Leia agora
A Bico de Pena

Universo da obra

A Bico de Pena

Capítulo 40 · A Bico de Pena

O Ney

40 de 45 ≈ 11 min de leitura

REALISOU- SE, no cemiterio de S.

João Baptista, no Rio, a piedosa ceremonia da exhumação dos ossos de Paula Ney.

Eu estava presente quando as «maxillas do sepulchro » se fecharam sobre o corpo do generoso bohemio.

A tarde era linda, uma tarde fresca e dourada.

O arvoredo funéreo estava cheio de cigarras e, no alto e negro cruzeiro, brilhava ainda uma faixa de sol.

Eramos poucos, todos amigos do que ia ficar no seio da terra e, silenciosamente, como se adubassemos o alqueive que recebera a semente, iamo-nos transmittindo a pá de cal antes que a terra incubadora rolasse fechando o tumulo; depois recuamos e os coveiros começaram o seu triste serviço.

As cigarras cantavam, alegres coephoras que, dos altos ramos funeraes, diziam adeus áquelle irmão que tambem atravessára a vida descuidado, sem pensar nos invernos agrestes que trazem a fome.

Cantavam, nem deviam chorar porque a morte föra para o excellente rapaz um descanço-tão consumido andava elle e tão triste, como um principe que houvesse perdido o seu reino.

Nos ultimos tempos tornára-se melancolico, silencioso, raro em raro atrevia um commentario.

Encostado á porta do Paschoal, os olhos parados e tristes, ficava horas contemplando a multidão negando-se aos convites.

A alguem que com elle insistia, uma tarde, para que fosse beber um vermouth, respondeu : --Obrigado, meu amigo-não posso acceitar : estou sem espirito ; e encaramujou-se amuado.

Dias antes da morte, indo eu visital-o, elle chamou-me para junto do leito em que jazia, estendeu-me a mão fria e magra-mão generosa que era como uma ponte de misericordia entre a riqueza e a miseria, porque recebia dos banqueiros para dar aos pobres, e ficou a olhar-me- enternecido e mudo, com os olhos a encherem-se-lhe de lagrimas ; e disse, com uma voz surda e aspera, arrancada, a custo, do fundo do peito: -Estou acabando, meu amigo.

AMorte, em mim, está procedendo por partes : estou assistindo a uma mudança.

Ella começou pelos extremos : tenho os pés frios, tão frios que não os sinto-estão mortos: pa rece que estou soterrado em neve até à cinta.

Não como, não tenho appetite...

Isto cá por dentro está vasio-os organs essenciaes já perderam a energia, a Morte levou-a.

Estou agora sentindo que arrastam alguma coisa no meu coração.

Ah! não ha de ser facil a remoção nesse organ, é que nelle eu tenho os moveis mais pesados : o coração era o gabinete de trabalho de minha alma.

Imagina o mundo de affeições que nelle eu tenho ... !

E suspirou : Como deve pezar o meu amor de filho, velho amor que nasceu commigo e que a saudade foi, aos poucos, augmentando.

Minha pobre mãe !

E os outros amores ! meus filhos, ella, vocês, o sol, as creanças ... tudo isto ! ...

Quando sahem das casas os moveis pesados, o soalho, por onde elles são levados de rastos, ficam vincados... é o que se está dando no meu coração.

A Morte é brutal, meu amigo ... que execução dolorosa!

Como ella arrasta e como é lugubre o vasio que se vae fazendo em mim... !

Nunca imaginei que aminha vida acabasse assim, com um mandado de despejo.

Sorriu tristemente e recostou-se nos travesseiros altos.

Depois, tocando na garganta, continuou : Ouves a minha voz ? está rouca.

Tu que a conheceste sonora deves ter pena da sua miseria actual.

A Morte quiz leval-a inteira, não pôde e fez com ella o mesmo que se faz a um grande movel: desarmou-a e lá a vae levando aos pedaços.

Foi primeiro o timbre - estou fanhoso, foi depois a ductilidade, estou aspero resta-me o sarrido : falo como um asthmatico.

Em pouco a Morte estará no cerebro abarcando as idéas e a divina Fantasia, que occupa o altar-mór.

E' triste morrer assim, aos arrancos.

Cahir fulminado ! eis o meu ideal.

Emfim...

