Quarenta minutos Placa de Proibido Estacionar · Capítulo 22 de 23
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Quarenta minutos

A faixa de espera precisou ser deslocada antes de receber a primeira pessoa. Vista no desenho, terminava longe das tomadas; no chão, obrigava quem buscasse água a passar entre os carrinhos. Helena acompanhou Marta enquanto a equipe mudava as barreiras. Érico ficou junto à torneira e pediu que um trabalhador percorresse o caminho com o módulo de transporte usado no serviço.

Só depois da conferência a operação foi ativada. O painel passou a distinguir a espera, as posições ocupadas e as duas separadas para o ensaio, vinte e cinco e vinte e seis. A possibilidade de extensão aparecia junto do horário normal de saída. Ninguém recebia os quarenta minutos apenas por entrar ali; era preciso pedir, e a resposta poderia ser contestada com Marta.

Um homem perguntou se precisava contar sua vida diante de todo mundo. Marta mostrou como enviar o relato pelo telefone e indicou onde poderiam conversar, afastados da fila. No painel ficariam o número da posição e o prazo concedido. Ele ainda olhava para a tela quando o casal saiu.

Helena chamou Érico para jantar em sua casa. Passaram no arquivo para buscar a bolsa, o carregador e o livro emprestado. Os outros cinco ficaram na prateleira. Ela pediu que mantivesse a chave; até o fim daquela semana, poderia deixar os pertences e dormir na sala quando precisasse. Depois teriam de combinar novamente.

— E hoje? — perguntou Érico, com a bolsa na mão.

— Hoje eu quero você comigo.

Ele a beijou junto à porta antes de apagar a luz. No apartamento, fizeram uma refeição com o que restara na geladeira. Helena tirou os pratos da mesa enquanto Érico lavava a panela. Quando se deitaram, ele deixou o telefone ao alcance para ouvir o alarme. Acordaram ainda no escuro e saíram juntos para o pátio, com sono e cheiro de café nas roupas.

Lídia estava na vinte e seis. Érico a reconheceu quando ela abriu uma fresta para olhar a movimentação. Chegara de madrugada, depois de encontrar dois endereços sem lugar para montar. No telefone, a saída aparecia marcada para as seis e quarenta.

— Você pediu? — perguntou ele.

— Contei por onde tinha andado. Achei que iam mandar comprovar alguma coisa.

Mostrou a resposta. O Controlador citava o tempo gasto nos deslocamentos e a falta de descanso contínuo. A justificativa não mencionava a fundação nem o vínculo com o casal. Marta informou que a decisão fora emitida durante a madrugada, dentro da autorização recebida. Não tinha validado aquele pedido individualmente.

Lídia afastou o telefone. Recebera pelo serviço da fechadura e tinha combinado a troca da outra porta para aquela tarde. O dinheiro ajudara a comprar parte do material; o restante seria fornecido pelo cliente. Ainda precisava chegar descansada o suficiente para trabalhar.

— Depois eu conto — disse, cobrindo a boca ao bocejar.

Érico se afastou. Na vinte e cinco, a entrada continuava fechada. O painel mostrava outra extensão, sem expor a razão. Ele procurou um lugar de onde pudesse acompanhar o veículo sem ficar diante das duas barracas.

Perto dos bancos, o homem que perguntara sobre o relato guardava o colchão. Também pedira mais tempo. A resposta reconhecia que chegara tarde, mas as duas posições separadas já estavam ocupadas. No trecho em que ele passara a noite, manter o módulo aberto impediria a curva do veículo.

— Eu contei também — disse a Marta. — Ela chegou depois de mim.

Marta foi com ele até o mapa. O pedido de Lídia dizia respeito ao lugar onde fora admitida; conceder uma extensão naquele outro trecho exigiria mudar a operação novamente. Ofereceu-se para rever a sequência das admissões e dos pedidos. Não conseguiria dar a ele uma daquelas duas posições sem retirar alguém.

— Então era preciso chegar na hora de sobrar o lugar certo.

Érico ouviu a reclamação pensando no serviço que Lídia ainda precisava fazer, mas, ao procurar uma razão para que o homem esperasse, percebeu que só sabia dele o que acabara de ouvir. Quase começou a explicar a noite dela; o homem já voltara a dobrar a manta. Érico ficou ao lado de Helena, acompanhando o esforço para fazer o volume caber numa sacola.

Enquanto Marta registrava a contestação sobre a distribuição dos lugares, o homem pediu que anotasse que já estava ali quando abrira o pedido. Terminou de desmontar e levou o colchão para o banco, onde teria de esperar a lavagem antes de poder estendê-lo outra vez.

Às seis, Joel verificou a passagem e fez sinal para o motorista entrar. O veículo contornou a coluna sem encontrar carrinhos no giro. A mangueira ficou do lado indicado pela equipe; quem buscava água conseguia passar sem atravessá-la. Helena anotou a hora e guardou o telefone para ajudar um usuário a encontrar a área de espera.

