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A Bico de Pena

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A Bico de Pena

Capítulo 43 · A Bico de Pena

A proposito das festas

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A PROPOSITO DE FESTAS EM torno do circulo eterno são varios e differentes os caminhos da vida, mas as regiões que elles percorrem são invariavelmente as mesmas.

A primeira -brumal- o ponto de partida, é a região da infancia que coincide com a ultima-nivosa - região da velhice, como se fosse uma aurora d'aquella noite, um esbatimento suave d'aquella sombra.

Segue-se -floreal, a região luminosa e alegre da adolescencia, depois germinal, a fulgurante e calida região da edade adulta que se inclina, em crepusculo, para a tréva tristonha.

Ha uma larga e facil estrada central, sem desvio, que liga os pontos extremos - é o caminho afortunado.

Por elle seguem os felizes, os que fazem a travessia com descanço, sempre protegidos por sombras gratas.

Ainda assim nem sempre os peregrinos alcançam a desejada méta porque não faltam ciladas, não raream abysmos - as mesmas flores admiraveis que enfeitam e perfumam as margens estillam veneno, as aguas limpidas dos lagos occultam serpentes e sob as folhagens que se adensam em macios tapetes trescalantes, ha vortices que devoram os caminheiros incautos.

E quantos são os que se abherram, uns por ousados, outros por curiosos, ainda outros por ambiciosos abalsando-se e perdendo-se nos invios caminhos !

Ah! os invios caminhos ... !

Esses são estreitos-uns pedregosos, outros apuados de espinhos, outros alagados por immensos marneis, outros ainda acidentados e todos estereis, com raras fontes e arvores escassas mas, como vão por varios sitios, sempre com horizontes novos, umas vezes ladeando a estrada larga, outras vezes subindo em acclives. fatigantes pelas serras escabrosas, descendo a floridos valles, são os que o Destino escolhe para os poetas, não só para que os cantem como tambem para que, com os seus cantos, dêm coragem á turba numerosa dos infelizes que os trilham.

A estrada larga é mais facil mas não é mais bella -a regularidade da sua belleza torna-a monotona.

Os aspectos dos caminhos variam de instante a instante, os mesmos perigos encantam e o orgulho de os vencer já constitue um incentivo.

Ha um lago, é necessario atravessal-o, a empreza não é facil, antes, porém, do arrojo o caminhante contempla extasiado as maravilhas que tornam o sitio admiravel e, emquanto os olhos gozam, o soffrimento adormece ... depois ... á aventura!

E, por todos esses caminhos varios, a Humanidade desfila em rumo ao seu destino.

As regiões, com os seus climas, com os seus aspectos proprios, essas não variam.

O feliz lembra-se vagamente da nevoa tenue de que sahiu para uma dôce luz.

O' a alegre passagem !

Como andava ligeiro e contente ! como tudo lhe parecia delicioso !

Não tinha cuidados nem tristes pensamentos, seguia cantando, por entre flores.

Depois o sol, o vivo sol, os fructos corados vergando os ramos das arvores, um momento de repouso num sitio aprazivel , um encontro idyllico, por fim a doçura da tarde, o silencio da noite e o serão á volta do fogo.

Felizes são os que podem achegar-se à lareira, felizes são os que sabem accumular o necessario combustivel para a noite gelada.

São como scentelhas em torno dos corações dos velhos as cabecitas louras dos netinhos garrulos, e, elles, buscando-os, sentem-se rejuvenescidos vendo nos cabellinhos annelados como lampejos do Sol da mocidade, o passado, tudo que foi, o irregressivo tempo.

Como os felizes gozam os infelizes-não á lareira, mas á beira d'um fogo, ás vezes mais vivo e mais alegre...

Pois não é verdade que as creancinhas pobres riem mais francamente ? e vendo-as os avósi nhos recordam os transes difficeis, mas os mesmos espinhaes florescem, o mesmo cardo dá a sua flor e não ha vida miseravel que não tenha, lá no fundo, como um lyrio em aguas de paúl, a sua flor de poesia.

