Universo da obra
Universo da obra
A vida extraordinaria d'esse robusto e alegre Steelman é das que se prestam ás urdidas e complicadas paginas dos romances de aventuras, com imprevistos maravilhosos, rasgos admiraveis de energia e audacia e prodigios a cada passo.
Steelman tem sido tudo, conhece todos os gozos e não ha dôr nova para os seus nervos.
Foi tatuado na Tartaria : desenharam-lhe nas costas os mysterios da vida de um lama e inscreveram-lhe no peito, com um sortimento de finas e compridas agulhas, em tres espaçados mezes de tortura, um dos quatro livros da Moral de Confucio.
Em Smirna teve uma cultura de balsamo ; foi pastor de camelos no Teheran ; cortiu pelles numa aldeia pestifera da costa do Mar Vermelho ; conduziu hostes negras d'uma aringa ao deserto onde destroçou um bando rapace de beduinos que incendiava as culturas e furtava o gado, prégou num templo buddhista, passou sob a terra, nas margens do Ganges, com uma plantação de aveia a brotar sobre o tumulo em que o encerraram, vinte e tantos dias, sem soffrer, sem sentir, dormindo tranquillamente «no seio da morte» .
Numa povoação Thibetana, que era um immenso oasis de palmeiras, esteve nú, com uma leve tanga em torno dos rins, as mãos rijamente ligadas por uma corda de fibra de coqueiro, a cabeça curvada sobre um cêpo, sob o gladio reluzente e curvo de um fanatico.
Livrou-o da morte um prodigio do qual ficou referencia memoravel numa lage, em caracteres eternos, gravados fundamente, a ferro.
Na occasião em que o carrasco, agarrando, a mãos ambas, o alfange largo, derreava o corpo para vibrar o golpe, uma cegonha, passando no ar, deixou cahir do bico uma flor sobre a cabeça da victima.
O carrasco ficou como de pedra, a olhar; a multidão tremeu e, repentinamente, com uma algazarra que chegou ás montanhas, onde os penitentes queimavam lenhas aromaticas, entre cedros frondosos, as mulheres, numa furia, descabelladas, aos ululos, arremetteram, derrubaram o carrasco, remperam, a dentes, as cordas rijas e, carregando Steelman, nú e pallido, entraram com elle no povoado, acclamando-o e, com a noticia do caso, appareceram adoradores, houve idéa de exigir-se um templo ao homem da tez rosada, moveram-se, dos mais fundos desertos, peregrinos com presentes e Steelman ficou como um deus, adorado, principalmente pelas mulheres, que The pediam fios de cabellos e da barba loura, razão pela qual esse homem admiravel é calvo como Socrates e glabro como um hierophanta.
Nessa terra de trato rude e velhissimos custumes andou elle, dous annos, representando uma divina hypostase, e, o que maior tédio lhe punha nalma era não poder caminhar livremente porque, se apparecia nas viellas, com ancia de ar, logo o povo correndo atropelladamente para forrar-lhe o caminho com as tangas, prostrava-se no pó da terra, secco e immundo, com um murmurio de resa, beijando-lhe os pés nús, as canellas núas, todo o seu corpo nú e elle tinha de seguir vagarosamente, rompendo aquella difficil muralha de homens, de mulheres e de creanças, babujado por aquellas boccas, beliscado por todos os dedos que não lhe deixavam um pello curto nas carnes .
Só os cães se animavam a fital-o, alguns mesmo rosnavam farejando-lhe as pernas e elle voltava á sua choça derreado, com o braço direito pendido e esmorecido de tanto sacudir bençãos sobre as cabeças devotas, sobre os mirrados campos para que se cobrissem de milho, sobre as aguas escassas para que não cessassém de correr e ainda pelos ares para que os não toldassem as nuvens de gafanhotos.
Fugiu, com odio e nojo, áquella gente espessa descendo o rio num barco de couro com uma rapariga e, chegando a uma cidade, já ingleza, onde havia gin e policia, respirou largamente, com satisfação, quando se viu entre as mãos de quatro policemen severos por causa da sua nudez divina, contraria á moral e ás leis inglezas.
Metteram-no em uma prisão sordida onde passou uma semana, entre um fakir bebedo e uma velha do deserto, douradora de viboras, que chorava e cantava versos de Firdusé.
Steelman, na possilga, não se cançou de render graças a Deus que o livrára d'aquelle martyrio da adoração, restituindo-o á vida, com as suas leis exigentes, os seus carceres sujos, as suas inflexiveis justiças e os seus grogs.
Na Russia Steelman comprometteu-se no nihilismo alliando-se, em pacto tremendo, aos impulsivos do otchaïanié.
