Universo da obra
Universo da obra
Íris Sampaio sabia que a iluminação dourada do salão principal favorecia fotografias e escondia defeitos. A luz aquecia o mármore claro, suavizava as linhas de cansaço nos rostos e fazia os painéis de madeira parecerem menos gastos do que eram. Quatrocentas pessoas ocupavam as mesas do Hotel Alvarenga Paulista, entre taças, arranjos de flores brancas e conversas baixas que subiam sempre que o mestre de cerimônias consultava os cartões.
Ela esperava atrás da lateral do palco, com o troféu ainda a alguns minutos de distância e o discurso organizado em blocos de vinte segundos. Vestia preto. O corte reto do vestido deixava pouca margem para ajustes nervosos, escolha feita de propósito. O cabelo preso eliminava outra possibilidade de gesto inútil. Restava controlar a respiração e ouvir o próprio currículo ser transformado em narrativa pública.
O apresentador citou duas reorganizações societárias, uma disputa entre acionistas e a contenção de uma crise que ameaçara milhares de empregos. Depois resumiu uma operação de dois anos em uma “negociação brilhante”. Íris inclinou a cabeça para a coordenadora do evento.
— Ele vai precisar corrigir isso.
A mulher olhou para o palco e depois para Íris.
— Agora?
— Antes de eu agradecer.
A coordenadora levou um papel ao apresentador durante o aplauso seguinte. Ele leu, tossiu e retomou a fala.
— A doutora Íris pediu que eu esclarecesse que o resultado citado dependeu de uma equipe multidisciplinar e de dois anos de trabalho técnico.
A correção gerou risos gentis. Íris subiu os três degraus sob uma salva de palmas mais forte do que a anterior. Recebeu o troféu das mãos da presidente do Instituto Brasileiro de Governança e Direito Empresarial e tomou posição diante do púlpito.
O metal da base estava frio. Ela pousou os dedos nas laterais e encontrou o primeiro bloco do discurso.
— Nenhuma crise empresarial começa na sala em que se anuncia a crise. Quando os fatos chegam ao público, decisões já foram adiadas, relatórios já perderam precisão e pessoas já aprenderam a proteger a própria versão. O trabalho jurídico começa antes da defesa. Começa na responsabilidade técnica de perguntar o que falta e registrar quem respondeu.
A frase produziu o efeito que ela previra. Alguns celulares se ergueram. Teodoro Vilar, sentado na primeira mesa, fez um movimento mínimo de aprovação. Ao lado dele, Soraya Mendonça acompanhava a plateia com atenção profissional, avaliando reações até durante uma homenagem.
Íris agradeceu à equipe do Sampaio Vilar Advogados. Citou advogados associados, peritos e funcionários administrativos. Não mencionou a mãe, morta havia seis anos. Não mencionou o pai, que assistia à transmissão em Campinas e enviara, minutos antes, uma fotografia da televisão com o volume alto demais indicado na tela. A mensagem dele continha apenas: “Estou vendo tudo.”
Ela treinara para receber admiração sem deixar transparecer a necessidade dela. A técnica funcionava melhor em público.
No fundo do salão, perto da porta de serviço, um homem guardou o celular no bolso do paletó e olhou para o teto. Íris o percebeu porque ele era uma das poucas pessoas em pé e porque não usava gravata. O primeiro botão da camisa estava aberto. Havia algo desalinhado no terno, talvez consequência de horas de uso, e uma marca escura junto ao punho direito. Ele falava com um funcionário, apontava para uma grelha de ventilação e acompanhava a resposta com evidente impaciência.
Íris voltou ao texto.
— Este prêmio leva meu nome. O trabalho que o tornou possível leva muitos outros. Cabe a mim honrá-los com o mesmo rigor que exigimos de qualquer cliente.
Desceu do palco sem tropeçar, sem acelerar o passo e sem procurar o próprio rosto nos telões. Só quando se sentou percebeu que segurava o troféu com força. A borda da base deixara uma linha avermelhada na palma.
O jantar avançou. Vieram cumprimentos, fotografias e pedidos de conversa futura apresentados com urgência incompatível com uma noite de premiação. Íris respondeu a todos com a mesma atenção calibrada. Teodoro inclinou-se sobre a mesa.
— Você corrigiu o apresentador antes de subir.
— Ele corrigiu.
— Sob ameaça implícita.
— Não houve ameaça.
Soraya ergueu a taça de água.
— Houve prazo curto e testemunhas. Em certas áreas, basta.
