Horas tristes As Primaveras · Capítulo 65 de 70
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Horas tristes

Horas tristes

Eu sinto que esta vida já me foge

Qual d'harpa o som final,

E não tenho, como o náufrago nas ondas

Nas trevas um fanal!

Eu sofro e esta dor que me atormenta

É um suplício atroz!

E p'ra contá-la falta à lira cordas

E aos lábios meus a voz!

Às vezes no silêncio da minh'alma,

Da noite na mudez,

Eu crio na cabeça mil fantasmas

Que aniquilo outra vez!

Dói-me inda a boca que queimei sedento

Nas esponjas de fel,

E agora sinto no bulhar da mente

A torre de Babel!

Sou triste como o pai que as belas filhas

Viu lânguidas morrer,

E já não pousam no meu rosto pálido

Os risos do prazer!

E contudo, meu Deus! eu sou bem moço,

Devera só me rir,

E ter fé e ter crença nos amores,

Na glória e no porvir!

Eu devera folgar nesta natura

De flores e de luz,

E, mancebo, voltar-me p'r'o futuro

Estrela que seduz!

Agora em vez dos hinos d'esperança,

Dos cantos juvenis,

Tenho a sátira pungente, o riso amargo,

O canto que maldiz!

Os outros, - os felizes deste mundo,

Deleitam-se em saraus;

Eu solitário sofro e odeio os homens,

P'ra mim são todos maus!

Eu olho e vejo... - a veiga é de esmeralda

O céu é todo azul.

Tudo canta e sorri... só na minh'alma

O lodo dum paul!

Mas se ela - a linda filha do meu sonho,

A pálida mulher

Das minhas fantasias, dos seus lábios

Um riso, um só me der;

Se a doce virgem pensativa e bela,

- A pudica vestal

Que eu criei numa noite de delírio

Ao som da saturnal;

Se ela vier enternecida e meiga

Sentar-se junto a mim;

Se eu ouvir sua voz mais doce e terna

Que um doce bandolim;

Se o seu lábio afagar a minha fronte

- Tão fervido vulcão!

E murmurar baixinho ao meu ouvido

As falas da paixão;

Se cair desmaiada nos meus braços

Morrendo em languidez,

De certo remoçado, alegre e louco

Sentira-me talvez!...

Talvez que eu encontrasse as alegrias

Dos tempos que lá vão,

E afogasse na luz da nova aurora

A dor do coração!

Talvez que nos meus lábios desmaiados

Brilhasse o seu sorrir,

E de novo, meu Deus, tivesse crença

Na glória e no porvir!

Talvez minh'alma ressurgisse bela

Aos raios desse sol,

E nas cordas da lira seus gorjeios

Trinasse um rouxinol!

Talvez então que eu me pegasse à vida

Com ânsia e com ardor,

E pudesse aspirando os seus perfumes

Viver do seu amor!

P'ra ela então seria a minha vida,

A glória, os sonhos meus;

E dissera chorando arrependido:

- Bendito seja Deus! -

Abril - 1858.

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