escuridão ferruginea.
Morcegos esvoaçavam aos trissos rispidos, passavam d'esfusio, confundindo-se com as ultimas andorinhas.
O velho Estevão queixou-se do frio, pediu que fechassem a porta e logo poz-se a tossir.
Deixei-me estar ; olhava a matta soberba que era um empastamento negro no fundo esmaecido do céu vesperal mas o som triste attrahiu-me-voltei-me para o lado da estrada que amarellecia entre as duas bandas do campo e olhava quando ouvi a voz anciada do Estevão : «Ahi vem o poeta !» Na collina accendiam-se as casas dos colonos, cabras berravam.
O ceu, sobre a matta, esclarecia, ficava d'uma côr melancolica e no pasto, longe, scintillavam vagalumes como se homens andassem por alli fumando, apparecendo, desapparecendo, escondidos pelas moitas negras.
O som vinha vindo, cada vez mais soturno.
Um raio de luz amarella estendeu-se na varanda e uma voz saudou : «Boa noite ! » ; outras vozes responderam e houve um alarido alegre de creanças.
A natureza, passada a transição do crepusculo, parecia acordar, transformada para uma nova vida, mais calma.
A Luz androgyna voltava para a terra o seu flanco feminino - era a hora creadora, a hora maternal da lúa, hora silente e de amor, hora de iniciação.
O meu espirito perdeu-se em sonhos, reminiscencias de leituras affluiram-me a memoria - éras velhas da Humanidade, mysterios do culto astral, scenas do rito pagão, tão cheio de encantos.
Ergui os olhos- a matta começava a branquear como se um véo fino viesse cahindo de leve sobre as frondes, fluctuando, tenue e solto, entre os galhos ; reappareciam, mais negros, os contornos do arvoredo, destacavam-se os altos e sobranceiros jequitibás e, d'olhos fitos, hypnotisado pela magia d'aquella solemnidade extatica, eu olhava : a luz infiltrava o seu esplendor na densidão florestal, appareciam clarões alvissimos ; lembrei me, então, dos mystas de Orphéo, todos de candidas tunicas, com harpas soantes, as cabeças coroadas d'hera, caminhando maciamente entre os fortes carvalhos da Thessalia divina, graves, silenciosos, seguindo os passos do grande iniciado deiphico para o valle feliz e aromal do Tempé.
A suggestão poderosa da reminiscencia trouxe a illusão completa- era o paganismo poetico que eu revivia n'aquelle suave minuto rapido de sonho.
Diana evocava em minh'alma o seu culto, a Lua, antiga e fiel companheira das peregrinações e dos amores humanos, a Lua dos Thracios selvagens, a triplice Hecate sanguinolenta empolgava-me como se o seu poderoso philtro se fosse espalhando pelo sangue das minhas veias fazendo-me passar como a natureza, numa transição suavissima, da grande Luz das idéas novas para o frio pallor dos ideaes primitivos.
Eu alli estava com o mesmo enlevado respeito e o mesmo encantamento com que na rocha escura e escalvada da agreste Samaria o pastor emorita do tempo de Yoakanan e de Jesus, vendo o primeiro clarão do astro nocturno, ficava de pé, com o queixo na volta do cajado nodoso, entre as cabras do seu rebanho e, ao ascender da lua no ceu livre e-pallido, bradava atroadoramente, como por uma buzina : «Eschmún !
Eschmún ! » acenando com a grossa e pesada lan de ovelha que lhe servia de agazalho na caverna fragosa.
Astarté dos phenicios, branca, celestial amiga dos navegadores ...
Eu estava assim enlevado quando o som soturno subiu de perto ; um vulto caminhava rente com a varanda : era Terencio, velho africano que alli estava tocando o seu urucungo ; ás vezes sapateava resmungando e lá ia d'olhos altos no ceu ...
Era o «mina» , o homem da selva negra, que festejava ritualmente o astro contemplativo ; era o barbaro que celebrava, á sua maneira, o culto da natureza luminosa como, talvez, ainda colebrem nos mattos bravos ou no terreiro das aringas os seus irmãos africanos.
Calou-se de repente e houve um silencio maior e, sobre as arvores, a lua immensa surgiu, alastrando a campina vasta de claridade.
De repente, Christina, abrindo a porta, sahiu á varanda entre as creanças que saltavam e riam e, levantando nos braços o pequenino Carlos que ria gostosamente derreando- se, mostrou-o á grande lua serena.
Olha lá em cima, meu filho! olha ...
E, sacudindo-o, poz- se a cantarolar : Lua, luar Tomae este menino E ajudae-me a crear ...
As creanças, aos saltos, com as camisolinhas tufadas, repetiram : Lua, luar...
Por fim, Christina, n'um phrenesi amoroso, apertou o filhinho nos braços e beijando-o com voracidade, sacudindo- o, agarrado ao collo, lá foi com elle, a correr.
As creanças ficaram brincando e o velho negro, sentado no ultimo degráo da escada, voltou ao seu uruncungo e ao seu canto e eu deixei me estar olhando, olhando e, como eu, no terreiro, uma mulher, de branco, olhava o ceu e a lua - alguma colona talvez ... que pediria ella ?
Quando deixarão de atravessar as almas entristecidas esses queridos espectros das primeiras crenças!...
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