No extremo são todos os mesmos e, quando a noite entrevece, quem póde saber, na multidão dos velhinhos trémulos e engelhados, todos com as mesmas rugas na face e com as mesmas saudades no coração, quaes foram os que vieram pela estrada facil e quaes os que tiveram de vencer os tropeços dos caminhos escabrosos?

Na morte? quem os distingue ? são todos os mesmos pobres velhinhos.

O que lhes resta no fim da vida é essa saudade grande chamada tradição.

E que é a tradição ? é o lume que as gerações se transmittem, é o fogo sagrado que a Alma dos povos, como a antiga vestal, deve conservar sempre vivo.

Todos os que viajam nos caminhos da vida trazem da peregrinação uma lembrança ou deixam ficar uma recordação.

Os poetas passam e deixam os seus hymnos, os prophétas deixam as religiões.

Aqui fica a memoria de um amor, alli a ruina de um templo.

Os velhos, à noite falam aos moços do que viram e elles, que vêm ? que encontram? tudo arrazado : a Poesia morta, a Belleza extincta e fazem a viagem sem uma impressão, sem uma alegria, sem um oasis onde se reunam confraternisados e repouzem celebrando o culto do Passado.

Não ha memoria de um só homem que tenha começado a viagem partindo da segunda região - todos vêm da nevoa infantil, todos sahem do mesmo ponto para que gozem todos os climas e tenham todas as impressões e é por isso que se perpetua no mundo o amor da Humanidade, é porque «em tudo ha um pouco do passado» .

Nós caminhamos sobre tumulos : Como os antigos guerreiros para tomarem de assalto os muros das cidades iam subindo pela mortualha, fazendo de cada cadaver o degráo da escada, nós vencemos á custa do que foi o dia de hontem é que nos deixa no amanhan, a noite, que é a morte, é que nos traz o dia- nas escadas, entre os degråos, ha um vacuo como os tumulos .

E porque havemos nós de ser ingratos com esse Passado ao qual tudo devemos ?

Quem o não lastima ?

Quem o não invoca ?

Comme nous voudrions, ne fût-ce qu'un moment, Revenir en arrière et, frissonants d'ivresse, Parcourir de nouveau le meandre charmant Que creuse en s'écoulant, dans nos cœurs la jeunesse! » A alma rumina-no fim da vida ella apenas se alimenta de saudades.

Dir-se-ha que os seculos não carecem de poesia - a Poesia é o espirito, é a mesma alma da Humanidade.

Calem-se os poetas e o mundo, com a sua agitação frenetica, ficará como um grande corpo de convulsionario rebolcando inconscientemente.

Agindo, o homem só attribue o seu trabalho á mechanica do corpo é a mão que escreve, burila, debuxa, cava, semeia, vence, erige, destróe e abençoa.

Ninguem no momento da acção, se preoccupa com a alma, ella, emtanto, é a idéa na phrase, a expressão na figura, o sentimento na paizagem, a intenção no braço do cavador, a direcção na dextra do semeador, o esforço no punho do soldado, a symetria no escopro do architecto, a furia no montante e o amor no gesto que perdôa e sagra.

Assim no progresso só se vê o producto material, ninguem penetra o segredo das coisas, que é a Poesia, creadora de Deus e da Liberdade, ubiqua como o proprio Deus.

A poesia não está só nos poemas, em tudo ella existe : sob a chlamyde e sob a blusa, sob a farda e sob o amicto-ella é a alma ...

Guia, ella tem um Norte, o Ideal ... e é porque ella o indica que a Humanidade caminha.

Todos os povos veneram a sua Poesia, quer seja ella a Illyada ou os Niebelungen, quer seja a simples farandóla no campo florido ou a suave vigilia em torno d'um rustico presepe.

