Dia do Hino Nacional
Vamos lá...
"Ouviram do Ipiranga as margens plácidas / De um povo heroico o brado retumbante"
Aqui parece lindo: o povo brasileiro gritando liberdade às margens do Rio Ipiranga. Só que... não foi o povo. Quem, talvez, tenha gritado, não como na pintura do quadro de Pedro Américo, independência foi Dom Pedro I, um príncipe europeu, filho do rei de Portugal. O povo mesmo? Seguiu pobre, escravizado e explorado.
Esse "povo heroico" nem sabia o que estava rolando.
"E o sol da liberdade, em raios fúlgidos / Brilhou no céu da pátria nesse instante"
Liberdade pra quem? Porque quando o Brasil virou independente de Portugal, a escravidão continuou firme e forte por mais de 60 anos. A liberdade que o hino canta aqui é uma liberdade da elite, da monarquia, dos donos de terra. Não era do povo preto, dos indígenas, nem dos pobres.
"Se o penhor dessa igualdade / Conseguimos conquistar com braço forte"
Qual igualdade? O Brasil nasceu desigual. Concentrando terra, dinheiro e poder nas mãos de poucos. O braço forte que eles falam pode ser dos bandeirantes matando índios para desbravar as terras e converter os locais ao catolicismo. Violência, não justiça social.
"Entre outras mil, és tu, Brasil, ó Pátria amada"
Beleza, amamos o Brasil. Mas o Brasil sempre foi feito pra poucos. Enquanto um canta "pátria amada", outro passa fome. Não dá pra romantizar sem encarar a verdade.
Segunda parte...
> "Deitado eternamente em berço esplêndido"
Sabe o que é esse "berço esplêndido"? É a terra rica em ouro, diamante, madeira, café, petróleo, tudo sendo explorado desde sempre. Primeiro por Portugal, depois por elite interna, depois por empresas estrangeiras. O Brasil deitado... enquanto outros vêm e levam.
"Teus risonhos, lindos campos têm mais flores"
Tem sim. Mas também tem gente sendo expulsa do campo. Tem grileiro, tem desmatamento, tem indígena sendo morto pra que o agronegócio continue ganhando bilhões.
"Verás que um filho teu não foge à luta"
Essa parte é forte. O povo brasileiro realmente luta. Mas não deveria precisar! É um chamado do poder para que, agora sim, o único momento em que o povo é lembrado, eles seja usado pelos governantes para alguma luta dos interesses dos poderosos.
O espírito de um nacionalismo sendo enraizado para uma ideia de domínio.
Nosso hino realmente foi feito para parecer lindo e emocionante, mas tenta nos enganar o tempo todo!
Que possamos superar nossos principais problemas para que em algum momento possamos voltar nossos esforços para a criação de um novo hino, mais condizente com seu povo.
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O semáforo abriu
A corrida recomeçou
Mas quando o sinal fechou,
A corrida não parou!?
Trágico, acidente na mente
Que só queria a verdade de um repouso
>> Sinais, Tiago Andreatto
A corrida recomeçou
Mas quando o sinal fechou,
A corrida não parou!?
Trágico, acidente na mente
Que só queria a verdade de um repouso
>> Sinais, Tiago Andreatto
Você Tem Certeza? (Prévia 2)
Adriana - Bem que eu poderia ter aceito aquele papel no musical do Shrek. Assim teria dinheiro pra fazer as coisas que quero sem depender de ninguém. Mas não. A Adriana sempre sendo Adriana, sempre cheia de ideais e moral e… sempre de bolso vazio. Difícil isso. Fazer arte hoje em dia é morrer de fome.
Adriana sempre gostou de ler, de tudo. Consumia livros e livros e não só em português. Também lia em espanhol, inglês, francês. Não entendia tudo, mas lia, do seu jeito. Já escrever era um problema. Hora era bloqueio criativo, hora era um compromisso inadiável, hora era o último capítulo da novela. Escrever um projeto pra Edital então, nem pensar. Até tentou com amigos e teve uma vez que contratou profissionais pra escrever os projetos pra ela, mas nada ficava do seu agrado. Difícil!
