As Pessoas Fora do Quadro Placa de Proibido Estacionar · Capítulo 7 de 18
Obra Menu

As Pessoas Fora do Quadro

Capítulo 7: As Pessoas Fora do Quadro

Havia uma parte da cidade que os mapas oficiais nomeavam como setor de transição habitacional, expressão suficientemente morna para não provocar culpa e suficientemente vaga para abarcar todo tipo de abandono prolongado. Érico a conhecia por dentro. Helena a conhecia apenas por imagens aéreas, maquetes responsivas e relatórios de reposicionamento social resumidos por sistemas de análise que sempre pareciam saber limpar demais a linguagem. Quando ele a levou até lá, caminhando por passagens de serviço, valas cobertas e corredores onde a malha de sensores rareava, o que lhe apareceu não foi uma zona de emergência, e sim um modo de vida inteiro comprimido até caber dentro do aceitável estatístico. Abrigos modulares, tendas reforçadas, pontos de energia regulada, dispensadores de água condicionada a identificação mínima, painéis de convivência segura, tudo disposto com uma competência fria que impedia o colapso visível e ao mesmo tempo impedia qualquer estabilidade verdadeira.

Os rostos que os observavam carregavam uma forma particular de reserva, a de quem já foi tantas vezes medido, estudado, assistido, remanejado, fotografado, que aprendeu a desconfiar também da bondade bem intencionada. Helena sentiu isso de imediato. Sua roupa, seu sotaque controlado, o simples modo de pisar denunciavam origem, por mais que tentasse reduzir a distância. Érico não a protegeu dessa experiência. Achou justo que ela a atravessasse. Mostrou-lhe uma mulher que perdera o direito ao módulo térmico porque ultrapassara o número de noites consecutivas permitido naquele setor. Mostrou-lhe um homem cuja vaga de recarga fora suspensa por baixa aderência a programas de reinserção. Mostrou-lhe crianças que sabiam interpretar a cor dos avisos nas placas muito antes de aprender qualquer história digna desse nome.

Em certo ponto pararam diante de um painel lateral quase idêntico à placa da praça, menor, mais novo, acoplado a um poste de distribuição. Exibia mensagens rotativas sobre limpeza, tempo de descanso, recolhimento de pertences e reorganização obrigatória em caso de auditoria. Uma camada auxiliar de orientação, visível apenas em determinados visores, sinalizava índices de saturação e prioridade de redistribuição, como se até a precariedade precisasse agora ser hierarquizada por inteligência de uso. Helena perguntou se aquilo também lhe falava. Érico respondeu que talvez todas falassem, só que a maioria das pessoas já não sabia escutar, ou escutava demais e chamava isso de normal. A frase a perturbou mais do que gostaria de admitir. Começava a perceber que sua formação em história lhe dera instrumentos para reconhecer apagamentos do passado, porém a deixara menos preparada para os apagamentos que se apresentavam como design do presente.

Ao saírem dali, passaram por um espaço vazio delimitado por placas de uso eventual e marcações no chão. Érico disse que até poucos meses antes havia naquele trecho uma fileira de barracas improvisadas. Ninguém sabia ao certo para onde seus ocupantes tinham ido. Oficialmente, a área passara por requalificação dinâmica. Na prática, fora esvaziada até deixar de ter testemunhas suficientes para contar outra versão. Helena olhou em volta e sentiu pela primeira vez uma culpa menos abstrata, não a culpa teatral de quem descobre desigualdade, e sim a vergonha específica de perceber que seu próprio campo de pesquisa ajudara, durante anos, a dar linguagem respeitável para operações como aquela.

1/1
Menu

Fazer anotação