Fez-se apostolo da regeneração, adorou o mujik e preparou uma bomba que explodiu á beira da linha férrea dois segundos depois da passagem d'um trem imperial e, uma tarde, á margem do Neva, depois d'um conflicto, foi espesinhado por um esquadrão de cossacos ficando sobre a neve, com o corpo em pandarecos, e uma costella a pedir sólda.
Na Polonia, em Varzovia, foi do partido dos libertadores e escreveu pamphletos com o peseudonymo de Kosciusko.
Foi membro da Mafia, na Italia ; na Inglaterra alistou-se na « Salvation army» ; em França ateiou uma jacquerie, abafada a tempo ; apedrejou conventos na Hespanha, dirigiu uma grève de cocheiros em Portugal, tentou incendiar o harem de Constantinopla...
Mas, a sua aventura maior foi em Dakar.
Saltando nesse porto com a sua insaciavel curiosidade de homens e de paisagens, foi seguindo, ao acaso, por entre choupanas e lixo, repellindo cães e negrinhos, a vêr, a informar-se, debuxando no seu album trechos da terra secca e miserrima, negralhões em camisolas folgadas, negras de grandes e pendurados beiços, tetas molles e chatas e carapinhas altas como cocares .
As casas, umas lócas, eram acaçapadas, algumas arriavam os muros frageis fendidos, arrimando-se ás arvores.
Uma poeira quente embaçava o ar e, do labyrintho lobrego d'aquella immensa aringa, sahiam porcos grunhindo, cães gafados, ladrando, lotes de negrinhos nús, aos saltos, rinchavelhando.
Steelman ia seguindo, a olhar, mas, amollecido pelo bochorno, sentindo as pernas vergarem-se, já se decidia a voltar quando viu, por entre as arvores , alvejar uma casa, á cuja frente uma latada verde cobria de sombra duas mesas toscas e dois compridos bancos mal acepilhados.
Um homem de rotundo ventre, barbúdo e sardento, fumava á porta.
Steelman adiantou-se e per cebeu, com alegria, que a casa era uma tasca : Lá estavam as garrafas, as latas de conservas, pencas de fructos e, no seboso balcão, uma pipinha de crystal com aguardente.
Pareceu-lhe aquillo um oasis providencial e logo, dirigindo-se ao gordo homem, que era francez, pediu cerveja e charutos - só havia cerveja e infame ; Steelman resignou-se e, abancando a uma das mesas, tirou o casaco, arregaçou as mangas da camisa e bebeu, depois estirou-se em um dos bancos e adormeceu.
Quando acordou a luz era branda, cantavam cigarras, e uma brisa, cheirando a florestas, sacudia as palmas dos coqueiros.
De repente, pallido, d'olhos arregalados, boquiaberto, Steelman ficou como se houvesse avistado um leão ou uma serpente - é que uma idéa irrompera, subita como uma pontada : o paquete !
Ergueu-se assustado, pagou a cerveja chóca e deitou a correr seguido de cães que ladravam e de moleques que riam, chegando á praia esfalfado justamente quando a lua, immensa e amarella, como de cêra, subia pelo ceu vasio : o paquete era um pequenino ponto no horizonte que logo desappareceu ficando no seu logar, à flor das aguas, uma estrellinha a brilhar.
As muitas e arriscadas aventuras deram a Steelman uma resignação invejavel-duas pragas surdas e um leve encolher de hombros e o grande homem retrocedeu lamentando apenas a falta de charutos e o seu inseparavel Homero.
Caminhando pelas ruellas apagadas onde come çava o despejo, chafurdando em lodo, pisando flaccidas immundicies que se esparrimavam mollemente sob os seus pés, chegou ao albergue onde o francez, na doçura da noite morna, com o cachimbo nos beiços, já bebado, afagava a carapinha d'uma negra lubrica.
Entrou, contou a sua desgraça e pediu ceia e cama.
A negra, num assomo de pudor, encolheu se toda, escondendo nudezes e o francez, com um espanto grande no carão barbudo, pôz-se a resmungar que fôra mesmo uma desgraça aquella partida do paquete e que, para ceia, se podia arranjar umas bananas fritas em azeite.
Steelman comeu as bananas e dormiu num catre, forrado de palha, n'um quarto contiguo ao do alberguista de onde, até adormecer, revoltado com aquella mollicie, ouviu a negra gemer e o homem fungar como um suino no lodo.
Cêdo, ainda escuro, Steelman saltou do catre, escancarou a porta e sahiu à procura d'agua -não havia agua, tudo era secura e miseria.
As arvores pareciam cobertas de cinza, a terra era todo um cineral, as mesmas casas pareciam feitas de cinza amassada.
Rugiu com odio e, numa assanhada revolta, responsabilisando a França por aquelle desconforto, jurou, no seu intimo, tirar uma desforra tremenda conflagrando a negrada da Senegambia contra o governo da grande Republica que assim deixava uma das suas colonias sem agua para um banho e sem um charuto.