Carlos - Não acho certo isso de “gourmetizar” as coisas, só pra cobrar mais caro. É se aproveitar da bondade das pessoas. Mas sempre foi assim, desde o início dos tempos, gente querendo se aproveitar das pessoas. Vê lá na Bíblia, os comércios nos templos. Um bando de aproveitadores.
A vida dos dois poderia seguir assim, nessa rotina de conversas recheadas de desencontros e entrelinhas não lidas. No entanto, um telefonema mudaria tudo.
Ah! Se Adriana recusasse a ligação daquele número desconhecido. Certeza que a história seria diferente. Certeza!?
Adriana - Telefone tocando!? A essa hora?
Carlos - Quem é que liga no fixo hoje em dia? Só pode ser cobrança! Você tá com alguma dívida que não me disse?
Adriana - Do jeito que você vasculha todas as contas, eu nem conseguiria, Carlos.
Estranho! Desconhecido?
Carlos - Atende!?
Adriana - Atendo!?
Carlos - Não deve ser nada importante. Mas se for atender, atende logo que já tocou duas vezes. A pessoa vai desistir.
Adriana - Não sei. Estou com um pressentimento estranho.
Carlos - Me dê aqui! Deixa que eu atendo!
Alô! Sim… É sim… Sobre o quê seria?
Uma seleção! Vou passar pra ela.
Adriana - Me dê aqui!
Carlos - Não vai recusar dessa vez!
Adriana - Não me atrapalhe, senão eu não ouço!
Tá bem… Posso sim… Amanhã de manhã no “Le Bistrô”.
Combinado. Muito obrigada!
Qual o seu nome mesmo?
Estranho… Desligou.
Carlos - E aí, me conta. Qual é a arte que vai aprontar dessa vez?
Adriana - Não sei. Ela não me deu muitos detalhes. Disse que amanhã, no café, explica melhor.
Carlos - Vê lá heim!? Se a proposta for boa, não vá recusar. E caso seja furada, nem entre “viu”. Nós não precisamos de mais gastos.
Adriana - Você não confia mesmo, né!?
Carlos - Eu confio! O problema é que eu te conheço e não esqueci ainda da última.
Não é que Adriana não ganhava dinheiro com sua arte. O problema é que ela gastava tudo que ganhava na produção do próximo espetáculo. E sempre havia o próximo e depois o próximo. “Está pronta a obra que vai revolucionar o teatro. Será um sucesso!”.
Nunca era, mas ela não desistia.
“Le Bistrô” era um lugar conhecido pela comunidade do teatro. Se reuniam lá atores, escritores, poetas, cantores e toda a bicharada “importante” da cadeia alimentar.
Os papos sempre iam até altas horas, regrados de muitas ideias “absurdas”, revolucionárias, filosóficas e de vez em quando até artísticas. Quase sempre as ideias não saíam do papel, mas quando saíam eram um evento inesquecível… até a semana seguinte.
Em Breve a obra completa, disponível na Loja do Literunico
Adriana - Bem que eu poderia ter aceito aquele papel no musical do Shrek. Assim teria dinheiro pra fazer as coisas que quero sem depender de ninguém. Mas não. A Adriana sempre sendo Adriana, sempre cheia de ideais e moral e… sempre de bolso vazio. Difícil isso. Fazer arte hoje em dia é morrer de fome.
Adriana sempre gostou de ler, de tudo. Consumia livros e livros e não só em português. Também lia em espanhol, inglês, francês. Não entendia tudo, mas lia, do seu jeito. Já escrever era um problema. Hora era bloqueio criativo, hora era um compromisso inadiável, hora era o último capítulo da novela. Escrever um projeto pra Edital então, nem pensar. Até tentou com amigos e teve uma vez que contratou profissionais pra escrever os projetos pra ela, mas nada ficava do seu agrado. Difícil!
Carlos - Não acho certo isso de “gourmetizar” as coisas, só pra cobrar mais caro. É se aproveitar da bondade das pessoas. Mas sempre foi assim, desde o início dos tempos, gente querendo se aproveitar das pessoas. Vê lá na Bíblia, os comércios nos templos. Um bando de aproveitadores.