Quedou, cruzando as mãos.

Que ha de novo ? perguntou de repente, repuxando as cobertas.

A Poesia indigena continua a proliferar ? e a Politica ?

E as mulheres ? -Tudo como deixaste, Ney. -Não é possivel : a imbecilidade deve ter produzido alguma coisa nova.

Fala-me dos imbecis para que eu saia da vida sem saudade.

Abriu os olhos como em ancia e, surdamente, soerguendo-se, exclamou : Meus filhos!

Que ha de ser d'elles ?

Ah ! meu amigo, o que dóe na morte é o desprendimento : os amores são as nossas raizes.

Eu vou tranquillo-já dei balanço na vida : tenho um grande saldo a favor da alma e a benção d'um sacerdote honesto ... mas os pequenos ?

A Caridade anda muito atarefada e falta-lhe um reporter... como eu.

Emfim ...

Deus está lá em cima e eu que tanto consegui dos homens hei de conseguir alguma coisa do Senhor, não te parece?

Quando me despedi elle exclamou, conservando a minha mão : Adeus !

Eu disse : «Até logo ! » O moribundo sorriu : Até logo ! vaes suicidar-te ?

Adeus !

Adeus !

De repente, com os olhos rebrilhantes, como se nelles houvesse renascido a antiga centelha, fitou-me e, rindo, com todo o corpo a tremer, pediu me : Olha, vê se contens F.

Eu sei que elle anda a compôr um necrologio para recitar á beira do meu tumulo, volta e meia está aqui a rondar-me, a beber inspiração.

Comprehendes que na minha posição de defuncto, que é, com pouca differença, a mesma de uma victima do retrato a oleo, tenho de aturar resignado, mas vocês, meus amigos, que vão apanhar a maçada de uma viagem ao cemiterio... não !

Aquelle canalha, que nunca conseguiu impingir-me um discurso, é muito capaz de aproveitar-se da minha morte para vingar-se ... masa pilheria é que eu não ouço.

Em todo o caso, por causa das dúvidas, não deixes falar senão depois que os coveiros houverem entupido a minha cova.

E rimos.

Dois dias depois extinguia-se serenamente o grande espirito.

As suas ultimas palavras foram ainda de piedade e fantasticas.

Voltando-se para um dos amigos que o cercavam, rouquejou, referindo-se ás crueldades praticadas em Canudos : -Que hei de eu dizer ao Eterno quando elle interrogar-me : «Ney, como é que em teu paiz ha um homem que enfurna mulheres e creanças para matal-as a kerozene ? » Confesso que, pela primeira vez na minha vida, quero dizer, na morte ficarei sem resposta ...

Logo depois, vagarosamente, arquejando, murmurou : D'aqui a pouco estarei como o meu alfaiate : cadaver.

E assim desappareceu o genio da pilheria.

Paula Ney, cuja vida foi sempre mysteriosa, era conhecido em uma roda muito restricta-o bohemio, esse era intimo do povo: o banqueiro e.o operario, a matrona e a cocotte, o fidalgo e o mendigo tratavam-no com a mesmafamiliaridade-era o Ney, o alegre Ney, que fazia rir, mas o verdadeiro Ney que exugava lagrimas, que levava creancinhas doentes aos consultorios dos medicos, que guiava os cégos nas ruas, que visitava enfermos em verdadeiras tócas de miséria, que fazia enterros á sua custa e que defendia os animaes com o carinho piedoso de um brahmine, esse só era conhecido no reduzido grupo dos companheiros.

Trabalhavamos, uma vez, na typographia Reynaud, onde era impresso O Meio : Mallet, escrevendo de pé, com o grande chapéo mosqueteiro, um immenso charuto a fumegar ao canto da bocca, eu redigindo vagarosamente uma nota escandalosa, Ney, a vociferar contra a «sandice universal» quando assomou á porta uma velha, muito encarquilhada e timida.

Ney, logo que deu por ella, precipitou-se e lá se ficou todo curvado cochichando, a gesticular com o pince-nez.

De repente bramiu : -Não senhora!

Ha de ser no sabbado, neste sabbado ... senão ... e rugiu ameaçador : metto-o na cadeia, a ferros.

A ferros !

Vá e diga-lhe isto : a ferros !

