Minha Terra As Primaveras · Capítulo 3 de 70
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Minha Terra

Minha Terra

Minha terra tem palmeiras

Onde canta o sabiá.

G. Dias .

Todos cantam sua terra ,

Também vou cantar a minha,

Nas débeis cordas da Lira

Hei de fazê-la rainha;

-- Hei de dar-lhe a realeza

Nesse trono de beleza

Em que a mão da natureza

Esmerou-se em quanto tinha.

Correi pr’as bandas do sul

Debaixo dum céu de anil

Encontrareis o gigante

Santa Cruz, hoje Brasil;

-- É uma terra de amores

Alcatifada de flores

Onde a brisa fala amores

Nas belas tardes de Abril.

Tem tantas belezas, tantas,

A minha terra natal,

Que nem as sonha um poeta

E nem as canta um mortal!

-- É uma terra encantada

-- Mimoso jardim de fada --

-- Do mundo todo invejada,

Que o mundo não tem igual.

Não, não tem, que Deus fadou-a

Dentre todas -- a primeira:

Deu-lhe esses campos bordados,

Deu-lhe os leques da palmeira,

E a borboleta que adeja

Sobre as flores que ela beija,

Quando o vento rumoreja

Na folhagem da mangueira.

É um país majestoso

Essa terra de Tupá,

Desd’o Amazonas ao Prata,

Do Rio Grande ao Pará!

-- Tem serranias gigantes

E tem bosques verdejantes

Que repetem incessantes

Os cantos do sabiá.

Ao lado da cachoeira,

Que se despenha fremente,

Dos galhos da sapucaia

Nas horas do sol ardente,

Sobre um solo d’açucenas,

Suspensa a rede de penas

Ali nas tardes amenas

Se embala o índio indolente

Foi ali que noutro tempo

À sombra do cajazeiro

Soltava seus doces carmes

O Petrarca brasileiro;

E a bela que o escutava

Um sorriso deslizava

Para o bardo que pulsava

Seu alaúde fagueiro.

Quando Dirceu e Marília

Em terníssimos enleios

Se beijavam com ternura

Em celestes devaneios;

Da selva o vate inspirado,

O sabiá namorado,

Na laranjeira pousado

Soltava ternos gorjeios.

Foi ali, foi no Ipiranga,

Que com toda a majestade

Rompeu de lábios augustos

O brado da liberdade;

Aquela voz soberana

Voou na plaga indiana

Desde o palácio à choupana,

Desde a floresta à cidade!

Um povo ergueu-se cantando

-- Mancebos e anciãos --

E, filhos da mesma terra,

Alegres deram-se as mãos;

Foi belo ver esse povo

Em suas glórias tão novo,

Bradando cheio de fogo:

-- Portugal! somos irmãos!

Quando nasci, esse brado

Já não soava na serra

Nem os ecos da montanha

Ao longe diziam -- guerra!

Mas não sei o que sentia

Quando, a sós, eu repetia

Cheio de nobre ousadia

O nome da minha terra!

Se brasileiro eu nasci

Brasileiro hei de morrer,

Que um filho daquelas matas

Ama o céu que o viu nascer;

Chora, sim, porque tem prantos,

E são sentidos e santos

Se chora pelos encantos

Que nunca mais há de ver.

Chora, sim, como suspiro

Por esses campos que eu amo,

Pelas mangueiras copadas

E o canto do gaturamo;

Pelo rio caudaloso,

Pelo prado tão relvoso,

E pelo tiê formoso

Da goiabeira no ramo!

Quis cantar a minha terra,

Mas não pode mais a lira:

Que outro filho das montanhas

O mesmo canto desfira,

Que o proscrito, o desterrado

De ternos prantos banhado,

De saudades torturado,

Em vez de cantar -- suspira!

Tem tantas belezas, tantas,

A minha terra natal,

Que nem as sonha um poeta

E nem as canta um mortal!

-- É uma terra de amores

Alcatifada de flores

Onde a brisa em seus rumores

Murmura: -- não tem rival!

Lisboa -- 1856.

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