A vida dos dois poderia seguir assim, nessa rotina de conversas recheadas de desencontros e entrelinhas não lidas. No entanto, um telefonema mudaria tudo.
Ah! Se Adriana recusasse a ligação daquele número desconhecido. Certeza que a história seria diferente. Certeza!?
Adriana - Telefone tocando!? A essa hora?
Carlos - Quem é que liga no fixo hoje em dia? Só pode ser cobrança! Você tá com alguma dívida que não me disse?
Adriana - Do jeito que você vasculha todas as contas, eu nem conseguiria, Carlos.
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Carlos - Não deve ser nada importante. Mas se for atender, atende logo que já tocou duas vezes. A pessoa vai desistir.
Adriana - Não sei. Estou com um pressentimento estranho.
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Alô! Sim… É sim… Sobre o quê seria?
Uma seleção! Vou passar pra ela.
Adriana - Me dê aqui!
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Tá bem… Posso sim… Amanhã de manhã no “Le Bistrô”.
Combinado. Muito obrigada!
Qual o seu nome mesmo?
Estranho… Desligou.
Carlos - E aí, me conta. Qual é a arte que vai aprontar dessa vez?
Adriana - Não sei. Ela não me deu muitos detalhes. Disse que amanhã, no café, explica melhor.
Carlos - Vê lá heim!? Se a proposta for boa, não vá recusar. E caso seja furada, nem entre “viu”. Nós não precisamos de mais gastos.
Adriana - Você não confia mesmo, né!?
Carlos - Eu confio! O problema é que eu te conheço e não esqueci ainda da última.
Não é que Adriana não ganhava dinheiro com sua arte. O problema é que ela gastava tudo que ganhava na produção do próximo espetáculo. E sempre havia o próximo e depois o próximo. “Está pronta a obra que vai revolucionar o teatro. Será um sucesso!”.
Nunca era, mas ela não desistia.
“Le Bistrô” era um lugar conhecido pela comunidade do teatro. Se reuniam lá atores, escritores, poetas, cantores e toda a bicharada “importante” da cadeia alimentar.
Os papos sempre iam até altas horas, regrados de muitas ideias “absurdas”, revolucionárias, filosóficas e de vez em quando até artísticas. Quase sempre as ideias não saíam do papel, mas quando saíam eram um evento inesquecível… até a semana seguinte.
Em Breve a obra completa, disponível na Loja do Literunico
#Desafio 101
Nenhum querer é maior:
amanheço em ti
E é tua boca desejada
que me dá “bom dia!”
Tua língua, desassossegada
que me banha a pele
Teus dedos curiosos
que prazer me levam
em tantos toques indecentes
que me cerram os dentes
teu roçar, insistente
não sai da minha mente:
num compasso alucinado
que explode a gente
E te dou, sem resistir
o dia inteiro…
para me engolir.
Crs Ribeiro
Nenhum querer é maior:
amanheço em ti
E é tua boca desejada
que me dá “bom dia!”
Tua língua, desassossegada
que me banha a pele
Teus dedos curiosos
que prazer me levam
em tantos toques indecentes
que me cerram os dentes
teu roçar, insistente
não sai da minha mente:
num compasso alucinado
que explode a gente
E te dou, sem resistir
o dia inteiro…
para me engolir.
Crs Ribeiro
Quero teu corpo,
teu hálito,
teu sexo.
Quero teu corpo,
mesmo já
o tendo.
Quero apossar-me
beijo a beijo,
noite a noite,
verso a verso
Até perceberes
que, mesmo distantes,
nossas mentes
amantes
são exemplos
constantes
em fazer amor
pensamento a pensamento.
Alberto Busquets.
#Desafio 101
Quero teu corpo,
teu hálito,
teu sexo.
Quero teu corpo,
mesmo já
o tendo.
Quero apossar-me
beijo a beijo,
noite a noite,
verso a verso
Até perceberes
que, mesmo distantes,
nossas mentes
amantes
são exemplos
constantes
em fazer amor
pensamento a pensamento.
Alberto Busquets.
#Desafio 101
Um beijo, na base do pescoço,
De leve como um sopro.
Desliza arteiro,
Brincando de ser fogo.