Effectivamente, recolhendo ao albergue, meditou um vasto plano de conspiração que, numa hora de matança e de fogo, acabasse com a dominação franceza.
Redigiu a proclamação e os primeiros decretos, lançou as bases de uma constituição liberal na qual, como legislador supremo, permittia a polygamia e a nudez e, com as suas notas no bolso, sahiu a tramar.
Sabendo, por velha experiencia, que não ha povo, na face da terra, que se não julgue opprimido, Steelman dirigiu-se ao primeiro negro que encontrou, agachado junto a um poço, coçando as pernas ; chamou-o com mysterio e expoz-lhe a sua idéa.
O negro, pasmado, esfolava, escalavrava as pernas com as unhas sem perceber palavra e foi necessario que o grande homem lhe dissesse claramente - que era preciso acabar com os francezes, queimar as casas dos francezes, não deixar na terra negra memoria alguma dos francezes, juntando ás palavras, como se as illustrasse, a mimica mais precisa e feroz, para que o «comedor de carne de porco», saltando e ululando, lhe atirasse os braços ao pescoço, commovido.
E logo sahiu a concitar os companheiros e, em pouco, toda a população, reunida num bosque, ouvia a leitura da proclamação sediciosa.
Facas reluziram, fimbos entrechocaram-se e, com um juramento solemne, todos comprometteram-se a dar cabo dos brancos antes que outro sol luzisse e uma negra, com louvavel patriotismo, rasgando a saia, que era de riscas vermelhas, offereceu um trapo para bandeira.
Steelman foi acclamado salvador da Senegambia e senhor absoluto de terra e mar, desde as carvoeiras do porto até as minas do sertão.
Infelizmente, porém, um negrote mais enthusiasta ou mais bronco, sem paciencia para esperar a hora propicia da meia noite, logo á tardinha, com um facalhão afiado, vociferando contra a França despotica, sahiu á procura de francezes.
Foi preso e, ante ameaças de torturas e de morte, denunciou a conspiração sem omittir a leitura da proclamação e o episodio da bandeira.
Steelman, vendo-se perdido, ganhou a floresta e, durante noventa e tantos dias de trabalhos e sustos, de miserias e dôres, caminhou pelas brenhas, ouvindo silvos de serpentes e frémitos de tigres, nutrindo-se de fructos e de raizes, desalterando se em pantanos até que alcançou uma feitoria portugueza de onde poude passar a terras d'Europa, como cosinheiro num brigue.
Esse homem raro que conhece toda a terra e que nella tem sido tudo, encontrando-me, nas vesperas da sua repentina partida, disse-me, com verdadeiro terror : «Meu amigo, só agora ao fim de trinta e tantos annos largamente vividos neste vastissimo e descontente planeta, que tenho percorrido, como aquelle heróe do conto suabio, «sem conhecer o medo>>> vim tremer neste ponto superior da terra onde as arvores são sempre verdes e os homens sempre amarellos.
«Fui adorado por um povo forte e guerreiro que, antes de queimar resinas a meus pés, tentou arrancar-me a cabeça dos hombros; fui pastor de camelos, curtidor de couros, ras de uma horda nihilista, socialista, anarchista e tudo mais que acaba em ista e que procura destruir a ordem social; préguei num templo, passei um mez num tumulo, tentei sublevar povos, fuzilei homens e leões, pisei constituições e serpentes, cavalguei principes e zebras, fiquei tostado aos sóes africanos, tiritei em covas de esquimós, combati na China por uma religião desconhecida e defendi os christãos na Armenia, gemi em carceres, tres vezes a corda deu volta ao meu pescoço, fui tatuado, estive para soffrer uma operação decisiva que me desclassificaria e resisti a tudo sem empallidecer.
Confesso-lhe, porém, que não me atrevo a ficar neste paiz excellente onde vim conhecer o que me parecia uma palavra van - o medo.
Saio d'aqui com medo, meu amigo, varado de medo» . -E porque ? perguntei. -Porque ?!
Pois não sabe que, seduzido por um homem, consenti em alistar-me e sou hoje eleitor?
Francamente lhe digo- os que me admiram, os que andam a escrever louvores a minha coragem, não sabem que ha politicos e eleitores nesta terra ou, se sabem, ignoram como aqui são feitas as eleições.
Com uma cedula eleitoral, recebi uma caixa d'armas, dois cunhetes, uma camisa de malha, o recibo que me garante sete palmos de terra no cemiterio do Cajú ... e outros papeis.
Não ! antes a féra e os barbaros.
E o intrepido Steelman tomou passagem para o Amazonas, constando que vae viver entre anthropophagos.
Os jornaes, annunciando a sua partida, subordinaram a noticia ao titulo : « Um audaz» .
Um audaz ...
Pois sim !
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