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A Bico de Pena

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A Bico de Pena

Capítulo 29 · A Bico de Pena

Arte

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Acompanhae um grupo de homens a uma galeria de pintura, entrae com elle, tanto que chegardes ao salão logo o vereis dispersar- se buscando cada qual, não a pura emoção esthetica mas a representação de uma «realidade» conhecida.

Não é o instincto do Bello que os conduz, é o instincto da Critica.

Um, que foi militar mas que nunca desembainhou a espada, senão em vesperas de revistas para esfregar a lamina com uma camurça, detem-se, muito grave, de olhos apertados, em frente d'uma «batalha» , commentando, com a sciencia d'um estrategico, a posição do exercito, as attitudes das figuras ; explicando os diversos apetrechos bellicos, analysando a expressão de cada um dos combatentes.

Outro, que viajou commodamente em um paquete do Lloyd Bremen, estaca deante de uma «marinha» , a comparar o navio que veleja a todo o panno por um vasto e roleiro mar cortando o quadro em diagonal como para mostrar o flanco no qual a onda se acapella com o outro em que fez a travessia e recorda, calado, aquelles dias, aquellas noites de viagem, vendo na téla uma referencia ao passado feita com o proposito de despertar reminiscencias boas.

Outro, com as mãos nos joelhos, fica acocorado a olhar uma natureza morta: perdizes e lebres.

O homem é caçador e busca nos animaes o tiro apenas.

Mais adeante certo cavalheiro, de ar sizudo e oculos de grossas lentes, o sobrecenho carregado, fita umas lindas arvores-está a classifical-as, descobre-lhes as familias, quasi que lhes fala, porque, emfim, na sua qualidade de botanico, é quasi um intimo.

Mais longe, um saloio rebarbativo coça o queixo e, risonho, confessa que -- « repolhos d'aquelle tamanho elle nunca os teve na sua horta» e toda a sala murmura approvando, criticando.

Só, deante de uma paizagem mystica-um trecho de campo á hora crepuscular sobre um fundo violete de collinas nubladas -um rapaz, por vezes eleva os olhos como em extase, torna depois com elles á paizagem, eleva-os de novo, um instante, gosando introspectivamente a visão ou tirando da natureza exterior, material, a mesma essencia subjectiva, o que ha de suggestivo, de divinamente poetico em toda a realidade.

Esse é o unico que gosa os mais olham, comparam as simples representações de factos, de coisas e de aspectos.

A verdadeira Arte é desinteressada como o verdadeiro amor e procura na natureza não o que ella tem de util mas o que ella tem de Bello-d'ahi essa constante tentativa dos artistas para alcançarem o que se convencionou chamar o Ideal, que é para a Arte o que Maya é para a mythologia hindú - a suave, a eterna illusão.

A poesia, que é, afinal, a alma de toda a Arte - melodia na musica, emoção na pintura, expressão na esculptura, symbolismo na architectura, graça na dança, é uma idyosincraria e, por isso mesmo, variavel.

Ha uma só poesia mas os meios de representação multiplicam-se -não ha aspectos, ha impressões.

A poesia de Hesiodo differe essencialmente da poesia de Barbier, como a do Dante diverge da de Lamartine, todavia ninguem ousará negar ao auctor dos Imbos e ao poeta sentimental da Queda de um anjo o sentimento lyrico que é a fonte da verdadeira Poesia.

Se compararmos uma tela de Fra Angelico com uma fantasia de Callot acharemos em ambas a mesma essencia poetica, a interpretação é feita, porém, de accordo com a personalidade de cada um.

O motivo dorico de um côro antigo e a Adelaïde de Beethoven, uma canção de galiongis, do Bosphoro e o Adeus ao cysne, do Lohengrin, são variações differentes dos mesmos sons - a escala é uma só.

O que varia substancialmente é a forma, a essencia é immutavel ; para sentil-a, porém, é necessario não ficar superficialmente na representação mas descer á intenção : vêr não é olhar, é comprehender : é sentir com os olhos.

O artista fiel não deve imaginar a natureza, deve sentil-a.

Ruskin, o grande revolucionario da Arte ingleza, pensava assim: «Para que mentir, se a realidade é admiravel ?» Na esthetica ruskiniana tudo é Bello - o «Bello é a assignatura de Deus nas suas obras» .

A belleza é caprichosa : para transformar toda uma paizagem basta um raio de sol e o mesmo trecho de bosque, visto em horas differentes póde, na téla, com a poesia propria dos momentos-porque cada hora tem a sua expresão - dar impressões diversas, interpretado por artistas de genio.

A côr é sempre um reflexo da luz e não a realidade da visão, a palheta é um relogio e os pinceis variam como os ponteiros seguindo o esplendor ou as sombras.

A luz de um quadro é sempre motivo de controversia.

Os que não sabem vêr revoltam-se indignados contra certas ousadias um fundo de serras côr de rosa, uma agua arroxeada, certo tom violete recorrendo pelo tronco rugoso de uma velha arvore, uma nuvem coruscando no occaso como uma lingua de fogo, a nevoa azul deixando vêr em transparencia suave, a natureza que adormece ; perfis de choças, rochedos esbatidos, bosques que se confundem em uma unica mancha d'um tom cinereo-escuro, e lá ao fundo, aguda e branca destacando-se vivamente, uma torre fina.

Essas temerarias ousadias ferem a visão commum e provocam os protestos- «não ha taes côres, montes côr de rosa, aguas como feitas de violetas diluidas, nuvens côr de fogo, ares azues, absurdo, erro, asneira ! » E, por mais que o artista affirme que viu aquelles aspectos, que copiou fielmente aquelles effeitos de luz, a revolta continúa, simplesmente porque o critico não teve a fortuna de admirar, na realidade, aquellas magnificencias que lhe parecem exageradas como se a Arte podesse exceder em belleza a natureza.

O que os olhos não vêem o espirito não póde comprehender, affirmam os intransigentes ; entretanto, acceitam, sem discutir, todas as affirmações da Sciencia.

O mar que os nossos olhos vêem é uma verde planicie e ninguem hesita em acceitar a sua curvatura ; os astros que a nossa vista alcança são pequenos pontos luminosos e não ha quem nelles não veja outros tantos mundos -uma refracção na téla é absurda, um poente de ouro é fantasia e a analyse do espectro é uma verdade que todos acatam porque traz o prestigio da Sciencia.

Toda a obra de Arte que commove é verdadeira, porque só a verdade impressiona e suggere, assim, pois, faça-se a critica com a emoção, não com a preoccupação.

Ninguem analysa o sol que atravessa os escassilhos da folhagem, nenhum critico ousará achar escandaloso o verdigae dos fetos na orla bronze-negra d'uma floresta nem se dirá que uma garça de neve pousada em uma boia escura foi um arranjo da natureza; entretanto, taes motivos num quadro, fariam logo a critica vociferar contra o convencionalismo.

Em arte só ha um fim- éo Bello, e quem o attinge, impõe-se.

Todos os processos, todas as escolas dirigem-se para a mesma conquista da verdade esthetica.

Que importa que o artista tenha uma das tres preoccupações : da côr, da luz ou da linha ? vejamos se satisfaz na realisação, se nos transmitte o seu « assumpto » , se nos faz sentir emoção, que é o fim essencial da obra de arte.

Seja a maneira adoptada a do Perugino ou a do Caravajo, traga a suavidade de Fra Angelico ou as sombras carregadas do Espagnoletto ou seja o assumpto de pura idealisação : uma virgem aerea entre lyrios esguios, fluctuando em brumas ceruleas, fugindo e deixando um rastro de luz fina no caminho percorrido, mãos postas, olhos extasiados, uma aureola a illuminar-lhe a cabeça pequena como as das figuras quasi fluidas dos preraphaelitas, não entremos a desfazer em analyse o trabalho, pedindo o claro escuro, diluindo as sombras ou reclamando proporções para as flores, transparencia para as aguas, musculos fortes para a figura - contentemo-nos com a impressão.

Essa pintura dos preraphaelitas, como a musica de Wagner, é uma «ideação » - ambas são falsas para os que não admittem a intervenção d'uma arte no dominio de outra, porque, dizem elles, julgam poder dispensar a palavra-impondo-se como expressivos poemas de côr e de som.

Eu sou dos que não indagam se a invasão é admissivel-preoccupo-me apenas com a emoção que me causa e, interpretando, góso e gosando satisfaço-me.

A proposito da exposição do artista brasileiro Aurelio de Figueiredo, que foi, durante alguns dias, hospede de Campinas, muito se discutiu a nova maneira que vae avassalando os velhos processos da pintura.

Entre os 38 quadros expostos no salão do Centro de Sciencias, Lettras e Artes, dez filiam-se à luz- são quadros de esplendor-em todos elles brilha o sol, em uns com o rigor da manhan, em outros com a saudade crepuscular e essa luz farta derrama- se esplendidamente pelas télas, transfigurando a paizagem que, olhada de repente, offusca, mas contemplada, sentida, expondo todos os seus detalhes, transmitte o sentimento que nunca mais nos deixa e que fica no espirito, forte, eterno, como a «idéa» de um poema ou o «som d'uma voz adorada » , ou, como diz melancolicamente o poéta saturnino : L'inflexion des voix chêres qui se sont tues.

Deante de um dos quadros intitulado Tarde fluminense disse alguem, com sinceridade : -Sim, eu sinto bem a hora, sinto o transmontar do sol que deixa um resto de luz rosea nas montanhas, vejo que é a tarde, mas ... não comprehendo essa côr.

Acho tudo bonito mas não percebo; não sou capaz de exprimir o que sinto.

Nunca vi uma montanha côr de rosa ... -Mas, já procurou vêr uma montanha á hora do occaso, com os restos da luz que se vão diluindo em sombra ? -Não ...

Sinto a tarde, isso sinto ... -E quantas vezes terá o senhor detido o andar olhando um ceu afogueado, arvores polvilhadas de ouro, aguas lampejando como laminas de prata, lombos de rochas faiscando e depois tudo arroxeado ... -Sim, sim ...

Então ?

Se visse isso mesmo em um quadro que diria ? -Não sei.

Esse «não sei ... » diz tudo.

Nessa nova «maneira» do artista ha o triumpho esplendido da luz - a natureza é clara e é justamente essa alacridade que parece um defeito, o que nós condemnamos é justamente a verdade --é o sol que veste de purpura os rochedos, que chammeja nas nuvens, que recenna os arbustos, que scintilla nas aguas e que polvilha de bruma dourada os ares finos.

Os nossos olhos como que não sentem a impressão da arte, os quadros são como os postigos e o que vêmos entre a moldura, como na abertura d'uma janella, é a propria natureza luminosa-é a manhan, é o meio-dia, é a tarde é a luz, emfim, em todos os seus aspectos, a cor em todos os seus matizes.

E a falta dos tons fortes, os toques pastosos, as manchas largas á espatula, as tintas superpostas, toda essa grossa placagem que dá ao quadro a rugosidade aspera de cascas esborcinadas é substituida pela suavidade harmonica dos esbatidos, pelos contrastes que não ferem como não ferem na natureza, pela doçura que ha em toda a verdade, quer ella seja uma flôr, quer seja um penhasco anfractuoso e nú.

Demais o que ha nessa pintura luminosa que logo impressiona é a poesia das coisas que se espalha de todas aquellas télas como o perfume se evola de um ramo de flores - com a naturalidade de uma respiração.

A Arte não é a copia servil, é o sentimento ou a adoração da Natureza, como disse Ruskin.

A obra de Arte não é bella por isto ou por aquillo, é bella porque é bella.

As regras são apenas caminhos e que nos importa que o artista tenha seguido por uma trilha por elle mesmo aberta se chega ao ponto em que se reunem os mestres ?

Em Arte só ha um processo mau- é o do trivialismo, e infelizmente é esse o que mais admiradores tem.

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