Essa poesia simples, popular, que nos vem de éras perdidas, modificandose, sem todavia perder a belleza, constitúe, entre os homens, um elo forte, robustecendo nelles o sentimento patriotico.

Quem não terá visto o emigrado triste, sentado pensativamente no limiar da casa em que se installou no paiz novo, suspirar, olhando o ceu estrellado, em noites santas, a pensar nas festas que se celebram nos campos de sua terra ?

Será o eurupeu mais rude do que nós outros ? não, entretanto, apezar da intensa cultura intellectual que o distingue, é elle o povo mais conservador das tradições, mais respeitador das coisas do Passado e esse respeito dá-lhe mais resistencia á crença, prende-o mais á terra, conforta-o no desalento - como elle traz a sua religião, traz a sua poesia ...

Só nós, só nós, povo de hontem, povo infante, nós que ainda nos achamos na primeira região : brumal, por uma vaidade ridicula ou por um triste indifferentismo que demonstra o nosso desinteresse pelas coisas patrias, deixamos que pereçam essas tradições ingenuas, uns allegando que ellas são restos de um culto pagão, superstições deprimentes, abusões aviltantes, outros porque entendem que o tempo é escasso para os negocios lucrativos e que essas festas infantis revelam ingenuidade, falta de ponderação.

Que o brasileiro é um povo triste sabem quantos visitam este alegre paiz, poucos, porém, ousam dizer a verdade, que elle é ...

Em tudo quanto produzimos o que logo se nota é a absoluta falta de sinceridade, nem póde haver tal virtude quando ha imitação.

A nossa Poesia é um reflexo- os nossos poetas vivem a gemer, não porque soffram, senão porque está em voga o gemido.

Se a Arte se nubla com o nephelebatismo, surgem os nephelebatas e já temos os symphonistas, os decadistas e uma serie de bardos em ista que não valem um caracol .

A verdadeira, a genuina Poesia brasileira raramente apparece e é preciso ter um grande nome para lançar á publicidade quatro ou cinco estrophes de um puro lyrismo sem mescla de estrangeirice.

Somos um povo novo, devemos ter alegria e devemos cantal-a-só a Poesia espontanea vive, o arrebique é fragil.

Não é inspiração que nos falta e a natureza ahi está a offerecer-nos copiosas fontes mas ... a França attrahe-nos e, como nos vestimos á franceza, tambem poetamos á franceza.

E vamos deixando morrer as tradições.

Antigamente, como eram divertidas essas festas de junho-Santo Antonio, S.

João, S.

Pedro ...

Quem as gozou deve lamentar a geração de agóra, triste geração, triste e presumida, que não conheceu o encanto de uma noitada em torno da fogueira crepitante, a ouvir trovas e vaticinios, emquanto as nevoas se confundiam com o fumo dos fogos e os estrallos das bombas faziam com que não fosse ouvido o leve e amoroso rumor de um beijo.

Oh ! o passado, as festas do passado...

Quem escreve estas linhas faz a travessia da vida por trilhos difficeis e muito lhe tem custado vencer certos tramites pedregosos, mas não inveja os moços afortunados que vão pela estrada larga, mas sem encantos, saturados de philosophias e com mais descrenças e mais tédio na alma do que o frenetico Timon de Athenas.

Elle soube ser creança : na edade de brincar brincou e, ainda hoje, diante de uma fogueira, lembrando-se do velho tempo, é bem possivel que a saltasse bradando um viva ! ao santo festejado.

Mas o brasileiro começou pelo fim: E' um povo que sahiu da noite, como as estryges.

Quando entrará elle na região da alvorada?

E quando chegar á velhice, que dirá elle ás novas gerações, elle que nada leva, elle que vae destruindo e apagando o que recebeu dos bons velhos d'antanho, a crença, o amor e as tradições ?

Merencorea velhice vae ser a tua, povo de velhos que ainda balbuciam.

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Sinopse

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