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Capítulo 1 · Ponta de Lança

Carta a Monteiro Lobato

Carta a Monteiro Lobato

M EU velho amigo. Quero também trazer as minhas flores aos vinte e cinco anos moços dos Urupês. Transcrevo de um diário: "A Ciclone observou que o Lobato não é bêsta — senta de atravessado na vida". "Na salinha da Revista metralhada de estalidos de Remington, Lobato tira talões de recibo e berra para o Caiubi — 10 Urupês, 30 Sacis, 40 Mulas-sem-cabeça. Nacionalismo e comércio. O país que lê". Com êsses trechos, apólogos autografados por Léo Vaz, recém-vindo de Piracicaba. Depois: "Lobato está célebre. O René Thiollier quer almoçar com êle no Jabaquara". 1918 — São Paulo ouvia o ruído dos primeiros aviões, voando muito alto, no azul, com mêdo de esbarrar nas casas de dois andares. E parava gente para ver. Da minha janela, naquela garçonnière que era um pouco distante do centro — na Rua Libero Badaró — olhávamos também. Por cima do cretone

de um largo sofá de palha, sem bordas, misto de diva e de cama, rodavam umas provas. Na primeira página lia-se impresso o seu nome. E mal suspeitávamos — eu e você e os outros freqüentadores daquele refúgio da cidade, que nos aparecia vulcâ- nica nos tímpanos ainda recentes da Light and Power, que uma oposição começava entre o seu livro e o avião. Hoje, passados cinco lustros, é você quem reclama a sua parte gloriosa na recuperação da nacionalidade que alguns daqueles moços iam arduamente tentar nas lutas da literatura. E lendo a frase de sua entrevista: "Os fatos provam que o verdadeiro Marco Zero de Oswald de Andrade é êsse livro", não venho retificar e sim esclarecer. De fato Urupês é anterior ao Pau-Brasil e à obra de Gilberto Freyre. Mas você, Lobato, foi o culpado de não ter a sua mere- cida parte de leão nas transformações tumultuosas, mas defini- tivas, que vieram se desdobrando desde a Semana de Arte de 22. Você foi o Gandhi do modernismo. Jejuou e produziu, quem sabe, nesse e noutros setores a mais eficaz resistência passiva de que se possa orgulhar uma vocação patriótica. No entanto, martirizaram você por ter falta de patriotismo! Essas cousas acontecem. Os vinte e cinco anos dos Urupês são outro marco. Hoje, o tumulto parou diante de uma borbo- leta mecânica, onde se pede carta de identidade para o futuro. E você tem mais que isso, tem uma heráldica inteira, onde de um lado a saudade e de outro a faísca mordaz e sadia do riso cortam o campo laborioso da vida. Contra essa rica unidade, creia, nada prevalecerá! Hoje, passados vinte e cinco anos, sua atitude aparece sob o ângulo legitimista da defesa da nacionalidade. Se Anita e nós tínhamos razão, sua luta significava a repulsa ao estrangeirismo afobado de Graça Aranha, às decadências lustrais da Europa podre, ao esnobismo social que abria os seus salões à Semana. E não percebia você que nós também trazíamos nas nossas canções, por debaixo do futurismo, a dolência e a revolta da terra brasileira. Que as camadas mais profundas, as estratifi- cações mais perdidas da nossa gente iam ser revolvidas por essa "poesia de exportação" que eu proclamava no Pau-Brasil. E que dela sairia aquêle negro de Jorge Amado saudando, no cais da Bahia, todas as raças humanas.