O serviço avançou pela primeira parte. Quando chegou ao limite das barreiras, um trabalhador puxou a mangueira para o outro lado. Joel pediu que esperasse: o novo trajeto roçava a entrada da vinte e cinco. Os dois reposicionaram o tubo antes de abrir a água. A mudança consumiu alguns minutos, que ele marcou na própria folha.

Érico ouviu o aviso das seis e vinte e cinco na barraca de Lídia. Ela abriu a entrada, ficou sentada por um instante e calçou os sapatos. Já havia dormido além da hora em que, na véspera, precisara levar as coisas para junto das tomadas.

— Deu? — perguntou ele.

— Eu dormia mais, se deixassem.

Ela sorriu ao vê-lo baixar os olhos para o relógio e lhe pediu que segurasse uma haste enquanto recolhia os objetos. Érico esperou que indicasse o ponto de apoio e o firmou com a mão esquerda, mantendo o antebraço direito afastado da estrutura. Quando o módulo se fechou, Lídia prendeu o colchão e procurou o telefone entre as ferramentas.

O homem no banco acompanhava a desmontagem. Perguntou a Marta se poderia ocupar aquele lugar quando acabassem. Ela mostrou o horário atualizado: depois da lavagem e da liberação do trecho. Ele passou a mão pelo rosto e disse que esperaria.

Lídia saiu da posição às seis e trinta e sete. O ocupante da vinte e cinco terminou dois minutos depois. Joel conferiu a faixa e retirou a primeira barreira. A lavagem começou com os dois espaços vazios. Nenhuma autorização precisou ser prorrogada além das seis e quarenta.

O veículo saiu às sete e nove. Joel contou um minuto de margem para o horário previsto e pediu que Marta mantivesse no registro a interrupção da mangueira. A equipe concluíra o serviço dentro do turno; para a segunda manhã, ainda precisava corrigir aquele desvio. Mais tarde, ele confirmou a chegada ao próximo pátio antes das sete e meia.

Depois da liberação, o homem que aguardara recebeu uma posição. Ao vê-lo abrir o módulo e estender o colchão, Érico tentou lembrar quanto tempo ele tinha dormido, até perceber que não lhe fizera essa pergunta.

Lídia continuava junto às tomadas, agora carregando o telefone com o carrinho dentro da área marcada. Helena lhe perguntou se aceitaria contar o que mudara e o que faltava mudar. Ela concordou, desde que pudesse ouvir depois e corrigir o que estivesse errado.

— E põe o que ele falou também — disse, indicando o homem que acabara de se instalar.

Marta preparava o registro da primeira manhã. Pediu a contribuição do casal sobre a confusão anterior e a escolha das condições. Os depoimentos e os tempos seriam enviados aos responsáveis e ao Controlador para a avaliação; a autorização da segunda manhã permanecia válida, com a revisão do trajeto da mangueira. A continuidade depois disso dependeria de outra decisão.

Helena confirmou o destino do material antes de gravar. Érico contou onde mandara as pessoas esperar e por que lhe parecera que havia espaço. Ela descreveu o que o mapa deixara de mostrar. Ao ouvir no resumo de seu depoimento que os quarenta minutos haviam resolvido o descanso, Lídia pediu que retirassem a frase: apesar do tempo a mais, ainda estava cansada. Marta fez a correção antes de encaminhar.

No arquivo, uma pergunta recebida pelo protocolo levou o casal a registrar as razões pelas quais apoiara a mudança. Érico retomou o café onde seu carrinho entrara e o de Sônia ficara fora; Helena acrescentou a noite de Lídia e os acessos que conseguira pela fundação. Escreveram juntos, incluindo o Vértice e as anotações no livro de Brandão, interrompendo-se quando lembravam de maneira diferente a mesma conversa.

Em outro trecho, Érico contou que quase recusara a oferta de banho e que confundira a vontade de ficar com o medo de perder um lugar para suas coisas. Helena leu e pediu que acrescentasse sua resposta: quisera beijá-lo antes de oferecer a sala. O texto ficou maior do que os dois esperavam. Ao enviar, deixaram de fora o que acontecera no quarto.

Helena separou depois as fotografias para a nova apresentação. A resposta sobre o circuito do Vértice ainda estava pendente; reuniu no arquivo digital as fotografias das duas colunas do contrato e as cópias dos comprovantes para quem conferiria as legendas, antes de abrir as imagens do pátio. Escolheu uma em que a barreira, o banco de espera e as duas barracas cabiam na mesma imagem. Érico aproximou a cadeira para ajudar com as legendas. Na primeira tentativa, escreveu que a mudança permitira aos ocupantes descansar por mais tempo. Riscou a frase e começou pela hora em que a barraca de Lídia fora recolhida.

Ao retirar da bolsa o livro de Brandão, que estava ali desde a noite anterior, Helena encontrou perto do fim uma anotação de Érico atravessando a margem e precisou virar o volume para ler.

— Você escreve cada vez menor — disse.

— Estou tentando caber ao lado de você.

Ela riu e puxou a cadeira dele para mais perto. Érico beijou seu ombro antes de voltar à fotografia. Ainda precisavam decidir a legenda do homem que esperara.

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