Dores As Primaveras · Capítulo 66 de 70
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Dores

Dores

Há dores fundas, agonias lentas,

Dramas pungentes que ninguém consola,

Ou suspeita sequer!

Mágoas maiores do que a dor dum dia,

Do que a morte bebida em taça morna

De lábios de mulher!

Doces falas de amor que o vento espalha.

Juras sentidas de constância eterna

Quebradas ao nascer;

Perfídia e olvido de passados beijos...

São dores essas que o tempo cicatriza

Dos anos no volver.

Se a donzela infiel nos rasga as folhas

Do livro d'alma, magoado e triste

Suspira o coração;

Mas depois outros olhos nos cativam,

E loucos vamos em delírios novos

Arder noutra paixão.

Amor é ó rio claro das delícias

Que atravessa o deserto, a veiga, o prado,

E o mundo todo o tem!

Que importa ao viajor que a sede abrasa,

Que quer banhar-se nessas águas claras,

Ser aqui ou além?

A veia corre, a fonte não se estanca,

E as verdes margens não se crestam nunca

Na calma dos verões;

Ou quer na primavera, ou quer no inverno,

No doce anseio do bulir das ondas

Palpitam corações.

Não! a dor sem cura, a dor que mata,

É, moço ainda, aperceber na mente

A dúvida a sorrir!

É a perda dura dum futuro inteiro

E o desfolhar sentido das sentis coroas,

Dos sonhos do porvir!

É ver que nos arrancam uma a uma

Das asas do talento as penas de ouro,

Que voam para Deus!

É ver que nos apagam d'alma as crenças

E que profanam o que santo temos

Co'o riso dos ateus!

É assistir ao desabar tremendo,

Num mesmo dia, d'ilusões douradas,

Tão cândidas de fé!

É ver sem dó a vocação torcida

Por quem devera dar-lhe alento e vida

E respeitá-la até!

É viver, flor nascida nas montanhas,

Para aclimar-se, apertada numa estufa

À falta de ar e luz!

É viver, tendo n'alma o desalento,

Sem um queixume, a disfarçar as dores

Carregando a cruz!

Oh! ninguém sabe como a dor é funda,

Quanto pranto s'engole e quanta angústia,

A alma nos desfaz!

Horas há em que a voz quase blasfema...

E o suicídio nos acena ao longe

Nas longas saturnais!

Definha-se a existência a pouco e pouco,

E ao lábio descorado o riso franco

Qual d'antes, já não vem;

Um véu nos cobre de mortal tristeza,

E a alma em luto, despida dos encantos,

Amor nem sonhos tem!

Murcha-se o viço do verdor dos anos,

Dorme-se moço e despertamos velho,

Sem fogo para amar!

E a fronte jovem que o pesar sombreia

Vai, reclinada sobre um colo impuro,

Dormir no lupanar!

Ergue-se a taça do festim da orgia,

Gasta-se a vida em noites de luxúria

No leito dos bordéis,

E o veneno se sorve a longos tragos

Nos seios brancos e nos lábios frios

Das lânguidas Frinés!

Esquecimento! - mortalha para as dores -

Aqui na terra é a embriaguez do gozo,

A febre do prazer:

A dor se afoga no fervor dos vinhos,

E no regaço das Margôs modernas

É doce então morrer!

Depois o mundo diz: - Que libertino!

A folgar no delírio dos alcouces

As asas empanou! -

Como se ele, algoz das esperanças,

As crenças infantis e a vida d'alma

Não fosse quem matou!...

Oh! há dores tão fundas como o abismo,

Dramas pungentes que ninguém consola

Ou suspeita sequer!

Dores na sombra, sem carícias d'anjo,

Sem voz de amigo, sem palavras doces,

Sem beijos de mulher!...

Rio - 1858.

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