Íris ia responder quando um ruído seco soou atrás do painel decorativo. O homem sem gravata atravessou o corredor lateral com dois técnicos. Parou junto à mesa, avaliou a distância entre as cadeiras e o painel, e apontou para a parede.
— Preciso abrir isso.
Íris afastou a taça do alcance dele.
— Existe um evento em curso.
— Existe um equipamento superaquecendo atrás da parede.
— O senhor pretende desmontar o salão?
— Pretendo evitar que a homenageada desmaie na sobremesa.
Ela leu o crachá preso ao bolso do paletó. VICENTE ALVARENGA. DIRETOR DE OPERAÇÕES.
O sobrenome explicava o acesso, a pressa e a certeza de que o espaço obedeceria.
— Então seja rápido, senhor Alvarenga.
— Eu seria mais rápido sem autorização oral em cinco etapas.
— Essa foi a primeira.
Ele quase sorriu. A expressão surgiu num canto da boca e desapareceu quando um dos técnicos chamou sua atenção. Vicente puxou a cadeira vazia, passou por trás da mesa e removeu duas travas do painel. A terceira resistiu. Pediu uma chave fina, agachou-se e soltou a peça com cuidado, embora a dobradiça inferior cedesse no mesmo instante.
Um sopro de ar quente escapou da abertura. O técnico mais velho desligou um módulo. Vicente perguntou pelo desvio de fluxo, recebeu uma resposta incompleta e exigiu que a equipe técnica registrasse o tempo de falha. Em menos de quatro minutos, o ar sobre as mesas perdeu o abafamento.
Ele recolocou o painel provisoriamente e voltou para devolver espaço aos convidados. Íris examinava a dobradiça quebrada.
— Seu hotel oferece jantar, prêmio e demonstração de manutenção corretiva?
— A preventiva perdeu a reunião.
— Essa resposta costuma funcionar com hóspedes?
— Funciona melhor quando o ar-condicionado volta.
A irritação que ele provocava era concreta. A curiosidade veio junto, rápida demais para ser atribuída ao constrangimento da situação. Vicente tinha o rosto marcado pelo dia, uma linha de suor seca junto à têmpora e o cheiro discreto de metal aquecido preso à camisa. Não parecia interessado em impressionar ninguém no salão. Também não parecia capaz de ignorar o que julgava errado.
— Seu punho está sujo de graxa — ela disse.
Ele olhou a manga.
— Cozinha industrial.
— Durante a premiação?
— Durante uma vistoria que deveria ter acabado às seis.
— E o senhor chegou atrasado ao próprio evento.
— O hotel chegou antes de mim.
Uma mulher aproximou-se por trás dele. Tinha quarenta e poucos anos, cabelo curto impecável e um vestido azul-escuro cuja simplicidade denunciava custo alto. A voz saiu baixa, sem esforço para disputar o volume do salão.
— A infraestrutura resolveu participar da homenagem?
Vicente deu um passo para o lado.
— Ela pediu acesso ao palco. Eu neguei.
A mulher estendeu a mão para Íris.
— Sabina Alvarenga. Vice-presidente do conselho. Parabéns, doutora Sampaio.
Íris se levantou.
— Obrigada.
— Acompanhei o trabalho do seu escritório na reorganização da Côrtes Logística e no litígio dos minoritários da Belmonte. Teodoro sabe que venho tentando marcar uma conversa há meses.
Teodoro levantou dois dedos do outro lado da mesa.
— Agora eu sei.
Sabina apresentou Vicente de forma mais completa. Diretor de operações, herdeiro executivo do fundador Gilberto Alvarenga, responsável pelas quatorze unidades da rede. Vicente recebeu a enumeração com o maxilar tenso.
— A companhia atravessa uma negociação estratégica — Sabina disse. — Surgiu uma oportunidade que exige análise rápida.
— Venda forçada não virou oportunidade porque você trocou o substantivo — Vicente respondeu.
Sabina manteve os olhos em Íris.
— Estamos avaliando a alienação de seis unidades.
— Estamos tentando descobrir quem avaliou — ele disse.
A frase cortou a camada de cordialidade entre os dois. Íris olhou de Sabina para Vicente. A divergência familiar estava exposta diante de convidados, garçons e membros do instituto. Nenhum deles tentava escondê-la.
— Eu gostaria de apresentar o tema amanhã cedo — Sabina prosseguiu. — Nosso escritório atual comunicou um impedimento nesta tarde.
Vicente virou o corpo.
— Ainda temos advogado.
— Temos uma carta de renúncia. A diferença costuma importar.
Íris pousou o troféu sobre a mesa.
— Não discutirei contratação durante uma cerimônia. Qualquer contato formal deve passar pelo sócio de gestão.