Um resvalar de derme
Despertando um mundo inteiro.
Salpicando de luzes o córtex frontal,
Liga, explode e arrepia
Imensos sistemas,
Imersos de sinapses
Transforma o relaxar,
No retesar.
Os músculos tremem,
Comprimem, te prendem.
Causando rupturas,
Colidindo,
Implodindo,
E existindo, no outro,
O desejo que nasceu em mim, mas que nunca extinguirá, em ti.
Eliz Leão
De leve como um sopro.
Desliza arteiro,
Brincando de ser fogo.
Um resvalar de derme
Despertando um mundo inteiro.
Salpicando de luzes o córtex frontal,
Liga, explode e arrepia
Imensos sistemas,
Imersos de sinapses
Transforma o relaxar,
No retesar.
Os músculos tremem,
Comprimem, te prendem.
Causando rupturas,
Colidindo,
Implodindo,
E existindo, no outro,
O desejo que nasceu em mim, mas que nunca extinguirá, em ti.
Eliz Leão
Escuta…
Teu corpo não me interessa inteiro...
Me interessa em pedaços.
Na curva distraída do pescoço,
No canto da boca que hesita,
Na dobra do pensamento
Antes de virar palavra.
Me interessa a demora dos teus gestos,
O tropeço nos teus olhos,
O deslize quase sem querer
Da tua pele chamando a minha.
Não me excita o fácil.
Me excita o quase.
O que escapa.
O que se prende no ar.
Me excita tua pressa contida,
teu desejo domesticado,
Sua vontade intensa demais
Pra ser mentira.
Eu não te quero urgente.
Eu te quero atenta.
Inteira.
Lenta.
Mas voraz.
Porque toque tem gosto.
Porque cheiro tem memória.
Porque pele tem história.
E eu?
Eu só tento ser sua poesia
Quando mordo tua palavra
Antes de dizer teu nome.
Me mantendo fEliz.
Eder B. Jr.
#
Teu corpo não me interessa inteiro...
Me interessa em pedaços.
Na curva distraída do pescoço,
No canto da boca que hesita,
Na dobra do pensamento
Antes de virar palavra.
Me interessa a demora dos teus gestos,
O tropeço nos teus olhos,
O deslize quase sem querer
Da tua pele chamando a minha.
Não me excita o fácil.
Me excita o quase.
O que escapa.
O que se prende no ar.
Me excita tua pressa contida,
teu desejo domesticado,
Sua vontade intensa demais
Pra ser mentira.
Eu não te quero urgente.
Eu te quero atenta.
Inteira.
Lenta.
Mas voraz.
Porque toque tem gosto.
Porque cheiro tem memória.
Porque pele tem história.
E eu?
Eu só tento ser sua poesia
Quando mordo tua palavra
Antes de dizer teu nome.
Me mantendo fEliz.
Eder B. Jr.
#
Tem dias que acordo com esse aperto estranho. Não sei se é tristeza, cansaço ou só um vazio mesmo. Mas aí, no meio disso, vem essa vontade quase desesperada, eu preciso me resolver e de alguma forma fazer sentido.
Tomar coragem, tomar um rumo, tomar um café e encarar o que venho fingindo não ver. Fazer sentido… ñ pro mundo, mas pra mim. Pra esse coração que vive tropeçando e tentando entender o que sente.
Queria que tudo se encaixasse, sabe? Que as palavras que escrevo tivessem um lugar. Que o silêncio falasse alguma coisa boa. Que essa bagunça dentro de mim levasse a algum lugar bonito.
Talvez a vida não seja pra fazer sentido mesmo. Mas eu, do meu jeito torto, sigo tentando. Pq tem coisa que a gente não entende, só sente.
E, às vezes, sentir já é bastante.
E entender já é demais.
Tomar coragem, tomar um rumo, tomar um café e encarar o que venho fingindo não ver. Fazer sentido… ñ pro mundo, mas pra mim. Pra esse coração que vive tropeçando e tentando entender o que sente.
Queria que tudo se encaixasse, sabe? Que as palavras que escrevo tivessem um lugar. Que o silêncio falasse alguma coisa boa. Que essa bagunça dentro de mim levasse a algum lugar bonito.