E, tomando a velha pelo braço, inclinou-se e berrou-lhe ao ouvido :-Olhe, minha senhora, isto é uma canalha.

Mulher não é melão que a gente cala para vêr se está maduro.

Diga-lhe que no sabbado, ás quatro horas, quero encontral-o prompto para a cerimonia.

Os papeis estão arranjados, o padre está falado.

No sabbado! nem que chova raios, entendeu ? senão demitto-o e metto-o na cadèa, a ferros.

Elle sabe que sou homem para mais.

Vá.

O veu eu levo para salvar a moralidade do caso.

E despediu a velhinha.

Interrompendo, então, o nosso trabalho, esbravejou :- Commigo está está enganado !

Mallet voltou-se curioso : -Que é?

De que se trata ?

Quem é essa velha, Ney? -Hein? a velha? quem é? homem, com franqueza... sei que é uma velha que a compulsoria obriga a ser virtuosa.

Procurou-me, ha dias, lavada em lagrimas, pedindo-me que lhe salvasse a filha, uma linda pequena que abalára de casa com um amanuense.

Puz os meus galfarros em campo e consegui descobrir o terno casal num chalet, no Engenho Novo.

Entrei pelo ninho amoroso como o proprio symbolo da Honra e bradei : - «Olá, amiguinhos, não compromettam, a um tempo, com tamanho desplante, a grammatica e a moral: o verbo amar é regular, nada de excepções arbitrarias ... » e, intimando os pombinhos em nome da Lei, trouxe a pequena e dei ao marmanjo quinze dias para tratar dos papeis, sob pena de ser demittido e metttido a ferros, numa fortaleza.

Ah! porque se fôr preciso, vou a S.

Christovam, lanço-me aos pés do imperador pedindojustiça.

O typo anda a adiar a coisa e hontem foi pedir moratoria, a pretexto de falta de dinheiro.

Ha de casar no sabbado, mesmo porque eu sou o padrinho e a pequena não tem tempo a perder.

Ha de casar no sabbado ! -Mas que diabo tens tu com isso, Ney ? -Que tenho! hom'essa !

Não tenho nada ... mas é um desaforo.

Que tenho ! ...

Tenho irmans, sabe você ? tenho irmans ...

Effectivamente, no sabbado, ás 2 horas da tarde, o Ney apresentou-se na typographia enfarpellado para o casamento e com um lindo bouquet de cravos brancos.

Cabem-lhe perfeitamente as palavras com que Philarète Chasles traçou o caracter extranho do poéta do Intermezzo : <<Heine est peuple ; il est bohemien, et il l'avoue : bonhomme et médisant, il en convient.

Mais il est homme.

Il est même vulgaire à bon escient et j'aime mieux cela.

Il pleure, il rit, il se desole.

Redoutable et toujours présente, mobile, incertaine et s'égarant sans cesse, en lui vit éclate et flamboie, comme le feu follet sur les marais, la flamme de la passion sincere» .

Os que leram a noticia da trasladação dos seus ossos e que só conheceram o Neydas satyras explosivas e dos paradoxos flammejantes muito devem ter pasmado sabendo que a Provedoria da Misericordia resolveu realisar aquelle meigo transporte em lembrança dos muitos e grandes beneficios prestados á santa instituição pelo grande estroina que parecia rir de tudo e que passava os dias ás portas das lojas da rua do Ouvidor, não raro a pedir para os outros.

Generoso Ney, só os que privaram comtigo pódem falar da tua caridade mas não serei eu quem desvende os teus segredos.

Descança em Deus, tu que foste o melhor de todos nós, o mais escandaloso e o mais meigo, o mais implacavel e o mais terno- abelha dourada que distribuia o mel e as ferroadas com a mesma liberalidade.

Descança emDeus, puro espirito.

A Bico de Pena

Sinopse

Leia gratuitamente A Bico de Pena, de Coelho Neto, obra brasileira em domínio público com fantasias, contos e perfis organizada para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi saneada a partir de fonte pública preservada no Wikimedia Commons/HathiTrust e conferida com o registro do Domínio Público/MEC, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978659467126919848656056
A Bico de Pena

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

A Bico de Pena

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de A Bico de Pena

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral A Bico de Pena Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 40 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de A Bico de Pena

Todos os capítulos 45 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir