Duas manhãs Placa de Proibido Estacionar · Capítulo 21 de 23
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Duas manhãs

O veículo deixou o pátio às sete e dezessete. O roteiro previa a saída às sete e dez. Joel conferiu a hora antes de subir e disse a Marta que avisaria quando chegassem ao próximo endereço. Dos onze minutos perdidos na entrada, tinham recuperado quatro. As duas posições mais próximas do fim do muro só haviam começado a ser lavadas depois das seis e cinquenta.

Helena marcou esse horário no desenho. Durante a passagem do veículo, ficara junto da coluna para observar a curva; depois acompanhara o trabalhador com a mangueira até a grelha. O caminho da água exigia terminar naquele canto. A necessidade de desocupar tudo às seis já não parecia igualmente evidente em cada trecho.

— Se eu separar essas duas e mantiver o acesso por aqui, consigo trabalhar na frente — dissera Joel, apontando a passagem que acabara de usar. — Mas preciso testar a volta sem esses onze minutos. E ninguém pode deixar carrinho nesta faixa.

Marta ficara de levar a divisão à coordenação da limpeza. Podia responder pelo acolhimento, mas a mudança no percurso precisava da outra assinatura. Joel levaria os tempos observados e examinaria a proposta com a equipe. Combinaram voltar ao assunto naquela tarde.

Érico e Helena saíram juntos. Na primeira esquina, ele perguntou se ela queria tomar café. Helena olhou o telefone antes de responder. Havia uma mensagem da equipe da exposição, cobrando a seleção final das imagens.

— Quero comer primeiro.

Entraram numa padaria onde ainda arrumavam os pães na vitrine. Helena pediu dois cafés e deixou que Érico escolhesse o que comer. Ele apontou um pão simples, depois a manteiga. Quando se sentaram, ficou de frente para a rua. Pela primeira vez desde que conhecera Helena, entrava num café sem procurar espaço para o carrinho.

Enquanto Helena partia o pão, Érico hesitava diante do prato, sem tocar na faca.

— Ontem eu fiquei esperando uma resposta que você não tinha como dar.

— Eu dei uma resposta — disse Helena, parando de cortar o pão.

— Você disse que queria estar comigo. Eu queria que provasse de onde tinha vindo essa vontade.

Helena pousou a faca, e Érico acompanhou pela janela um homem que empurrava uma bicicleta com o pneu vazio, procurando tempo para dizer o que ainda o incomodava. Ao apoiar o braço na mesa, sentiu o curativo prender na manga e se lembrou das mãos dela segurando a porta; a cópia interrompida continuava sem previsão de entrega, embora a fundação já tivesse perguntado quem assumiria a ocorrência.

— Quando você disse que precisava ficar sozinha, eu pensei no que ia acontecer com as minhas coisas. Tive vergonha de estar pensando nisso enquanto você falava de nós.

— Eu sei que você precisa de um lugar. Só não quero que toda vez que eu oferecer alguma coisa você me pergunte, de outro jeito, o que estou comprando.

Ele assentiu. Helena tomou um gole de café e aproximou o prato dele, que estava quase na borda.

— Também gostei de poder ajudar — disse ela. — Dá prazer ver você acomodado na minha sala. Ontem, se você tivesse dito que não queria mais saber daquela proposta, eu ainda teria querido você na minha cama.

Érico levantou os olhos. Helena continuava olhando para ele, com a xícara suspensa perto da boca.

— Eu queria ter ouvido isso sem fazer você repetir.

— Eu também.

Helena afastou a xícara do cotovelo dele e contou que quase voltara ao arquivo para conferir o braço, depois de pedir para ficar sozinha. Érico disse que procurara o telefone durante a noite porque ainda sentia a passagem estreita ao fechar os olhos; ao ouvir que ela acordara lembrando do vidro entre os dois, aproximou a cadeira e esperou que Helena apoiasse a cabeça em seu ombro. A atendente trouxe o pão que faltava e procurou onde deixá-lo sem afastar as mãos deles.

Quando a atendente voltou para retirar os pratos, Helena terminou o café e pediu a conta. Depois de pagar, Helena guardou o telefone e aceitou a mão que Érico lhe oferecia; seguiram até o arquivo, onde ainda precisavam preparar as fotografias daquela manhã.

No arquivo, Helena deixou a pasta na mesa e tirou o casaco. Érico pendurou o seu ao lado. Ela se voltou quando ele tocou sua cintura e esperou que se aproximasse. O beijo começou devagar; Helena o puxou pela nuca, e ele a apertou contra si, sentindo a ponta fria de seu nariz junto ao rosto. Ao se afastarem, ela continuou segurando sua camisa.

— Ainda estou chateada — disse.

— Eu sei.

Helena encostou a testa na dele antes de soltar a camisa e foi buscar o livro de Brandão, deixando a página marcada aberta perto das fotografias para que pudessem consultá-la durante o trabalho.

A equipe da exposição ligou pouco depois. Helena atendeu junto à mesa. Ouviu enquanto percorria a proposta impressa e parou na capa com o título sobre a cidade que aprendera a cuidar.

— Não vou entregar esse material com essa apresentação.

A voz do outro lado subiu o suficiente para Érico ouvir que a impressão dos painéis estava reservada. Helena pediu que suspendessem os seus. Explicou que a comparação precisava incluir quem perdera uma vaga, quem aguardava e o trabalho necessário para abrir espaço. Não queria escolher apenas fotografias de pessoas já acomodadas.

Quando desligou, tinha anotado um novo prazo. A participação de sua pesquisa na abertura ficaria suspensa até que entregasse outra seleção e refizesse os textos. Helena riscou o título na própria cópia, sem escrever outro em cima.

— Vão falar com meu pai — disse. — Desta vez vão ter que explicar também o contrato que permite retirar lugares da oferta comum.

Ela acrescentou as duas colunas fotografadas no Vértice à seleção, mantendo ocultas as identificações dos solicitantes. A comparação mostrava uma diferença que podia sustentar com aqueles documentos; para afirmar como Érico fora encaminhado ao corredor, ainda faltavam os registros internos. A administradora pedira que tratassem a ocorrência separadamente da exposição, e Helena respondeu anexando a solicitação de preservação dos arquivos, sem retirar o material sobre as reservas.

Érico esperou que guardasse a folha. Ela abriu as fotografias daquela manhã e lhe mostrou a passagem antes da chegada dos carrinhos. Precisavam mandar a Marta o que tinham observado. Trabalharam até o começo da tarde, interrompendo para comer e voltar às imagens. Helena descreveu a ocupação do corredor; Érico acrescentou os lugares que ele próprio indicara. Deixaram no relato a hora de entrada do veículo e a saída de Lídia com a bateria incompleta.

A resposta sobre o roteiro chegou pelo convênio durante esse trabalho. A cópia conservada pela administração trazia a mesma origem e a janela até nove e dezenove. O campo de apresentação ao visitante continuava vazio. Helena guardou-a junto do trecho recebido por Érico. Os registros concordavam sobre a recomendação; nenhum descrevia o que aconteceria depois que os dois começassem a conversar.

À tarde, Marta enviou a divisão examinada pela limpeza. Duas posições poderiam ser separadas da operação inicial, com barreiras e o acesso demarcado antes da chegada dos ocupantes. A saída, para quem recebesse extensão, teria de ocorrer até as seis e quarenta. A equipe precisava testar a sequência nas duas manhãs seguintes; a coordenação não aceitara atrasar o outro pátio nem prolongar o turno.

Helena abriu o desenho, e Érico procurou o trecho onde o homem da manta esperara. Quarenta minutos eram menos do que Lídia pedira naquela outra manhã. Ainda assim, alguém poderia continuar deitado durante parte da movimentação que vira do banco.

— Quem recebe esse tempo? — perguntou ele.

Marta respondeu por escrito que essa era a parte ainda por definir. Poderiam começar pelo trabalho noturno comprovado. Helena escreveu a objeção de Lídia antes que Érico a lembrasse.

— E quem passou a noite cuidando de alguém? — disse ele. — Ou ficou mudando de endereço até encontrar uma posição?

Helena acrescentou as duas situações. Parou antes de enviar e voltou ao começo da lista.

— Amanhã alguém vai chegar com uma razão que não está aqui.

Érico puxou o livro para perto e deixou a passagem sobre recusa aberta ao lado do desenho, onde apoiou o dedo.

— Quero que essa pessoa possa contar. Mesmo que a gente não tenha previsto o caso.

— E ele vai julgar se aceita.

— Vai. Dentro do que a equipe consegue fazer. Mas vai decidir uma coisa que nós não decidimos por ele.

Helena releu a mensagem de Marta: às seis e quarenta, a equipe precisaria daqueles dois lugares para concluir a lavagem e liberá-los para os próximos ocupantes.

— Eu quero que ela possa contar sem encontrar alguém da fundação primeiro — disse. — E que quem ficar esperando saiba que o lugar ainda está ocupado. Hoje vieram atrás de uma fila que nem existia.

Reescreveram a resposta. O pedido de descanso poderia considerar o relato da pessoa e o histórico de seus deslocamentos, sem exigir vínculo de emprego. Dentro dos dois lugares e do horário autorizado, o Controlador avaliaria razões que não estivessem enumeradas. Cada recusa precisaria ter uma explicação e um caminho para pedir revisão a Marta. O painel mostraria as posições ocupadas e os horários, sem expor as histórias contadas para obter a extensão.

Érico pediu que acrescentassem a atualização dos encaminhamentos. Helena incluiu também a área de espera que Marta teria de indicar no local. A autoridade para interromper a operação continuaria com os responsáveis presentes.

— Se alguém continuar aqui, pode haver quem espere mais — disse Érico, apontando uma das posições no desenho antes de enviarem.

— Pode — disse Helena. — Não vou escrever que todos ganharam.

Ela deixou o telefone entre os dois. Érico releu a resposta, procurando alguma condição que tivesse aceitado só para permanecer ao lado dela. Voltou à observação sobre o trabalho noturno e ao horário que a limpeza sustentava. Continuava querendo que aquela margem existisse, mesmo para uma pessoa que jamais conheceria.

— Pode mandar — disse.

Helena enviou. Ao fim da tarde, Marta confirmou o encaminhamento da versão completa para as duas validações. Mais tarde vieram as assinaturas: acolhimento e coordenação da limpeza, com validade para as duas manhãs seguintes. A ativação dependeria da conferência das barreiras e do acesso pela equipe, antes das novas admissões naquela noite. Marta ficaria no pátio para explicar a mudança aos usuários.

Érico abriu uma cópia no próprio telefone. A autorização permitia ao Controlador julgar aquelas extensões sem consultar novamente o casal. Helena guardou o telefone e começou a separar as fotografias que levariam.

— Vou com a Marta mostrar onde começa a espera — disse. — Você vem?

Érico pegou o casaco junto do módulo encostado na parede. Ainda precisava combinar onde dormiria naquela noite; perguntaria a Helena depois que conferissem o lugar da espera.

— Vou.

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