Talvez a vida não seja pra fazer sentido mesmo. Mas eu, do meu jeito torto, sigo tentando. Pq tem coisa que a gente não entende, só sente.
E, às vezes, sentir já é bastante.
E entender já é demais.
Comete um crime, descaradamente,
Atenta contra o Estado Democrático de Direito.
Com uma câmera nas mãos, todos gravaram a depredação,
como se fossem bestas selvagens que fugiram do circo tenebroso.
Nenhum temeu a punição sobre seus atos;
Preferiram vangloriar-se da aparente vitória.
Depois de serem pegos, tentaram desconstruir as imagens que elas mesmas já haviam mostrado ao mundo.
Não deveriam — nem de longe — pedir por anistia,
Nem cantar em outro idioma para se "proteger" da própria língua,
Mas enfrentar o próprio ego e pagar por seus erros.
Quem pede "anistia já!"
Já diz muito sobre seu caráter, ou melhor, sobre a falta dele.
© 2025 Rafael Araújo
Atenta contra o Estado Democrático de Direito.
Com uma câmera nas mãos, todos gravaram a depredação,
como se fossem bestas selvagens que fugiram do circo tenebroso.
Nenhum temeu a punição sobre seus atos;
Preferiram vangloriar-se da aparente vitória.
Depois de serem pegos, tentaram desconstruir as imagens que elas mesmas já haviam mostrado ao mundo.
Não deveriam — nem de longe — pedir por anistia,
Nem cantar em outro idioma para se "proteger" da própria língua,
Mas enfrentar o próprio ego e pagar por seus erros.
Quem pede "anistia já!"
Já diz muito sobre seu caráter, ou melhor, sobre a falta dele.
© 2025 Rafael Araújo
Você tem certeza? (Prévia)
(Adriana é atriz.
É Sonhadora, engajada, vive questionando o seu papel no mundo.
Ela é daquelas que sobe no palanque e grita aos quatro cantos os seus incômodos, as suas dores, as suas ânsias de vômito…
Adriana “só” queria ser ouvida o tempo todo, e não só de vez em quando, num mundo governado por homens.)
Adriana - Você já percebeu que todo mundo tem certeza, de tudo, hoje em dia!? Todo mundo acha que tá sempre certo!
(Carlos é contador.
Viciado em números, sempre preocupado com as contas a pagar, os gastos “desnecessários”, segundo ele e a forma como a população reclama de barriga cheia, segundo ele.)
Carlos - Estão todos certos! Você viu o que falaram sobre a economia no jornal? Eles estão certos! O povo tem de parar de gastar a toa e comprar do mais barato. Agem como se caviar fosse café da manhã!
(Surpreendentemente, ou não tanto assim, os dois são um casal. Você pode até achar isso a coisa mais normal do mundo. Talvez até seja, mas quem é que tem a certeza disso?)
Adriana - Tô cansada de me mandarem textos superficiais, todos cheios de razão. Tudo mastigadinho pro público, pulando de afirmações e afirmações sem chegar a lugar algum. Será que o mundo virou uma música Pop? Quatro acordes que repetem, vem e vão e todo mundo fica satisfeito porque sabe cantar o refrão?
(Adriana é dessas artistas que odeia histórias infantis. Encenar Chapeuzinho Vermelho ou Cinderela seria um pesadelo, praticamente a morte de sua arte. Na sua playlist toca tanta música que ninguém ouviu falar, que não adiantaria mencionar aqui. Vocês não iriam conhecer.)
Carlos - Eu me contento com meu pãozinho com café pela manhã, meu arroz e feijão no almoço e no jantar, de vez em quando eu belisco algo. Afinal tenho de cuidar do peso. Se bem que, você notou que trocaram o padeiro lá do mercadinho. O pão veio diferente da última vez. Não gostei do sabor!
(Para Carlos, qualquer mudança na rotina é um filme de terror. Ele sabe o valor de cada notinha fiscal que entra em casa, afinal, guarda cada uma delas, desde as da gasolina até às dos supermercados. Não haveria profissão melhor pra ele ou haveria?)