O seu equívoco, Lobato, e o meu também, foi ter querido ganhar a vida como qualquer mascate. Você ingressava nas lides da cidade, com aquela confiança otimista que os tempera- mentos milionários oferecem ao sádico frigorífico do capitalismo, principalmente quando êste é môço e age numa época sem polícia e numa terra sem escrita. Você oferecia um peito nu e atlético aos golpes mais profundos de que lançam mão a usura e o latrocínio. Viesse a força, o empalamento, a proscrição, você responderia sempre com aquêle riso inquietante, cheio de amanhãs, onde havia, sobretudo, uma honestidade integral, uma honestidade que não é dêste mundo. E o resultado foi mais que a força, o empalamento e a proscrição, foi a agrura de uma vida devalizada e incompreendida, ante a montagem dos grandes carnívoros que se alimentaram muitas vêzes das suas idéias, das suas iniciativas e descobertas, como o abutre do Cáucaso ante a entrega messiânica de Prometeu. De outro lado, eu partia acreditando também, mas sem as amarras da Mantiqueira que você guardava nos olhos da infância. Eu vinha dos açoites do mar, com quatro séculos de aventura transcontinental, onde minha gente travou conheci- mento, na África e na Amazônia, em Minas e no Ceará, com sêcas, jacarés, adamastores e meirinhos. Não me intimidavam, portanto, os chapéus melosos dos Graça Aranha, os sorrisos políticos dos magnatas ou o convívio gelado e interrogativo dos cristãos-novos das casas bancárias. Você não trazia essa cicloi- dia que me fazia tirar retratos, de barba, ao lado de Olavo Bilac no Jardim da Luz, batizar uma dançarina no Duomo de Milão e entrevistar Isadora Duncan nas madrugadas confortáveis dos hotéis. E por isso mesmo, muitas vêzes fêz de mim o "engra- çado arrependido" do seu conto. Você, como o caboclo, amava a sua casa de trepadeiras, longe das estradas batidas e solares. Queria era a viola no violáceo dos vales sem fim, barrados pelas montanhas, onde se escondem e agem os espíritos tute- lares. Mas a vida obrigava você a endossar letras, assinar escri- turas e travar conhecimento de perto com o Agostinho, o João, o Domingos e outros clientes vocacionais do T . . . s . . . N . . . Que flama era essa que obrigava você a deixar a pacífica modôrra da paisagem brasílica pela Ágora perigosa e barulhenta? É que, como todo poeta, você queria criar e trazia, em seu

cérebro, a ação. Você carregava no seu destino o esquema do livro e a profecia do petróleo. E aí começou a delapidação heróica. Você, insulado pela honradez, indefeso pela própria natureza do sonho que alimentava, entre os espias grosseiros do interêsse, os adventícios do lucro, os exatores tenebrosos do negócio. Pergunto-me às vêzes por que você não realizou a obra revelada na anunciação das manhãs orvalhadas dos Urupês. E respondo com minha própria vida. Há dez anos que venho trabalhando o ciclo de romances de Marco Zero e somente agora posso entregar ao editor o primeiro volume. Porque, Lobato, nós não temos os funâmbulos da pesquisa, os trapezistas do documento, não temos, enfim, as amestradas equipes com que, na sombra das lareiras e na glória dos escritórios, os homens de veludo se divertem compondo compêndios impressionantes de economia e de política, Temos a rua dura para trilhar, a mesa sem dosséis para escrever e a missão dolorosa e sobran- ceira de dizer o que pensamos. Você sentiu-se cansado e refugiou-se numa calçada, rodeado de crianças. E começou a contar histórias. A princípio, a criançada achou divertidíssimo o que você falava. Era um roldão de informações, curiosidades e ensinos que vinham trans- figurados em personagens de um país de maravilhas. Pouco a pouco a roda cresceu. Gente curiosa aproximava-se. Veio um senhor grave, sentou, outro, uma senhora de chapéu... E de um misto interessado de gente grande e de pirralhos, se compôs desde então o seu público apaixonado e crescente. Mas em torno de você, entrou a subir a atoarda mecânica de trilos e buzinas da cidade moderna, começou o cinema a passar, a pisca- piscar o anúncio luminoso, o rádio a esgoelar reencontros e gols. E a meninada pouco a pouco se distraiu. Um foi ver os Esquadrões da Madrugada. Outro o Império Submarino, um terceiro, com os dentinhos em mudança, abriu a bôca porque o Leônidas tinha machucado o dedão do pé esquerdo. E quando Tarzan passou, ali perto, pelo porto de Santos, maior era o mundo de adultos que rodeavam a sua ilustrada carochinha que o de crianças, ocupadas a dar tiro de canhão com a bôca, andar de quatro, roncar como avião, grunhir de chimpanzé e imitar a marcha truncada e fantasmal do Homem de Aço. Sinais dos tempos!

