A passagem Placa de Proibido Estacionar · Capítulo 20 de 23
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A passagem

Érico dormira no arquivo. Ao anoitecer, perguntara a Helena se podia passar a noite ali; a resposta chegara quando já consultava as áreas disponíveis. Podia, desde que verificasse a porta dos fundos. Ele a trancara, estendera o colchão ao lado do módulo seco e deixara os sapatos virados para a saída. Acordou antes do alarme, depois de passar parte da noite virado para o lado esquerdo, protegendo o curativo que trocara ao deitar.

Quando chegou ao pátio, faltavam três minutos para as cinco e meia. Trazia apenas o telefone, a chave e um casaco, pois deixara os livros e o carrinho no arquivo. Helena já estava junto ao portão, conversando com uma mulher de colete cinza, e levantou a mão quando o viu. Ele se aproximou, e Helena lhe ergueu a manga para conferir a borda do curativo. Ele disse que a ardência diminuíra e, depois que ela soltou o tecido, voltou-se para a mulher de colete, adiando o momento de decidir se devia beijar Helena.

— Esta é a Marta.

A mulher estendeu a mão. Tinha uma prancheta presa debaixo do braço e procurava alguém por cima do ombro de Érico.

— Vocês falaram da entrada depois da uma — disse. — Quero ver isso com o pessoal da limpeza antes de levar a proposta adiante.

Um homem desceu de um veículo estacionado na rua e veio abrir a corrente. Marta o apresentou como Joel, responsável pela equipe daquela manhã. Ele conhecia o percurso, distribuía o serviço e respondia pelo horário de saída dos veículos.

— Às seis a gente entra — disse Joel. — Até lá posso mostrar.

Passaram pelo painel de acolhimento disponível. Helena parou perto da entrada e procurou a referência anotada na folha. O número do sensor estava na lateral da caixa, voltado para o muro. Fotografou a etiqueta, depois recuou para incluir o acesso na imagem.

— É o mesmo número — disse a Érico. — Daqui dá para ver a chegada. Lá perto das tomadas, a coluna encobre uma parte.

Érico se alinhou com a caixa e precisou dar dois passos para o lado antes de enxergar o banco inteiro sob a cobertura. Helena anotou a coluna que encobria o trecho e guardou a câmera para seguir Marta; ainda precisavam das imagens do sensor para comparar com o que viam do chão.

Na fileira descoberta, um homem enrolava uma manta em volta de um travesseiro. Duas posições adiante, Lídia já prendia o módulo no carrinho. Reconheceu Helena e soltou a correia para cumprimentá-la.

— Vieram por causa daquele horário?

— Para ver o que daria para mudar — respondeu Helena. — Você conseguiu falar com a loja?

— A loja indicou um serviço — contou. — Usei a fechadura. Pelo menos não fiquei com aquilo parado.

Voltara ao pátio na noite anterior e conseguira a vinte e quatro. Precisava passar num endereço às sete para avaliar outra porta; ainda não sabia se teria trabalho. Queria carregar o telefone antes de sair. Érico segurou o carrinho com a mão esquerda enquanto ela apertava a fivela, e Lídia puxou a alça para testar.

— Hoje está mais leve — disse ela.

Ele sorriu, pensando na caixa que acompanhara a mulher durante dois dias. Helena esperou que Lídia passasse com o carrinho e voltou a andar junto de Marta. Érico ficou alguns passos atrás, até Joel chamá-lo para mostrar uma marca no piso.

— A roda de dentro vem por aqui. Quando chega naquele canto, o carro precisa abrir a curva.

A linha atravessava posições ainda ocupadas, e Érico acompanhou o percurso sem se colocar diante do veículo. A disposição das barracas o obrigou a conferir cada trecho que Joel apontava; no Vértice, vira lugares retirados da oferta por contrato, enquanto ali precisava descobrir quais poderiam continuar ocupados sem impedir que outra pessoa trabalhasse.

— Se começarem por esta parte, dá para deixar os do fundo até chegarem lá.

Joel se agachou e apontou uma grelha junto ao muro. Havia folhas presas entre as barras.

— Primeiro recolho o que está grosso, depois lavo. A água vem daquela ponta. Se inverter, traz sujeira para onde já passei.

— E entrar pelo outro lado?

— Vem ver.

Levou Érico até o intervalo entre a cobertura e o muro. No mapa, aquele acesso parecia largo. Uma caixa de ligação elétrica avançava sobre o piso; do outro lado, a base de uma coluna protegia duas tomadas. Joel abriu os braços para indicar a largura do veículo. Érico percebeu que o espaço restante desapareceria na primeira curva.

— Por aqui só a equipe a pé — disse Joel. — Dá para fazer uma parte com mangueira, mas preciso saber quanto fica para depois. O carro tem outro pátio às sete e meia.

Marta anotou o horário. Helena perguntou quais trechos podiam ser separados sem refazer o trabalho. Joel apontou dois grupos de posições e explicou onde precisaria levar a mangueira. Não prometeu que caberiam no tempo disponível. Teriam de acompanhar aquela manhã inteira, inclusive o escoamento.

Um aviso de desocupação soou em várias barracas. Érico olhou a hora: cinco e quarenta e cinco. As entradas começaram a se abrir. Uma mulher calçava os sapatos enquanto um menino segurava duas sacolas; perto do muro, alguém tentava soltar uma haste que emperrara. Joel voltou à rua para orientar o motorista, deixando o grupo junto à cobertura.

Lídia estava sentada perto das tomadas, com o telefone ligado. Havia três carrinhos entre o banco e uma coluna. Marta pediu que desocupassem o corredor e apontou o lado da entrada.

— Quem já recolheu pode aguardar ali. Só mantenham a passagem livre.