Adriana - O sabor das coisas tá mudando. Já não tem mais o mesmo gosto ir para o teatro, assistir às mesmas peças baratas com os mesmos discursos de sempre. Baratas não. Gratuitas! Afinal, segundo você, a gente nunca tem dinheiro sobrando pra essas coisas. Tô cansada, sabe!?
De andar descalça e não sentir a sensação de sujar os pés.
(Adriana é artista desde que nasceu. Segundo ela, já sapateava na barriga da mãe e as primeiras palavras foram “merda”, bem antes de falar mamãe. Sua mãe era dançarina de balé. Adriana tinha horror a balé. Tinha a certeza que era uma dança de elite, uma arte sem propósito. No fim das contas teve de aprender balé para um papel numa novela. Acabou não sendo a escolhida.)
Carlos - Não tenho saudade de nada do passado. As pessoas vivem reclamando e dizendo que antes era melhor. Melhor em quê? Hoje é igual a antes, mas diferente. Um caos como sempre. Mas não aqui em casa! Aqui em casa não!
(Carlos não teve uma infância muito fácil, mas não dá pra ter a certeza que foi difícil. O pai era a regra em pessoa e mantinha a casa a cabresto curto. Dizia ele que era assim que as coisas funcionavam e elas tinham de funcionar.
No aniversário de 9 anos de Carlos, a mãe foi embora de casa e nunca mais voltou. As coisas tornaram-se ainda mais difíceis e o pai dele desabou por um momento, mas se levantou… E nunca mais se casou.)
Adriana - Queria jantar fora. Experimentar uma comida nova, um restaurante novo. Ou fazer uma viagem, uma cidadezinha qualquer, dessas do interior do Brasil. Conhecer gente, mas gente de verdade, que ainda sente. Você sente falta disso?
(Adriana nasceu no interior do Espírito Santo. Uma cidade pequena, não muito distante de Vila Velha. Mas só nasceu lá, porque logo a família mudou-se pra São Paulo. Na metrópole as coisas mudaram rápido e a mãe logo entrou pra um importante corpo de balé e os pais se separaram. Depois vieram mais dois casamentos, que também não duraram. Adriana aprendeu bastante, conheceu gente bastante, mas não o bastante.)
Carlos - É isso! O pão!
O pão era melhor antigamente. Isso eu não posso negar. Aquele pão caseiro que a minha mãe fazia, não tinha pra ninguém. Era o melhor!
Não encontro mais esse sabor hoje em dia. E não vou gastar o meu dinheiro suado, nesses gourmetizados que vendem por aí. Nem devem ser bons. Devem ser ruins e com nomes que são cheios de frescura. Croissant, isso lá é nome de coisa gostosa.
(Apesar do abandono, tão cedo. Carlos alimentou durante toda a sua vida um certo carinho, ou melhor, uma nostalgia por pequenos detalhes da infância. Não com uma certeza inabalável de ter realmente vivido tudo aquilo e sim uma certa necessidade de um lugar seguro.)
--> Em breve, disponível na Loja do Literunico
(Adriana é atriz.
É Sonhadora, engajada, vive questionando o seu papel no mundo.
Ela é daquelas que sobe no palanque e grita aos quatro cantos os seus incômodos, as suas dores, as suas ânsias de vômito…
Adriana “só” queria ser ouvida o tempo todo, e não só de vez em quando, num mundo governado por homens.)
Adriana - Você já percebeu que todo mundo tem certeza, de tudo, hoje em dia!? Todo mundo acha que tá sempre certo!
(Carlos é contador.
Viciado em números, sempre preocupado com as contas a pagar, os gastos “desnecessários”, segundo ele e a forma como a população reclama de barriga cheia, segundo ele.)
Carlos - Estão todos certos! Você viu o que falaram sobre a economia no jornal? Eles estão certos! O povo tem de parar de gastar a toa e comprar do mais barato. Agem como se caviar fosse café da manhã!
(Surpreendentemente, ou não tanto assim, os dois são um casal. Você pode até achar isso a coisa mais normal do mundo. Talvez até seja, mas quem é que tem a certeza disso?)