Lobato, trava-se uma luta entre Tarzan e a Emília. Mas isso há de ter fim. Já há exceções. Se, em outra ala, o garôto de Sérgio Milliet lê Macunaíma, conforme a informação do ilustre Prof. Dreyfus, êle há de voltar à Emília. E até o culto Occhialini, que desce a pé todas as semanas, das Agulhas Negras, para vir buscar o Gibi, há de trocar o Lil Abner pelo Rabicó. É uma crise imensa essa que toma conta da vida no furacão da guerra ideológica. A aparição histórica de Hitler fêz todos os sucedâneos do homem primitivo saírem da caverna, tomarem corpo blindado e lutarem. Os mitos do século XX, de Rosem- berg, foram postos nocaute pelo mocinho russo, pelo marinheiro Popeye e pelo justiçador dos sertões vaqueiros. E o super- homem de Nietzsche não pôde com o super-homem do Gibi. Mas aí é que reside o perigo candente. Um combate maior se anuncia num campo mais vasto. À sombra dos seringais gene- rosos, na extensão solar das coxilhas, nas macegas, como nas ruas comerciais, nos escritórios e nos lares do Brasil, querem liquidar com o Jeca Tatu! O Jeca, você sabe melhor do que ninguém, tem sôbre o seu Cáucaso oleoso, a pata gigantesca e astuta dos interêsses equívocos. Dão-lhe armas mas negam-lhe os mananciais do sangue que movimenta as máquinas, ergue os aviões e equipa as cavalarias mecanizadas. Êle bem que é ajudado por uma ala simpática da América do Norte, à frente da qual está o cow-boy Roosevelt e o camarada Wallace. Mas isso não basta. Lá mesmo, no solo dessa América medíocre e insípida que você conheceu, e Sérgio Milliet ainda ultimamente visitou, trava-se a luta entre os pioneiros do mundo melhor e o capitalismo de vistas curtas e unhas longas, tão longas que podem um dia alcan- çar a carne rochosa de nossas costas. Então será a vez do Jeca falar. Êle durante trinta anos garantiu a unidade da pátria contra os tubarões loiros da primeira Holanda, estendeu os ten- táculos nacionais pelo trilho continental das bandeiras, lutou com o Bequimão nas estradas maranhenses, bateu-se mais de uma vez nas ruas de Recife, ombreou com os negros revoltados de Salvador, com os mineradores paulistas, com os farroupilhas, trabalhou o sertão e a cidade... fêz o Brasil. E em paga de tudo isso, ficou aquêle ser verminado e mulambento que você foi encontrar escorando com santinhos as paredes dos ranchos mortos. Cumpre despertá-lo, Lobato! E se a tecnização não

fôr possível no aparelhamento de uma siderurgia imediata, refa- ça-se o milagre da resistência d 'Os Sertões que Euclides apontou como penhor e flecha da independência viril do nosso povo. Esqueçamos a estética e a Semana de Arte e estendamos a mão à sua oportuna e sagrada xenofobia. Hoje, as comu- nhões são necessárias. O Jeca vai para a guerra, vai dar o seu sangue pela redenção da Europa. Ficará, depois, à mercê da tecnização amável que, por acaso, queira interessar-se pelas gulodices do mundò em paz? Seria preferível refluirmos então para o coração da mata no rasto das bandeiras atuais. E lá resistir e de lá voltar para os Guararapes de amanhã. Já que é pela liberdade que se luta, que nossa independência se firme solar e decisiva, erguida sôbre a técnica e regada pelo sangue útil do petróleo que você anunciou. Sem o que, teremos que usar o chuço do Conselheiro, o cassetete dos Xavantes e o mosquetão que tenazmente derrotou todas as Holandas da nossa história. E usaremos. Que em tôrno do Urupês de hoje, se restabeleça, pois, Lobato, a rocha viva que Euclides sentiu na Stalingrado jagunça de Canudos.

Ponta de Lança

Sinopse

Ponta de Lança reúne intervenções, cartas e ensaios de Oswald de Andrade publicados originalmente em 1945. A edição Literúnico preserva o texto autoral em domínio público, sem reproduzir aparato editorial protegido.

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