Érico ajudou a levar um carrinho até o trecho indicado. O homem que o puxava parou junto à parede, e ele confirmou com um gesto. Uma mulher veio atrás, procurando onde encostar um colchão enrolado. Érico mostrou o espaço que restava ao lado do primeiro módulo.

— Pode ficar aqui também.

Ela apoiou o colchão no chão e foi buscar as outras coisas. Quando voltou, havia mais dois carrinhos. O primeiro homem precisou virar o seu para abrir lugar; a alça avançou sobre o caminho. Érico a recolheu, mas a bolsa presa na estrutura bateu no módulo vizinho. Os dois donos começaram a discutir sobre quem chegara antes.

— Se encostar tudo na parede, cabe — disse alguém.

— Eu preciso conseguir tirar o meu — respondeu a mulher do colchão.

Dois recém-chegados pararam sob o painel. Um deles perguntou se a fila começava ali. O homem junto à parede disse que estavam esperando liberar as posições. Lídia se levantou do banco e atravessou o corredor para avisar que a limpeza ainda nem tinha entrado.

— Mas mandaram esperar aqui — respondeu ele, apontando Érico.

Marta veio até o grupo. Disse que não estava distribuindo vagas; quem precisasse de encaminhamento teria de consultar a disponibilidade. O homem abriu o telefone e o ergueu diante dela.

— Já consultei. Está dizendo para aguardar. Eu aguardo onde?

Érico voltou-se para o corredor que ajudara a ocupar. Quando Marta apontara, a passagem estava livre; ele confirmara dois lugares junto à parede, e os seguintes se acomodaram usando aqueles como referência. Agora, até quem estava encostado ali precisava se mover para alguém passar.

Um dos recém-chegados tentou atravessar com o módulo. A roda prendeu no fio que saía da tomada. Lídia segurou a alça antes que ele puxasse de novo, soltou o cabo e voltou ao banco para recolher seu carregador. O homem precisou recuar até o portão, pedindo às pessoas que saíssem da frente.

— Não puxa — disse Lídia. — Tem outro fio embaixo.

Helena deixou a pasta sobre o banco e foi ajudar a levantar os cabos. Quando se endireitou, a mulher do colchão perguntou se podia levar as coisas para o lugar que acabara de deixar.

— Ainda está vazio. Eu saio quando o carro chegar.

— Vamos chamar a Marta — disse Helena, tocando o braço de Érico antes que ele respondesse.

Ele assentiu e firmou o colchão contra a perna, segurando-o com a mão esquerda enquanto a mulher procurava uma sacola caída entre os carrinhos. O cheiro de roupa guardada subiu até seu rosto. A posição de onde ela saíra estava a poucos metros, visível por cima do ombro de Helena.

Às seis, os aparelhos anunciaram o encerramento das permanências. Joel apareceu junto ao portão e parou ao encontrar a passagem ocupada. O veículo aguardava na rua, com as escovas recolhidas. Ele pediu que ninguém começasse a andar enquanto verificava por onde conseguiria retirar os carrinhos.

— Um de cada vez. Primeiro este aqui.

O homem junto à parede disse que chegara antes. Joel explicou que precisava liberar a alça do carrinho da frente para alcançar os outros. Marta ficou ao lado dele, indicando onde cada pessoa podia parar sem fechar a saída. Helena recolheu a pasta e ajudou a mulher a passar com as sacolas. Érico levou o colchão até o banco, onde Lídia abrira um lugar.

Quando voltou, o menino tentava carregar sozinho o módulo que a mãe ainda terminava de prender. Érico perguntou antes de segurar a outra ponta com a mão esquerda. O menino levantou a sua, e os dois levaram o módulo devagar para fora do corredor, parando onde a mãe indicou.

O primeiro veículo entrou às seis e onze. As posições junto ao muro estavam vazias. O homem que enrolara a manta esperava com ela no colo; ao ouvir o motor, apoiou a cabeça na parede e fechou os olhos. Ainda demoraria até que a equipe alcançasse o trecho onde ele dormira.

— Esse pedaço poderia ter ficado montado mais um pouco — disse Érico a Joel.

— Hoje, agora, olhando daqui, poderia. Se eu soubesse antes, dava para organizar. — Joel indicou a entrada. — Quando cheguei, tinha que tirar todo mundo de lá primeiro.

Marta perguntou quanto do atraso podia recuperar. Ele olhou para a mangueira sendo desenrolada e disse que só saberia ao terminar o primeiro trecho. Não prometeu compensar fazendo os funcionários correrem.

Lídia guardou o carregador na bolsa. A bateria ainda não estava completa, mas precisava ir ao endereço da porta. Helena abriu caminho até seu carrinho. Antes de sair, Lídia olhou para Érico.

— Quando resolverem quem pode dormir mais, não pede papel de patrão. Ontem quem me chamou nem sabia meu sobrenome.

Ele assentiu e a acompanhou até o portão. Um dos homens que haviam chegado durante a confusão já seguia pela calçada, puxando o módulo. O outro ficara junto ao painel, tentando descobrir quanto tempo teria de esperar. Érico voltou sem saber para onde o primeiro fora.

Helena estava ao lado de Marta, com a pasta aberta. Separara a fotografia do acesso e o desenho do percurso. Érico se aproximou, mas esperou que terminassem de comparar a curva antes de falar.

— Eu disse para ficarem onde cabia um carrinho. Depois começaram a trazer os outros.

— Eu também disse para esperarem sem atrapalhar. — Marta ergueu os olhos. — Cada um olhou o espaço que precisava.

Helena virou a folha e pediu a Joel que mostrasse por onde a água tinha de passar. Ele apoiou o dedo no desenho. A mangueira passou rente ao banco, e eles se afastaram para deixar o trabalhador puxá-la.

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