Retirou um cartão da bolsa e entregou a Sabina. O nome impresso era o de Teodoro, com telefone direto do escritório.
Sabina recebeu o cartão sem insistir.
— Oito da manhã seria possível?
— Isso será definido pelo escritório.
— Naturalmente.
Ela se despediu e seguiu para outra mesa. Vicente permaneceu por um instante, olhando o cartão nas mãos da prima.
— Você sempre recusa trabalho antes de saber quanto ele vale? — perguntou.
— Eu recusei uma conversa fora do local adequado.
— A diferença costuma importar?
— Quase sempre.
Dessa vez ele sorriu de verdade, curto e cansado. Voltou para a área técnica antes que Íris decidisse se responderia.
A cerimônia terminou depois da meia-noite. Funcionários recolhiam arranjos, dobravam toalhas e empilhavam cadeiras nas laterais. Íris recusou a oferta de Teodoro para levar o troféu ao carro. Queria carregá-lo sozinha, ainda que a peça fosse mais pesada do que parecera no palco.
Vicente surgiu perto dos elevadores com o paletó sobre o braço. A camisa trazia mais uma marca escura junto à cintura.
— Posso chamar alguém para levar isso — disse, indicando o troféu.
— Eu consigo.
— Percebi.
O painel digital marcou a descida do elevador do décimo quarto andar.
— Por que uma advogada premiada aceitaria entrar numa empresa familiar em guerra? — ele perguntou.
— Primeiro eu descobriria se a empresa está em guerra.
— Está.
— Então o senhor já prejudicou a própria resposta.
— Economizei uma reunião.
As portas se abriram. Íris entrou. Vicente ficou do lado de fora, segurando o paletó e observando-a com uma atenção que ultrapassava a cortesia. Ela percebeu o odor de metal aquecido vindo da camisa dele, misturado a um perfume discreto. A proximidade durou o tempo necessário para que o elevador esperasse um segundo comando.
Vicente baixou os olhos para a mão dela.
— Você vai marcar a palma.
Íris afrouxou os dedos sobre a base do prêmio.
— Boa noite, senhor Alvarenga.
Antes que as portas fechassem, ele disse:
— Sabina nunca oferece solução sem escolher quem pagará por ela.
O elevador iniciou a descida. Íris olhou o reflexo no metal escuro das portas. A cerimônia deixara o rosto intacto. A mão direita já exibia a marca que Vicente previra.
Ela colocou o troféu no banco do passageiro e dirigiu até o apartamento. A cidade tinha o brilho úmido de uma madrugada quente. Às 00h47, o celular vibrou no suporte do painel. Uma mensagem de Teodoro trazia a carta de renúncia do escritório que representava a Alvarenga Hotéis.
Íris estacionou na garagem e abriu o anexo antes de subir.
O texto era curto. Alegava “divergência irremediável sobre a integridade das informações fornecidas pelo cliente”. Não citava pessoas. Não descrevia documentos. A data era daquela tarde, algumas horas antes da premiação.
No apartamento, ela deixou os sapatos junto à porta, colocou o troféu sobre a mesa de jantar e abriu o notebook ainda vestida. Leu a carta uma vez, verificando a redação. Na segunda leitura, marcou as palavras “integridade” e “fornecidas”. Depois abriu a agenda compartilhada do escritório.
Havia espaço às oito.
Íris criou uma reunião de aceitação preliminar, incluiu Teodoro e Soraya, anexou a carta e acrescentou uma exigência no campo de observações: lista completa de participantes, estrutura societária atual, proposta em discussão e confirmação escrita de autoridade para contratar.
Antes de fechar o computador, olhou para o troféu. O prêmio refletia a luz fria da cozinha e parecia menor do que no palco.
Ela enviou o convite.
Helena Azevedo é a advogada mais respeitada do escritório, conhecida por ganhar causas impossíveis e por nunca misturar trabalho com desejo. Aos 39 anos, ela acha que já viu o suficiente para manter distância de homens mais novos, clientes arrogantes e promessas feitas em salas de reunião. A rotina muda quando Rafael Moura, CEO de 29 anos e herdeiro de uma rede de hotéis de luxo, a contrata para impedir que um escândalo destrua a empresa da família. Inteligente, provocador e acostumado a conseguir o que quer, Rafael entra na vida de Helena como um problema profissional. O acordo entre os dois começa com cláusulas, auditorias e jantares de negócios, porem logo vira uma negociação perigosa entre reputação, desejo e a chance de fazer uma mulher experiente baixar a guarda sem perder o próprio comando.
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