Adriana - Tô cansada de me mandarem textos superficiais, todos cheios de razão. Tudo mastigadinho pro público, pulando de afirmações e afirmações sem chegar a lugar algum. Será que o mundo virou uma música Pop? Quatro acordes que repetem, vem e vão e todo mundo fica satisfeito porque sabe cantar o refrão?
(Adriana é dessas artistas que odeia histórias infantis. Encenar Chapeuzinho Vermelho ou Cinderela seria um pesadelo, praticamente a morte de sua arte. Na sua playlist toca tanta música que ninguém ouviu falar, que não adiantaria mencionar aqui. Vocês não iriam conhecer.)
Carlos - Eu me contento com meu pãozinho com café pela manhã, meu arroz e feijão no almoço e no jantar, de vez em quando eu belisco algo. Afinal tenho de cuidar do peso. Se bem que, você notou que trocaram o padeiro lá do mercadinho. O pão veio diferente da última vez. Não gostei do sabor!
(Para Carlos, qualquer mudança na rotina é um filme de terror. Ele sabe o valor de cada notinha fiscal que entra em casa, afinal, guarda cada uma delas, desde as da gasolina até às dos supermercados. Não haveria profissão melhor pra ele ou haveria?)
Adriana - O sabor das coisas tá mudando. Já não tem mais o mesmo gosto ir para o teatro, assistir às mesmas peças baratas com os mesmos discursos de sempre. Baratas não. Gratuitas! Afinal, segundo você, a gente nunca tem dinheiro sobrando pra essas coisas. Tô cansada, sabe!?
De andar descalça e não sentir a sensação de sujar os pés.
(Adriana é artista desde que nasceu. Segundo ela, já sapateava na barriga da mãe e as primeiras palavras foram “merda”, bem antes de falar mamãe. Sua mãe era dançarina de balé. Adriana tinha horror a balé. Tinha a certeza que era uma dança de elite, uma arte sem propósito. No fim das contas teve de aprender balé para um papel numa novela. Acabou não sendo a escolhida.)
Carlos - Não tenho saudade de nada do passado. As pessoas vivem reclamando e dizendo que antes era melhor. Melhor em quê? Hoje é igual a antes, mas diferente. Um caos como sempre. Mas não aqui em casa! Aqui em casa não!
(Carlos não teve uma infância muito fácil, mas não dá pra ter a certeza que foi difícil. O pai era a regra em pessoa e mantinha a casa a cabresto curto. Dizia ele que era assim que as coisas funcionavam e elas tinham de funcionar.
No aniversário de 9 anos de Carlos, a mãe foi embora de casa e nunca mais voltou. As coisas tornaram-se ainda mais difíceis e o pai dele desabou por um momento, mas se levantou… E nunca mais se casou.)
Adriana - Queria jantar fora. Experimentar uma comida nova, um restaurante novo. Ou fazer uma viagem, uma cidadezinha qualquer, dessas do interior do Brasil. Conhecer gente, mas gente de verdade, que ainda sente. Você sente falta disso?
(Adriana nasceu no interior do Espírito Santo. Uma cidade pequena, não muito distante de Vila Velha. Mas só nasceu lá, porque logo a família mudou-se pra São Paulo. Na metrópole as coisas mudaram rápido e a mãe logo entrou pra um importante corpo de balé e os pais se separaram. Depois vieram mais dois casamentos, que também não duraram. Adriana aprendeu bastante, conheceu gente bastante, mas não o bastante.)
Carlos - É isso! O pão!
O pão era melhor antigamente. Isso eu não posso negar. Aquele pão caseiro que a minha mãe fazia, não tinha pra ninguém. Era o melhor!
Não encontro mais esse sabor hoje em dia. E não vou gastar o meu dinheiro suado, nesses gourmetizados que vendem por aí. Nem devem ser bons. Devem ser ruins e com nomes que são cheios de frescura. Croissant, isso lá é nome de coisa gostosa.
(Apesar do abandono, tão cedo. Carlos alimentou durante toda a sua vida um certo carinho, ou melhor, uma nostalgia por pequenos detalhes da infância. Não com uma certeza inabalável de ter realmente vivido tudo aquilo e sim uma certa necessidade de um lugar seguro.)
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